Lula defende fim da escala 6×1, transporte gratuito aos fins de semana e promete novo pacote para endividados em sabatina no SBT

Em entrevista às jornalistas Simone Queiroz, Basília Rodrigues e Marina Demori, Presidente Lula também anunciou a intenção de criar o Ministério da Segurança Pública, estabeleceu prazo de 30 dias para início do tratamento contra o câncer e desafiou Flávio Bolsonaro a autorizar a quebra de sigilos bancário e telefônico

O Presidente Lula participou de uma sabatina do SBT Brasil nesta terça-feira (20), na reta final da campanha do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Entrevistado pelas jornalistas Simone Queiroz, Basília Rodrigues e Marina Demori, o candidato à reeleição pelo PT abordou a disputa eleitoral, as medidas econômicas anunciadas durante a campanha, a redução da jornada de trabalho, a segurança pública, o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a indicação de ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF). A entrevista foi transmitida pelo SBT e está disponível no canal da emissora no YouTube.

Questionado sobre a diminuição da diferença nas pesquisas eleitorais e as avaliações de analistas de que teria atingido seu limite de crescimento, Lula reconheceu que esperava vencer no primeiro turno, mas afirmou estar confiante na vitória no segundo. Para justificar o otimismo, citou a mobilização de apoiadores e a participação popular nos atos de campanha.

“Eu confesso para você que eu achei que a gente podia ganhar as eleições no primeiro turno”, afirmou. Em seguida, declarou: “Não deu para ganhar no primeiro turno, nós agora vamos ganhar no segundo turno”.

O presidente também mencionou a realização de manifestações em diferentes cidades e disse que a mobilização espontânea de eleitores representa uma novidade política. Segundo ele, a campanha trabalha para recuperar votos em estados onde o resultado do primeiro turno ficou abaixo das expectativas, especialmente no Sul, além de reduzir a diferença em São Paulo e ampliar a votação em Minas Gerais.

Lula explica medidas anunciadas na reta final da campanha

Uma das principais questões levantadas pelas entrevistadoras foi a concentração de anúncios econômicos e sociais nas últimas semanas da campanha. As jornalistas citaram a atualização do Bolsa Família, medidas para aliviar dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) e a proposta de gratuidade do transporte coletivo aos fins de semana.

Lula rejeitou a acusação de que as iniciativas representariam estelionato eleitoral. Segundo ele, parte das medidas vinha sendo discutida anteriormente, mas só pôde avançar depois de negociações com o Congresso Nacional e da identificação de espaço no orçamento.

Sobre o Bolsa Família, explicou que o governo avaliou a possibilidade de recompor a inflação do benefício e decidiu avançar com a atualização. O presidente também lembrou os adicionais pagos a famílias com crianças e adolescentes, argumentando que o valor recebido por muitos beneficiários já ultrapassava o mínimo de R$ 600.

Ao defender a decisão, Lula sustentou que a proximidade das eleições não deveria impedir a adoção de políticas públicas consideradas necessárias. “Eu não vou deixar de dar um benefício que eu posso dar, porque tem eleição”, afirmou.

Na área do crédito, o presidente anunciou uma nova iniciativa para enfrentar o endividamento das famílias e dos pequenos empreendedores. A proposta, apresentada como uma nova etapa do programa Desenrola, prevê a compra de dívidas por meio de leilões no sistema financeiro, com o objetivo de obter descontos elevados e permitir que os devedores renegociem seus compromissos.

Lula estimou que o volume de dívidas abrangido pela iniciativa poderia chegar a R$ 300 bilhões e mencionou a possibilidade de descontos entre 92% e 95%. Também anunciou a intenção de conceder um Pix de R$ 5 mil aos beneficiários que regularizarem suas dívidas, para ajudá-los a recomeçar a vida financeira.

As condições, os critérios de elegibilidade e a fonte de financiamento de cada medida, porém, não foram detalhados integralmente na entrevista. Questionado sobre os riscos fiscais, Lula afirmou que as iniciativas respeitam as possibilidades orçamentárias e contestou a avaliação de que a expansão dos gastos produziria uma crise no ano seguinte.

Presidente rebate críticas sobre déficit fiscal

Ao responder às perguntas sobre responsabilidade fiscal, Lula afirmou que seu governo trabalha para entregar um orçamento com resultado primário positivo. Ele comparou a situação atual às contas públicas recebidas no início do mandato e defendeu seu histórico de gestão econômica.

“Responsabilidade eu tenho porque eu sei como pai de família, como trabalhador de fábrica que recebe salário que a gente não pode gastar o que a gente não tem”, declarou.

O presidente também criticou a atuação do sistema financeiro no debate sobre as contas públicas. Segundo ele, as projeções de desequilíbrio fiscal são frequentemente utilizadas para pressionar o governo, enquanto os pagamentos de juros da dívida pública recebem menos atenção no debate.

A entrevista não apresentou uma demonstração detalhada das receitas e despesas previstas para financiar todas as medidas anunciadas. A discussão sobre a sustentabilidade fiscal das propostas, portanto, permanece ligada aos dados orçamentários, às regras de implementação e à tramitação dos projetos correspondentes.

Fim da escala 6×1 e transporte gratuito aos fins de semana

A redução da jornada de trabalho ocupou uma parte importante da sabatina. Lula defendeu o fim da escala 6×1, na qual o trabalhador cumpre seis dias de trabalho para um de descanso, e afirmou que a mudança deve ampliar o tempo disponível para a vida familiar e o lazer.

O presidente relacionou a proposta às reivindicações históricas do movimento sindical e recordou sua atuação como dirigente metalúrgico. Segundo ele, categorias mais organizadas já conquistaram jornadas com cinco dias de trabalho e dois de descanso, enquanto outros segmentos continuam submetidos a escalas mais extensas.

“Agora todo mundo vai trabalhar 5 por 2”, afirmou.

Lula reconheceu que a mudança exigirá negociações sobre as particularidades de cada atividade econômica. Citou como exemplos os hospitais, as fábricas e as categorias cujos horários dependem de necessidades específicas de funcionamento. Na avaliação do presidente, a legislação deve estabelecer uma regra geral, preservando espaço para acordos que considerem as condições de cada setor.

O candidato também afirmou que pretende negociar com representantes empresariais para discutir os efeitos da redução da jornada sobre os custos das empresas. Defendeu que a ampliação do descanso dos trabalhadores seja compatibilizada com a continuidade das atividades econômicas.

Durante a entrevista, Lula anunciou ainda a intenção de encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta de emenda à Constituição para garantir transporte coletivo gratuito aos fins de semana nas cidades que dispõem desse serviço.

A medida, segundo ele, permitiria que os trabalhadores aproveitassem os dois dias de descanso para visitar parentes, passear e realizar atividades fora de casa sem que o custo das passagens limitasse sua circulação.

Ao explicar como pretende financiar a iniciativa, Lula disse que os recursos viriam das emendas parlamentares. A proposta, segundo o presidente, exigirá negociação com deputados e senadores, uma vez que a destinação dessas verbas é objeto de disputa entre o Executivo e o Legislativo.

Maioridade penal e saidinhas: presidente defende mudanças e critérios para concessão

Na área da segurança pública, Lula foi questionado sobre sua posição a respeito da redução da maioridade penal e das saídas temporárias de presos.

O presidente afirmou que mudou de posição sobre a responsabilização penal de adolescentes em situações específicas e defendeu a possibilidade de reduzir a maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos.

“Os seres humanos têm que ter a capacidade de mudar de opinião quando nós estamos convencidos de que é importante”, disse.

Lula argumentou que adolescentes de 16 anos já podem votar e escolher o presidente da República, razão pela qual considera possível discutir uma responsabilização diferenciada em situações graves. A declaração representa uma posição mais restritiva do que a tradicional defesa do PT contra a redução da maioridade penal.

Sobre as saídas temporárias, o presidente manteve sua defesa do direito de presos que atendam aos requisitos legais de visitar familiares. Ele argumentou que a reintegração social deve fazer parte dos objetivos do sistema prisional e que episódios de reincidência não justificam punir indiscriminadamente todos os beneficiários.

Lula, no entanto, afirmou que condenados por crimes graves, como estupro, não devem receber autorização para deixar a prisão. Para ele, a decisão deve considerar o tipo de delito, o comportamento do preso e os critérios legais aplicáveis.

O presidente também procurou diferenciar as atribuições do governo federal das responsabilidades dos estados. Lembrou que a Constituição de 1988 atribui aos governos estaduais a gestão das polícias Civil e Militar, enquanto a União mantém instituições como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.

Ministério da Segurança Pública e reforço das polícias federais

Lula afirmou que pretende criar o Ministério da Segurança Pública caso a proposta de emenda constitucional sobre o tema avance no Congresso. Segundo ele, a estruturação da nova pasta depende da definição das competências federais e da previsão dos recursos necessários para o funcionamento do sistema.

O presidente disse que pretende ampliar o efetivo da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, com atenção especial ao controle das fronteiras. Também defendeu a integração das forças policiais por meio de sistemas de informação e bancos de dados compartilhados entre União, estados e municípios.

Na entrevista, Lula anunciou ainda um plano para transformar 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima, com o objetivo de impedir que integrantes de organizações criminosas continuem comandando atividades ilícitas de dentro das cadeias.

A proposta busca enfrentar um dos problemas centrais da política penitenciária brasileira: a capacidade de grupos criminosos manterem redes de comunicação e comando mesmo com seus integrantes encarcerados.

O presidente ressaltou que as Forças Armadas não devem substituir as polícias no combate cotidiano ao crime. Na sua avaliação, a atividade exige instituições especializadas, orçamento próprio e coordenação entre os diferentes níveis de governo.

Lula promete tratamento contra o câncer em até 30 dias

A saúde pública foi outro tema da sabatina. Questionado sobre a demora no diagnóstico e no início do tratamento oncológico, Lula afirmou que pretende garantir que o intervalo entre a consulta, a confirmação do câncer e o começo do tratamento não ultrapasse 30 dias.

“Estamos trabalhando de forma extraordinária para que a gente garanta que entre a consulta, detectar o câncer, começar o tratamento não ultrapassa de 30 dias”, declarou.

O presidente também mencionou a expansão da radioterapia, com a instalação de aceleradores lineares nos estados e em cidades com mais de 150 mil habitantes. Segundo ele, a ampliação da capacidade de diagnóstico e tratamento deve reduzir desigualdades no acesso aos serviços especializados.

Lula relacionou a proposta à própria experiência como paciente oncológico e defendeu que os recursos disponíveis a quem pode pagar por atendimento privado também estejam acessíveis aos usuários do SUS.

O presidente citou ainda as carretas de atendimento especializado que percorrem o país para realizar exames, com atenção especial à saúde das mulheres. Também mencionou o aumento do número de médicos vinculados ao programa Mais Médicos e a expansão do Brasil Sorridente, iniciativa voltada à saúde bucal.

Ao tratar do último programa, Lula afirmou que a oferta de serviços odontológicos precisa ser acompanhada de comunicação pública mais eficiente. Segundo ele, parte da população desconhece os atendimentos disponíveis, o que limita o alcance das políticas.

As declarações apresentam metas e compromissos para uma eventual nova gestão. A efetiva redução do tempo de espera dependerá, entre outros fatores, da capacidade de atendimento, da disponibilidade de profissionais, da distribuição de equipamentos e da coordenação entre União, estados e municípios.

Indicação ao STF e proposta de mandato para ministros

A escolha de ministros do Supremo Tribunal Federal também entrou na sabatina. Lula foi questionado sobre a indicação de Jorge Messias e sobre a possibilidade de mudar os critérios de escolha dos integrantes da Corte.

O presidente rejeitou a avaliação de que teria sofrido desgaste político com a indicação e atribuiu a dificuldade de aprovação a quem se opôs ao nome. Disse que pretende priorizar critérios profissionais e jurídicos nas escolhas para o tribunal.

“Quando eu indico uma pessoa para um cargo, é para ele cumprir o que tá na Constituição e não para atender os interesses do presidente da República”, afirmou.

Lula também defendeu a discussão de mudanças no processo de escolha dos ministros do STF. Segundo ele, a sociedade deveria participar mais desse debate, e o país precisaria avaliar a adoção de mandatos para os integrantes da Corte.

“Eu quero ver se a sociedade participa disso. Eu quero que tenha mandato”, declarou.

A proposta exigiria uma discussão institucional mais ampla e mudanças no modelo vigente. Atualmente, os ministros do Supremo são indicados pelo presidente da República, após aprovação do Senado, e permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória, aos 75 anos, ou eventual saída antecipada.

Lula afirmou que ainda pretende indicar outros ministros caso seja reeleito e reiterou que considera o conhecimento jurídico e a competência profissional critérios centrais para as nomeações.

Lula desafia Flávio Bolsonaro a autorizar quebra de sigilos

Nas considerações finais, Lula voltou às acusações de corrupção que marcam a disputa eleitoral e lançou um desafio a Flávio Bolsonaro. O presidente propôs que ambos autorizem a quebra de sigilos bancário e telefônico, incluindo integrantes de suas famílias, para que eventuais suspeitas possam ser investigadas.

“Vamos quebrar o sigilo bancário, civil e jurídico. Vamos quebrar o sigilo telefônico”, afirmou.

Lula também acusou seu adversário de mentir sobre uma suposta relação com Daniel Vorcaro, personagem citado no contexto de controvérsias envolvendo o Banco Master. O presidente afirmou que Flávio teria negado conhecer Vorcaro e mencionou fotografias que, segundo ele, mostrariam o senador em situações de proximidade com o empresário.

Ao se referir ao adversário, Lula utilizou o termo “miliciano” e afirmou que pretende apresentar procurações para autorizar investigações sobre seus próprios dados e os de familiares. A proposta foi apresentada como uma forma de submeter as acusações de corrupção à apuração dos órgãos competentes.

Ao final da transmissão, o SBT informou que procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para se manifestar sobre a declaração de Lula, mas não recebeu resposta até o encerramento da entrevista.

A sabatina concentrou temas centrais da disputa presidencial: o alcance das políticas sociais, a situação fiscal, as condições de trabalho, a segurança pública e a capacidade do Estado de oferecer serviços de saúde. Na reta final do segundo turno, Lula utilizou a entrevista para defender a continuidade de seu governo e apresentar propostas que, caso reeleito, dependerão de decisões orçamentárias, negociações legislativas e implementação administrativa.

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