Lula coloca BRICS e integração sul-americana no centro de projeto por maior soberania do Brasil

Da Redação

Plano de governo propõe fortalecer a cooperação Sul-Sul, reformar ONU, FMI e Banco Mundial e transformar energia, infraestrutura, defesa e soberania digital em pilares de uma inserção internacional menos dependente das grandes potências.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende colocar o fortalecimento do BRICS, a reconstrução da integração sul-americana e a ampliação do protagonismo do Sul Global entre os eixos centrais da política externa de um eventual novo mandato. O programa apresentado para as eleições de 2026 conecta diplomacia, desenvolvimento econômico, financiamento, tecnologia e soberania nacional em uma estratégia destinada a ampliar a capacidade de decisão do Brasil diante da transformação acelerada da ordem mundial.

A proposta parte de uma questão fundamental para os países em desenvolvimento: grande parte das instituições que regulam as relações políticas e financeiras internacionais foi construída em uma época em que a distribuição do poder econômico mundial era profundamente diferente da atual. O crescimento da China, da Índia e de outras economias emergentes, a expansão do BRICS e a crescente importância econômica da Ásia, da África e da América Latina alteraram essa realidade sem que a governança internacional tenha mudado na mesma proporção.

Nesse cenário, o plano de Lula estabelece como objetivo aprofundar a cooperação Sul-Sul e fortalecer mecanismos multilaterais capazes de aumentar a autonomia política, econômica, financeira e tecnológica brasileira. O BRICS aparece como uma das principais ferramentas para alcançar esse objetivo.

A proposta prevê ampliar instrumentos de financiamento vinculados ao bloco, criando alternativas para projetos de infraestrutura, modernização produtiva e desenvolvimento nos países emergentes. A importância dessa estratégia ultrapassa a disponibilidade de dinheiro: diversificar fontes de financiamento significa também reduzir a vulnerabilidade de economias periféricas diante de estruturas financeiras historicamente concentradas nos centros tradicionais do poder mundial.

Isso não significa substituir uma dependência por outra ou abandonar relações econômicas com Estados Unidos e Europa. Para um país das dimensões do Brasil, a estratégia mais vantajosa é justamente ampliar o número de parceiros, mercados, fontes de financiamento e possibilidades tecnológicas, aumentando sua margem de negociação com todos eles.

O programa também propõe reformar o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e outros organismos multilaterais para ampliar o peso dos países emergentes em seus processos decisórios. O argumento é que as mudanças ocorridas na economia internacional precisam se refletir na distribuição do poder dentro das instituições responsáveis por parte significativa da governança econômica global.

A mesma lógica aparece na defesa de uma reforma da Organização das Nações Unidas, especialmente de seu Conselho de Segurança. O plano sustenta que países em desenvolvimento precisam possuir maior representação nos espaços responsáveis pelas principais decisões relacionadas à paz e à segurança internacionais.

Mas talvez um dos pontos mais importantes do projeto esteja mais próximo das fronteiras brasileiras. A América do Sul volta a ser apresentada como prioridade estratégica.

O plano propõe aprofundar a cooperação regional em infraestrutura, energia, defesa e saúde, além de fortalecer o Mercosul. Entre os objetivos está a construção progressiva de um mercado comum de energia, aproveitando a complementaridade existente entre as diferentes matrizes energéticas do continente.

Essa integração possui dimensão econômica concreta. A América do Sul reúne petróleo, gás natural, hidroeletricidade, lítio, cobre, terras agricultáveis, água doce, biodiversidade e outros recursos essenciais para a economia do século XXI. Ao mesmo tempo, a deficiência histórica de ferrovias, rodovias, hidrovias, redes elétricas e corredores logísticos entre os países mantém economias vizinhas frequentemente mais conectadas aos mercados externos do que entre si.

Integrar fisicamente o continente significa ampliar mercados para a indústria brasileira, reduzir custos logísticos e criar cadeias regionais de produção capazes de agregar valor às riquezas naturais sul-americanas antes que elas sejam exportadas.

O programa também relaciona integração regional e defesa. A proposta é preservar a América do Sul como zona de paz e fortalecer mecanismos de cooperação entre os países da região. Em uma conjuntura internacional marcada pelo crescimento dos gastos militares e pela intensificação da disputa entre grandes potências, a capacidade dos países sul-americanos de resolver suas diferenças diplomaticamente constitui um ativo estratégico.

Há ainda uma dimensão que diferencia esse projeto de concepções tradicionais de política externa: a soberania tecnológica.

Inteligência artificial, tecnologias digitais e proteção de dados aparecem explicitamente entre as prioridades internacionais. O plano propõe participação ativa do Brasil na elaboração das regras globais para essas tecnologias, além de cooperação científica e políticas destinadas a preservar a autonomia digital brasileira.

Esse ponto é decisivo. A nova divisão internacional do trabalho não ocorre apenas entre países industrializados e exportadores de matérias-primas. Ela passa também pelo controle de semicondutores, computação em nuvem, grandes modelos de inteligência artificial, infraestrutura digital, plataformas, centros de dados e enormes volumes de informações produzidas pelas sociedades.

Um país que apenas consome tecnologias concebidas e controladas no exterior pode permanecer economicamente dependente mesmo dispondo de grandes riquezas naturais e de uma economia industrial relevante. A disputa pela soberania do século XXI passa, portanto, também pelo domínio do conhecimento.

É nesse contexto que BRICS, integração sul-americana e soberania digital deixam de constituir agendas isoladas. Elas formam diferentes dimensões de uma mesma estratégia: aumentar a capacidade brasileira de escolher seus próprios caminhos.

Para o Brasil, o fortalecimento do Sul Global pode representar também oportunidades concretas de desenvolvimento. Uma política externa articulada à indústria nacional pode abrir mercados para alimentos, medicamentos, máquinas, aeronaves, serviços de engenharia, tecnologia agrícola, energia e produtos industriais brasileiros. Pode ainda facilitar investimentos conjuntos e transferência de conhecimento entre países que enfrentam desafios semelhantes.

A política externa ganha, assim, relação direta com emprego, renda e desenvolvimento dentro do país. Diplomacia não é apenas aquilo que acontece entre presidentes, chanceleres e embaixadores. Decisões sobre comércio, financiamento, tecnologia e integração produtiva determinam onde fábricas serão instaladas, quais setores receberão investimentos e quem controlará as cadeias de maior valor agregado.

O projeto apresentado por Lula recupera uma tradição histórica da diplomacia brasileira: buscar relações com diferentes centros de poder sem transformar o país em satélite automático de nenhum deles. Em um mundo cada vez mais multipolar, essa autonomia pode se tornar ainda mais importante.

O desafio estará na execução. Integração regional exige financiamento, infraestrutura e estabilidade política; soberania tecnológica requer investimentos permanentes em ciência, educação e indústria; e a reforma das instituições internacionais enfrenta resistência justamente das potências que possuem maior poder dentro delas.

Ainda assim, o desenho apresentado pelo programa estabelece uma escolha estratégica clara. Em vez de aceitar passivamente uma ordem internacional definida pelos países mais poderosos, o Brasil pretende participar da construção das novas regras e atuar conjuntamente com outras nações do Sul Global para ampliar seu espaço de decisão.

A disputa internacional das próximas décadas será travada por mercados, energia, recursos naturais, infraestrutura, tecnologia, dados e capacidade industrial. Para um país continental como o Brasil, soberania não significa isolamento. Significa possuir força econômica, tecnológica e diplomática suficiente para negociar com todos sem precisar se subordinar a nenhum.

É essa ambição que conecta BRICS, América do Sul e Sul Global no projeto apresentado por Lula: transformar a dimensão territorial, econômica e política brasileira em capacidade efetiva de influenciar uma ordem mundial que está sendo redesenhada diante de nossos olhos.