Atitude Popular

Lula critica abusos nos combustíveis e cobra estados

Da Redação

Presidente denuncia lucros abusivos em meio à guerra do Irã, aciona fiscalização federal e pressiona governadores por redução do ICMS para proteger a população.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta quinta-feira, 19 de março de 2026, uma das declarações mais duras de seu terceiro mandato ao denunciar o que classificou como exploração abusiva no mercado de combustíveis. Em meio à escalada dos preços internacionais do petróleo provocada pela guerra envolvendo o Irã, Lula acusou agentes econômicos de lucrar indevidamente com a crise e cobrou ação imediata de governadores para conter o impacto sobre a população.

Durante discurso na 17ª Caravana Federativa, em São Paulo, o presidente afirmou que parte dos aumentos registrados no Brasil não se justifica pelos custos internacionais e apontou a existência de distorções ao longo da cadeia de distribuição. “Neste país tem bandido que quer ganhar dinheiro até com o enterro da mãe”, declarou, ao criticar a elevação de preços que, segundo ele, não encontra respaldo técnico.

A fala não se limita a um desabafo político. Ela se insere em um contexto econômico global extremamente pressionado pela guerra no Oriente Médio. Segundo o próprio presidente, o preço do barril de petróleo saltou de cerca de 70 para mais de 110 dólares, impactando diretamente os custos internos.

No entanto, Lula destacou que o problema brasileiro vai além do cenário internacional. Para ele, há um processo interno de captura de preços por parte de setores do mercado, que estariam ampliando artificialmente os reajustes. O presidente citou, como exemplo, o aumento de combustíveis como o etanol, que não sofre impacto direto da guerra, mas também registrou alta, reforçando a suspeita de práticas abusivas.

Diante desse quadro, o governo decidiu intensificar a resposta institucional. Lula anunciou que órgãos como Polícia Federal, Receita Federal e Procons foram mobilizados para investigar aumentos considerados injustificados e coibir práticas de especulação. A estratégia indica uma mudança de postura, com o Estado assumindo papel mais ativo na regulação e fiscalização do mercado em um setor considerado estratégico.

A preocupação central do governo é evitar que o impacto da guerra internacional seja transferido diretamente para trabalhadores e setores produtivos. Lula foi explícito ao afirmar que não aceitará que caminhoneiros e consumidores paguem a conta de um conflito externo. A declaração dialoga diretamente com o risco crescente de paralisação da categoria, pressionada pelo aumento do diesel e pela perda de margem de lucro.

Outro eixo fundamental do discurso foi a cobrança aos governadores. O presidente defendeu que os estados atuem na redução do ICMS sobre combustíveis como forma de aliviar os preços. Segundo ele, há espaço fiscal para esse movimento e o governo federal estaria disposto a compensar parte das perdas de arrecadação, numa tentativa de construir uma solução federativa para a crise.

A proposta revela uma estratégia política clara: dividir responsabilidades e construir uma resposta coordenada entre União e estados. Ao mesmo tempo em que critica abusos do mercado, Lula também pressiona governadores a participarem do esforço de contenção de preços, evitando que o problema seja tratado exclusivamente como responsabilidade federal.

No plano internacional, o presidente conectou diretamente a crise dos combustíveis à guerra no Irã, reforçando sua crítica à escalada militar e defendendo o respeito à soberania dos países. Lula relembrou sua atuação diplomática em 2010, quando participou de negociações sobre o programa nuclear iraniano, e voltou a defender soluções baseadas no diálogo e na autodeterminação dos povos.

Essa dimensão é central para compreender o posicionamento do governo. Ao mesmo tempo em que enfrenta os efeitos econômicos internos da crise, Lula constrói uma narrativa que responsabiliza o cenário geopolítico internacional — especialmente conflitos impulsionados por grandes potências — pelos choques que atingem economias periféricas como a brasileira.

O discurso também traz um elemento estrutural importante: a disputa sobre quem captura os efeitos econômicos das crises globais. Para o governo, sem intervenção estatal, os custos da guerra tendem a ser absorvidos pela população, enquanto agentes econômicos com maior poder de mercado ampliam margens de lucro.

Ao acionar fiscalização, propor desonerações e cobrar governadores, o Executivo tenta justamente impedir esse movimento. Trata-se de uma estratégia que combina política econômica, regulação de mercado e articulação federativa, em um esforço para proteger o poder de compra da população em um momento de instabilidade global.

No limite, a fala de Lula revela mais do que uma reação conjuntural à alta dos combustíveis. Ela expõe uma disputa estrutural entre Estado, mercado e interesses privados em um setor estratégico, agravada por um contexto internacional marcado por guerra, instabilidade e pressão sobre recursos energéticos.

E é nesse cruzamento entre geopolítica e economia doméstica que se define o verdadeiro campo de batalha: não apenas o preço do combustível, mas quem paga o custo das crises do sistema internacional.