Da Redação
Na última etapa de sua viagem pela Europa, Lula destacou os laços históricos com Portugal e reforçou o papel estratégico do país na entrada do Brasil no mercado europeu. O presidente também voltou a defender o acordo Mercosul-União Europeia como peça central da nova geopolítica econômica.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou sua agenda europeia em Portugal com um discurso que combina história, estratégia e geopolítica. Após passar por Espanha e Alemanha, Lula utilizou a visita a Lisboa como ponto de consolidação de sua ofensiva diplomática no continente, reforçando laços históricos e colocando o acordo entre Mercosul e União Europeia no centro da agenda internacional.
Durante encontros com o primeiro-ministro Luís Montenegro e o presidente António José Seguro, Lula destacou que a relação entre Brasil e Portugal vive um dos seus momentos mais fortes. A visita foi descrita pelo próprio presidente como “muito boa” e marcada por reuniões de alto nível, acordos e sinalizações políticas relevantes para o futuro da cooperação bilateral.
O ponto central da agenda foi a defesa do acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Lula afirmou que Portugal pode desempenhar um papel estratégico como porta de entrada para empresas brasileiras no mercado europeu, especialmente com a entrada em vigor do tratado, prevista para 2026.
Mais do que isso, o presidente brasileiro foi além da ideia tradicional de “porta de entrada”. Ele defendeu que parte da produção e das cadeias industriais brasileiras voltadas à Europa possa ser construída em território português, criando uma relação de integração produtiva e não apenas comercial.
Essa proposta revela uma mudança importante na estratégia internacional do Brasil. Em vez de apenas exportar produtos, o país busca participar de etapas mais avançadas da cadeia produtiva dentro da própria Europa, ampliando valor agregado, competitividade e inserção global.
O acordo Mercosul-União Europeia, por sua vez, aparece como peça-chave dessa estratégia. Trata-se de um dos maiores tratados comerciais do mundo, envolvendo centenas de milhões de pessoas e abrangendo setores como indústria, agricultura e serviços. Sua implementação representa não apenas uma abertura de mercado, mas uma reconfiguração das relações econômicas entre América do Sul e Europa.
Lula também utilizou o momento para reforçar sua visão sobre o cenário internacional. Em suas declarações, voltou a criticar o protecionismo, o unilateralismo e o aumento de conflitos globais, defendendo o multilateralismo como caminho para reorganizar a economia mundial.
A fala dialoga diretamente com o contexto atual, marcado por guerras, disputas comerciais e tensões entre grandes potências. Ao apostar no acordo com a União Europeia e na aproximação com países como Portugal, o Brasil tenta construir uma alternativa baseada em cooperação econômica e integração produtiva.
Outro ponto destacado durante a visita foi o papel da comunidade brasileira em Portugal. Com centenas de milhares de brasileiros vivendo no país, essa presença funciona como ponte cultural, econômica e social entre as duas nações, fortalecendo ainda mais os laços históricos.
Além disso, Lula citou exemplos concretos de cooperação, como a atuação da Embraer em território português, como demonstração de que a parceria pode ir além do comércio e alcançar níveis mais avançados de integração industrial.
Do ponto de vista geopolítico, o encerramento da agenda em Portugal tem um significado claro. Após dialogar com Espanha e Alemanha, Lula fecha o ciclo europeu em um país que funciona como ponte histórica e estratégica entre América do Sul e Europa. Essa escolha não é casual. Ela reforça a ideia de que o Brasil pretende utilizar essa relação para ampliar sua presença no continente europeu.
No fundo, a viagem europeia como um todo revela uma estratégia coerente. O Brasil busca se reposicionar no mundo não apenas como exportador de commodities, mas como ator relevante em cadeias produtivas, tecnologia e negociações multilaterais. Portugal aparece, nesse contexto, como peça-chave dessa engrenagem.
Ao final da visita, fica claro que o governo brasileiro tenta construir algo maior do que acordos pontuais. Trata-se de um movimento de reposicionamento global, em que comércio, diplomacia e geopolítica caminham juntos.












