De operário a presidente: a trajetória de Lula e as transformações do Brasil

Neste domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva volta às urnas para disputar um quarto mandato presidencial. Aos 80 anos, o antigo operário que enfrentou a ditadura, ajudou a construir um partido de trabalhadores, chegou três vezes à Presidência e atravessou algumas das maiores crises da República protagoniza mais um capítulo da história brasileira. Das greves do ABC às políticas de combate à fome, da prisão ao retorno ao Palácio do Planalto, sua trajetória se confunde com cinco décadas de transformações sociais, conflitos políticos e disputas sobre democracia, desenvolvimento e soberania nacional.

Da Redação

Neste domingo, 25 de outubro de 2026, milhões de brasileiros voltarão às urnas para decidir quem governará o país nos próximos quatro anos. Entre os dois candidatos à Presidência da República está um homem cuja história atravessa mais de oito décadas de profundas transformações nacionais. Luiz Inácio Lula da Silva, que completará 81 anos na próxima terça-feira, nasceu numa família pobre do interior de Pernambuco, conheceu a fome, migrou para São Paulo num caminhão improvisado, trabalhou como metalúrgico, enfrentou a repressão da ditadura militar, participou da reconstrução da democracia e se tornou o primeiro operário a ocupar a Presidência do Brasil. Sua presença numa nova eleição presidencial convida o país a revisitar uma trajetória na qual a experiência pessoal de milhões de trabalhadores encontrou expressão política, mas que também foi marcada por contradições, disputas institucionais e decisões que continuam dividindo a sociedade.

Há uma força histórica particular na imagem daquele menino nordestino transformado em presidente. Não porque sua vida represente, isoladamente, todas as experiências da população brasileira, mas porque nela aparecem acontecimentos decisivos da formação social do país: a pobreza rural, a migração em massa, a industrialização do Sudeste, a organização sindical, a luta contra o autoritarismo, a construção dos partidos populares e a disputa pelo acesso aos direitos sociais. A trajetória de Lula permite acompanhar uma parte essencial da história contemporânea do Brasil por meio da vida de alguém que participou diretamente de muitos desses processos.

Luiz Inácio nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, Pernambuco, num país ainda profundamente rural, desigual e marcado pela concentração da propriedade e da renda. Era filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como dona Lindu. Sua infância foi atravessada pelas dificuldades materiais que atingiam milhões de famílias nordestinas. Em 1952, acompanhado da mãe e dos irmãos, viajou durante quase duas semanas num caminhão pau de arara em direção ao litoral paulista. A família buscava condições de sobrevivência que a terra natal não conseguia oferecer. A viagem fazia parte de um dos maiores movimentos migratórios internos da história brasileira, impulsionado pelas diferenças econômicas entre as regiões e pela concentração das oportunidades industriais no Centro-Sul.

A chegada a São Paulo não significou o desaparecimento das dificuldades. Ainda criança, Lula trabalhou como engraxate, ajudante e empregado em atividades de baixa remuneração. Mais tarde, ingressou na indústria e formou-se torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Conheceu o chão de fábrica, a disciplina da produção, os riscos da atividade industrial e a dependência do salário para a sobrevivência familiar. Em um acidente de trabalho, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda, episódio frequentemente lembrado em sua biografia. A experiência metalúrgica seria decisiva para sua formação política, pois o colocou em contato direto com trabalhadores que reivindicavam melhores salários, segurança e condições de vida.

O Brasil industrializava-se rapidamente, mas o crescimento econômico não eliminava suas desigualdades. Nas fábricas do ABC paulista, milhares de operários conviviam com jornadas exigentes, inflação elevada e restrições à organização sindical. Durante a ditadura instaurada em 1964, greves e mobilizações encontravam obstáculos impostos por um regime que limitava liberdades políticas e intervinha nas organizações trabalhistas. Foi nesse ambiente que Lula se aproximou do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Eleito presidente da entidade em 1975, passou a representar uma categoria que se tornaria protagonista de um movimento de reorganização sindical com repercussões nacionais.

As greves de 1978, 1979 e 1980 mudaram o curso de sua trajetória e contribuíram para alterar a vida política brasileira. No estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, multidões de trabalhadores se reuniam para discutir reivindicações salariais e decidir coletivamente os rumos das paralisações. As assembleias se tornaram imagens históricas da resistência operária. Nelas, a liderança de Lula ganhou projeção nacional. O dirigente sindical falava a partir da experiência compartilhada com aqueles trabalhadores, utilizando uma linguagem direta e estabelecendo uma relação política que se transformaria numa de suas características mais reconhecidas.

Em 1980, durante uma nova greve, a ditadura determinou a intervenção no sindicato e prendeu Lula e outros dirigentes com base na Lei de Segurança Nacional. O metalúrgico permaneceu 31 dias preso. A repressão evidenciava o conflito entre o processo de reorganização da sociedade civil e um regime militar que procurava controlar a abertura política. A prisão não encerrou sua atuação. Naquele mesmo ano, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, reunindo sindicalistas, movimentos populares, intelectuais, setores progressistas religiosos e organizações comprometidas com a ampliação da participação política.

A criação do PT representou uma transformação na organização partidária brasileira. Em vez de surgir exclusivamente das negociações entre lideranças tradicionais, o novo partido procurava construir representação política a partir de sindicatos, comunidades e movimentos sociais. Suas origens reuniam experiências diferentes, da luta trabalhista urbana às mobilizações camponesas, passando pelas comunidades eclesiais de base e por setores intelectuais críticos ao autoritarismo. Lula tornou-se uma das principais expressões dessa articulação, que buscava inserir as reivindicações populares no centro das decisões institucionais.

Nos anos seguintes, participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores, em 1983, e da campanha das Diretas Já, em 1984. Eleito deputado federal constituinte em 1986, integrou o Congresso responsável pela elaboração da Constituição de 1988. O texto constitucional estabeleceu um conjunto de direitos sociais, trabalhistas e políticos que se tornariam referências fundamentais da ordem democrática brasileira. Saúde como direito de todos, educação pública, liberdade sindical, proteção social e soberania popular passaram a ocupar lugar central no pacto constitucional construído depois de duas décadas de autoritarismo.

A Constituição, entretanto, não encerrou os conflitos sobre a maneira de transformar direitos formais em condições concretas de existência. A desigualdade econômica permaneceu elevada, e as disputas sobre o papel do Estado atravessaram os governos seguintes. Lula levou essas questões às eleições presidenciais de 1989, quando disputou o segundo turno contra Fernando Collor de Mello na primeira eleição direta para presidente após a ditadura. Derrotado, voltaria a concorrer em 1994 e 1998, perdendo para Fernando Henrique Cardoso. Foram anos de reorganização partidária, debates sobre privatizações, estabilização monetária, desemprego e abertura econômica.

A vitória finalmente chegou em 27 de outubro de 2002, exatamente no dia de seu aniversário de 57 anos. Lula recebeu 52,7 milhões de votos, equivalentes a 61,27% dos votos válidos, derrotando José Serra. A eleição marcou a chegada à Presidência de um dirigente cuja vida havia começado nas condições de pobreza vividas por milhões de brasileiros. Sua posse, em 1º de janeiro de 2003, simbolizou uma mudança importante na representação social do poder político. Um antigo trabalhador metalúrgico passava a ocupar o cargo mais elevado da República, depois de uma trajetória construída em sindicatos, movimentos sociais e disputas eleitorais.

O primeiro governo Lula ocorreu num ambiente econômico complexo. O país enfrentava preocupações com inflação, dívida pública, vulnerabilidade externa e confiança dos investidores. O novo presidente manteve compromissos importantes com a estabilidade macroeconômica, ao mesmo tempo em que procurou ampliar programas sociais e fortalecer o mercado interno. A combinação dessas orientações produziu resultados econômicos e sociais relevantes, mas também gerou críticas de setores que esperavam mudanças mais profundas na distribuição da riqueza e na estrutura econômica brasileira.

Uma das marcas centrais daquele período foi a prioridade atribuída ao combate à fome. O Fome Zero, lançado em 2003, transformou a segurança alimentar em tema central da agenda governamental. A criação do Bolsa Família reuniu diferentes programas de transferência de renda num sistema nacional voltado às famílias de menor rendimento. A iniciativa tornou-se um dos instrumentos mais conhecidos da política social brasileira, associando apoio financeiro à busca de maior acesso à educação e à saúde. Seus efeitos foram objeto de estudos nacionais e internacionais, que identificaram contribuições importantes para a redução da pobreza e da desigualdade, embora o desempenho econômico, a valorização salarial e outras políticas públicas também tenham participado dessas transformações.

Para compreender o significado social dessas medidas, é necessário lembrar que a pobreza não se manifesta apenas como ausência de dinheiro. Ela interfere na alimentação das crianças, na continuidade dos estudos, nas condições de moradia, no acesso ao transporte e nas oportunidades de inserção profissional. Uma transferência regular de renda pode reduzir a insegurança material imediata e ampliar a capacidade de planejamento familiar. Sua importância, entretanto, não elimina a necessidade de políticas de emprego, educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento produtivo. A superação duradoura da pobreza depende de transformações que ultrapassam qualquer programa isolado.

A valorização do salário mínimo também ocupou posição importante na política econômica e social dos governos Lula. Entre 2003 e 2010, o mínimo acumulou ganho real expressivo, ampliando o poder aquisitivo de trabalhadores e de beneficiários previdenciários cujos rendimentos acompanham esse valor. A medida contribuiu para fortalecer o consumo doméstico, especialmente nos municípios onde salários e benefícios representam parcela significativa da renda local. O crescimento do mercado interno, associado a condições internacionais favoráveis e à expansão do crédito, marcou parte importante daquele período.

A educação constituiu outro campo de transformações. O Programa Universidade para Todos, instituído em 2005, ampliou o acesso de estudantes de baixa renda ao ensino superior privado mediante bolsas integrais e parciais. Ao completar duas décadas, em 2025, o programa havia registrado mais de 3,6 milhões de bolsas ocupadas e aproximadamente 1,5 milhão de estudantes diplomados, segundo o Ministério da Educação. A expansão das universidades federais, a interiorização dos campi e a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia também modificaram o mapa do ensino público brasileiro.

Em dezembro de 2008, Lula sancionou a lei que criou 38 Institutos Federais, reorganizando e ampliando a rede de educação profissional e tecnológica. A política levou cursos técnicos, licenciaturas e formações superiores a municípios que historicamente concentravam poucas oportunidades educacionais. Para milhares de famílias, a existência de instituições públicas fora das grandes capitais alterou as possibilidades de formação de seus filhos. O crescimento do acesso ao ensino não resolveu todos os problemas de qualidade, financiamento e permanência estudantil, mas representou uma transformação relevante na distribuição territorial das oportunidades educacionais.

Os governos Lula também passaram a relacionar desenvolvimento econômico e ampliação da capacidade nacional de produzir conhecimento e tecnologia. A descoberta das grandes reservas de petróleo do pré-sal abriu uma discussão sobre a exploração de recursos estratégicos e a destinação de parte das receitas à sociedade. Em dezembro de 2010, foi sancionada a Lei nº 12.351, que estabeleceu o regime de partilha de produção para determinadas áreas e criou o Fundo Social do pré-sal. A legislação passou a integrar um debate mais amplo sobre a participação do Estado na exploração de recursos naturais e o financiamento de políticas públicas com receitas provenientes do petróleo.

Essa discussão permanece atual porque a soberania econômica não se limita à existência formal de recursos naturais no território. Envolve capacidade tecnológica, participação nas cadeias produtivas, regras de exploração, repartição dos rendimentos e decisões sobre o destino da riqueza gerada. O pré-sal colocou essas questões no centro de disputas entre diferentes concepções de desenvolvimento, nas quais participam o Estado, a Petrobras, empresas privadas, investidores internacionais e organizações sociais.

Na política externa, os dois primeiros mandatos de Lula foram marcados pela ampliação das relações com países da América Latina, da África e da Ásia, pela participação em fóruns multilaterais e pela defesa de maior representação das economias em desenvolvimento nas instituições internacionais. O Brasil fortaleceu sua presença nas negociações comerciais e diplomáticas e participou da formação do agrupamento que daria origem ao BRICS. A estratégia buscava diversificar parceiros econômicos e ampliar a margem de atuação internacional do país, sem romper suas relações com Estados Unidos e Europa.

O período também foi marcado por dificuldades, contradições e escândalos que não podem ser apagados da história. Em 2005, denúncias sobre um esquema de financiamento político e compra de apoio parlamentar, conhecido como mensalão, atingiram a direção do PT e integrantes do governo. O caso levou a um julgamento histórico no Supremo Tribunal Federal e à condenação de dirigentes partidários e outros envolvidos. Lula não foi réu naquele processo, mas o escândalo produziu consequências importantes para seu governo e para a confiança pública nas instituições políticas.

Apesar da crise, Lula foi reeleito em 2006, derrotando Geraldo Alckmin, então candidato do PSDB, com 60,83% dos votos válidos. O segundo mandato atravessou a crise financeira internacional de 2008 e terminou em 2010, quando Dilma Rousseff, candidata apoiada por Lula, venceu a eleição presidencial. O ciclo iniciado em 2003 havia alterado indicadores sociais e ampliado a presença internacional do país, mas não superara problemas históricos como a concentração de renda e patrimônio, a desigualdade regional, a dependência de exportações de produtos primários e as dificuldades de elevar continuamente a produtividade da economia brasileira.

Os anos seguintes modificaram profundamente a vida política de Lula. A crise econômica, as investigações de corrupção e o processo de impeachment de Dilma Rousseff, concluído em 2016, produziram uma reorganização das forças políticas brasileiras. Lula passou a ser investigado e foi condenado em processos ligados à Operação Lava Jato. Em abril de 2018, foi preso em Curitiba, permanecendo encarcerado até novembro de 2019. A prisão impediu sua participação na disputa presidencial daquele ano, vencida por Jair Bolsonaro.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a anulação das condenações de Lula nos processos que haviam tramitado na 13ª Vara Federal de Curitiba, ao reconhecer a incompetência daquele juízo para examinar os casos. O STF também reconheceu a parcialidade do então juiz Sérgio Moro na ação relativa ao tríplex do Guarujá. As decisões restabeleceram os direitos políticos de Lula e constituíram acontecimentos decisivos na história jurídica e eleitoral recente do país. A anulação das condenações por questões processuais e a declaração de suspeição judicial possuem fundamentos específicos e não devem ser confundidas com um julgamento de mérito sobre todas as acusações originalmente apresentadas.

Em 2022, Lula voltou a disputar a Presidência. Sua candidatura reuniu o PT e partidos de diferentes orientações, incluindo setores que anteriormente haviam sido adversários políticos. A escolha de Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente simbolizou essa ampliação da coalizão. No segundo turno, realizado em 30 de outubro, Lula derrotou Jair Bolsonaro com 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos, diante dos 49,10% recebidos pelo então presidente. Foi sua terceira vitória numa eleição presidencial.

O retorno ao Palácio do Planalto ocorreu num contexto de polarização intensa. Em 8 de janeiro de 2023, uma semana depois da posse, grupos de apoiadores do ex-presidente Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. Os ataques colocaram em evidência a importância da proteção das instituições democráticas e desencadearam investigações, processos judiciais e debates sobre responsabilidades políticas e criminais. O episódio se tornou uma referência incontornável na discussão brasileira sobre respeito ao resultado das eleições e limites da contestação política.

No terceiro mandato, Lula retomou políticas de transferência de renda, de valorização do salário mínimo e de combate à insegurança alimentar, além de buscar ampliar investimentos em infraestrutura, educação, habitação e desenvolvimento industrial. Os indicadores sociais registraram avanços. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, a proporção de pessoas vivendo na pobreza caiu de 27,3% em 2023 para 23,1% em 2024, uma redução correspondente a aproximadamente 8,6 milhões de pessoas. O resultado reflete a interação entre rendimentos do trabalho, políticas de transferência de renda e condições econômicas, não sendo atribuível a uma única ação governamental.

Em 2025, a taxa anual de desemprego foi de 5,6%, a menor da série histórica da PNAD Contínua iniciada em 2012. A população ocupada alcançou cerca de 103 milhões de pessoas. No mesmo ano, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura anunciou que o Brasil havia retornado ao grupo de países com prevalência de subalimentação inferior a 2,5%. O relatório internacional divulgado em julho de 2026 confirmou que o país permanecia abaixo desse limite no período de 2023 a 2025.

Esses resultados representam mudanças importantes nas condições de vida da população, mas não significam o desaparecimento da insegurança alimentar ou da pobreza. Milhões de brasileiros ainda enfrentam problemas de renda, moradia, saneamento, mobilidade, violência e acesso a serviços públicos de qualidade. A desigualdade patrimonial permanece elevada, e a informalidade do mercado de trabalho continua afetando a segurança econômica de numerosas famílias. A trajetória recente reforça a importância das políticas sociais, ao mesmo tempo em que demonstra a persistência de desafios estruturais que dependem de decisões de longo prazo.

A questão da soberania ganhou renovada centralidade durante o terceiro mandato. Em um ambiente internacional marcado por disputas comerciais, competição tecnológica, tensões geopolíticas e mudanças no sistema financeiro, o governo brasileiro procurou ampliar a cooperação com países do Sul Global e defender reformas nas instituições multilaterais. A presidência brasileira do G20, em 2024, e do BRICS, em 2025, ofereceu espaços para a discussão de temas como combate à fome, financiamento do desenvolvimento, transição energética, governança da inteligência artificial e maior participação de países emergentes nas decisões internacionais.

A soberania, entretanto, não constitui uma condição assegurada exclusivamente pela orientação de um governante. Ela depende da capacidade produtiva do país, da solidez de suas instituições, da qualidade de suas relações internacionais, da independência de suas decisões e das condições materiais de sua população. Também envolve escolhas que podem produzir conflitos entre objetivos legítimos, como proteção ambiental, exploração energética, financiamento público, estabilidade econômica e expansão dos direitos sociais. São questões submetidas à disputa democrática e cujas consequências precisam ser examinadas concretamente.

É nesse ambiente que Lula volta a disputar a Presidência em 2026. O segundo turno deste domingo coloca o presidente diante do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. As pesquisas finais Datafolha e Quaest, divulgadas na véspera da votação, apresentaram os mesmos percentuais: 51% para Flávio Bolsonaro e 49% para Lula, em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

A disputa reúne projetos políticos diferentes para a economia, a administração pública, a segurança, os direitos sociais e as relações internacionais. Lula defende a continuidade de programas sociais, o fortalecimento da capacidade de investimento do Estado e uma política externa de diversificação das parcerias internacionais. Flávio Bolsonaro apresenta críticas ao desempenho do governo atual e propõe mudanças em áreas como segurança pública, economia e gestão federal. A comparação entre essas orientações deve considerar propostas concretas, resultados anteriores, custos, fontes de financiamento e efeitos esperados sobre os diferentes segmentos da sociedade.

A eleição de 2026 possui ainda uma particularidade histórica. Aos 80 anos, Lula é um dos personagens de maior longevidade da política democrática brasileira. Não é possível afirmar que esta será necessariamente sua última candidatura presidencial. Caso seja reeleito, a Constituição impede uma nova reeleição consecutiva em 2030, mas isso não permite antecipar decisões pessoais ou possibilidades políticas futuras. A dimensão histórica do domingo independe dessa especulação: trata-se de mais uma eleição disputada por uma liderança que participou de acontecimentos fundamentais da vida nacional durante quase meio século.

A relação entre Lula e seus apoiadores também constitui parte dessa história. Para muitos brasileiros, especialmente aqueles que associam sua trajetória a políticas de combate à pobreza, valorização do trabalho e ampliação do acesso à educação, o presidente representa uma transformação nas possibilidades de participação social e política. Outros eleitores fazem avaliações diferentes de seus governos, questionando decisões econômicas, políticas públicas, alianças e episódios de corrupção envolvendo integrantes de sua base. A existência dessas percepções divergentes não elimina a relevância histórica de sua trajetória; ao contrário, demonstra a profundidade das disputas que acompanham sua presença na vida pública.

A imagem do antigo metalúrgico diante de milhares de trabalhadores no estádio da Vila Euclides permanece como um dos registros mais conhecidos desse percurso. Naquele ambiente, durante a ditadura, a organização coletiva foi instrumento para reivindicar salários e direitos. Décadas depois, a disputa sobre o papel dos trabalhadores na sociedade, a distribuição da riqueza e a participação popular nas decisões políticas continua presente no debate brasileiro. As circunstâncias mudaram, assim como a economia, a tecnologia e as formas de comunicação, mas permanecem perguntas fundamentais sobre quem produz a riqueza nacional, quem se beneficia dela e como suas decisões são tomadas.

A dimensão humana dessa trajetória também aparece nas perdas e transformações pessoais. Lula atravessou a morte de familiares, a experiência da prisão, campanhas derrotadas e vitórias eleitorais. Passou de dirigente sindical a parlamentar, de candidato de oposição a presidente, de ex-presidente investigado a chefe de Estado novamente eleito. Sua vida pública não pode ser reduzida a um único acontecimento, seja uma vitória, uma derrota ou uma controvérsia. É a sucessão de experiências, desenvolvida ao longo de décadas, que explica sua presença continuada no centro da política brasileira.

Neste domingo, o Brasil vive uma nova etapa dessa história. Eleitoras e eleitores de diferentes gerações participarão da escolha do presidente da República. Alguns se lembrarão das greves do ABC, das Diretas Já e da eleição de 1989. Outros terão como referência a criação do Bolsa Família, a expansão universitária ou a eleição de 2002. Muitos jovens conheceram Lula apenas como presidente, ex-presidente ou candidato durante os conflitos políticos mais recentes. Cada geração chega à urna com experiências próprias, prioridades diferentes e expectativas sobre o futuro.

O voto direto e secreto permite que essas experiências encontrem expressão numa decisão comum, tomada sem imposição de governantes, partidos, empregadores ou outras autoridades. A democracia exige precisamente esse reconhecimento da autonomia de cada cidadão. A escolha eleitoral pertence aos brasileiros e deve ser exercida de maneira livre, informada e protegida contra qualquer forma de coerção.

A votação ocorrerá das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. A Justiça Eleitoral permite a manifestação individual e silenciosa da preferência política, mas proíbe propaganda de boca de urna e tentativas de constranger ou convencer eleitores nos locais de votação. A proteção dessas regras é parte do compromisso democrático compartilhado por todos os participantes da disputa.

A história de Lula oferece um retrato singular de como a política brasileira se transformou desde a segunda metade do século XX. O menino de Garanhuns atravessou o país em busca de sobrevivência, tornou-se trabalhador industrial, participou da organização de sua categoria, enfrentou a repressão militar, ajudou a fundar um partido, disputou sucessivas eleições e ocupou três vezes a Presidência da República. Seus governos foram responsáveis por políticas que modificaram indicadores sociais e ampliaram oportunidades educacionais, mas também enfrentaram crises e contradições cuja análise integra qualquer avaliação histórica rigorosa.

A decisão sobre um eventual quarto mandato será tomada nas urnas. O que não depende do resultado é o lugar que essa trajetória já ocupa na história nacional. A vida de Luiz Inácio Lula da Silva reúne capítulos da industrialização, da redemocratização, da organização dos trabalhadores, da expansão das políticas sociais e das disputas contemporâneas sobre desenvolvimento e soberania.

Quando as urnas se fecharem neste domingo, o Brasil conhecerá mais um capítulo de sua própria história. O resultado estabelecerá quem governará o país a partir de janeiro de 2027, mas a responsabilidade pela democracia continuará pertencendo à sociedade. Participar das decisões públicas, fiscalizar governantes, defender direitos, exigir transparência e preservar a liberdade de organização são tarefas que não se encerram numa eleição.

Há uma continuidade profunda entre as assembleias de trabalhadores que marcaram o início da vida pública de Lula e o princípio democrático de que os destinos nacionais devem ser definidos pela participação dos cidadãos. Naqueles anos, a reivindicação era por voz, representação e direitos. Hoje, essas mesmas questões permanecem abertas a novas gerações, em circunstâncias históricas diferentes.

O domingo de 25 de outubro de 2026 ficará registrado como mais uma data importante da democracia brasileira. Para Lula, representa a oportunidade de submeter novamente sua trajetória e seu projeto político ao julgamento popular. Para o Brasil, representa o exercício de uma conquista histórica: o direito de escolher seus governantes e de continuar disputando democraticamente os caminhos de seu futuro.

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