Trump celebra resultado de Flávio Bolsonaro e diz que segundo turno contra Lula será “muito apertado”

Presidente dos Estados Unidos chamou liderança de Flávio no primeiro turno de “grande vitória” e “incrível”; declaração ocorre depois de Trump afirmar que acompanhava a eleição brasileira de perto, embora até agora não tenha anunciado apoio formal a nenhum candidato no segundo turno

Da Redação

Donald Trump entrou diretamente no debate sobre o segundo turno da eleição presidencial brasileira nesta segunda-feira, 5 de outubro. Um dia depois de Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente dos Estados Unidos classificou o resultado obtido pelo candidato do PL como uma “grande vitória”, disse considerar seu desempenho “incrível” e afirmou esperar uma eleição muito apertada no dia 25 de outubro. A manifestação ocorreu diante de jornalistas quando Trump deixava a Casa Branca e representa sua declaração pública mais explícita até agora sobre o desempenho eleitoral do filho de Jair Bolsonaro.

“É uma grande vitória. Apertada, mas uma vitória muito, muito grande. Incrível, na verdade”, declarou Trump ao ser questionado sobre o resultado brasileiro. Em seguida, ao falar sobre o confronto entre Flávio e Lula, afirmou acreditar que a eleição será “muito acirrada”. A declaração foi registrada pela imprensa brasileira e pela Reuters. O presidente norte-americano, entretanto, não anunciou formalmente apoio a Flávio Bolsonaro para o segundo turno. A diferença é importante: Trump celebrou o resultado do candidato do PL e empregou linguagem claramente positiva para descrevê-lo, mas não pediu votos, não anunciou participação na campanha e não formalizou um endosso eleitoral.

A manifestação ocorre menos de 24 horas depois de uma eleição que terminou com diferença relativamente pequena entre os dois primeiros colocados. Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 53.876.617 votos, ou 45,16%. A diferença entre os dois foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos. Como nenhum candidato alcançou mais da metade dos votos válidos, os dois voltarão às urnas em 25 de outubro.

A entrada de Trump na discussão chama atenção também porque não surgiu isoladamente. Poucos dias antes do primeiro turno, o presidente dos Estados Unidos já havia afirmado que acompanhava a eleição brasileira “muito de perto” e classificado o pleito como “muito importante”. Naquela ocasião, evitou citar qualquer candidato e não respondeu diretamente sobre eventual apoio a Flávio. Agora, depois de conhecidos os resultados, sua linguagem mudou: pela primeira vez, Trump elogiou diretamente o desempenho do candidato do PL.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, também comentou a eleição nesta segunda-feira. Segundo as informações divulgadas pela imprensa, Rubio afirmou que a realização do segundo turno já era esperada e indicou que Washington continuará acompanhando o processo eleitoral brasileiro nas próximas semanas. Assim como Trump, não anunciou formalmente apoio a nenhum dos candidatos.

A relação entre Trump e o bolsonarismo

O significado político das declarações está inevitavelmente relacionado à proximidade histórica entre Donald Trump e a família Bolsonaro. Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, Brasília e Washington construíram uma relação política especialmente próxima durante o primeiro mandato de Trump. Bolsonaro adotou publicamente referências ao presidente norte-americano, enquanto integrantes das duas administrações estabeleceram relações que ultrapassaram os canais diplomáticos tradicionais.

Depois da saída de Jair Bolsonaro do poder, os contatos políticos permaneceram. Flávio Bolsonaro encontrou-se com Trump nos Estados Unidos em maio deste ano, quando já estava construindo sua candidatura presidencial. O encontro, entretanto, não resultou naquele momento num apoio eleitoral formal do presidente norte-americano. Analistas ouvidos à época destacaram que Washington mantinha simultaneamente canais institucionais com o governo Lula, enquanto setores da direita norte-americana preservavam relações estreitas com a família Bolsonaro.

É esse equilíbrio que a declaração desta segunda-feira começa a testar. Trump continua sem formalizar um endosso eleitoral, mas já não fala apenas genericamente sobre o Brasil ou sobre a importância da eleição. Agora descreve o resultado específico de Flávio como uma “grande vitória”.

A manifestação ocorre num contexto particularmente sensível das relações entre Brasil e Estados Unidos. O processo eleitoral brasileiro foi acompanhado durante os últimos meses por discussões sobre possível interferência externa, acusações políticas e uma deterioração das relações entre setores dos governos Lula e Trump. Pouco antes da eleição, os Estados Unidos suspenderam temporariamente os serviços consulares no Brasil alegando preocupações de segurança. A medida ocorreu dois dias antes do primeiro turno e levou também a Austrália a fechar temporariamente sua embaixada em Brasília. As representações norte-americanas retomaram as atividades nesta segunda-feira.

A Polícia Federal brasileira realizou buscas relacionadas à suposta ameaça que havia motivado o alerta, mas informou posteriormente que não encontrou elementos concretos que confirmassem um plano de ataque. O Departamento de Estado não vinculou oficialmente o fechamento das representações à eleição brasileira. A coincidência temporal, entretanto, ampliou o debate político sobre a atuação norte-americana no país.

Nesse ambiente, cada declaração de Trump sobre a disputa presidencial passa a receber atenção muito maior do que receberia numa relação bilateral normal.

Trump também elogiou a rapidez da apuração brasileira

Existe outro elemento curioso na manifestação do presidente norte-americano. Antes de comentar diretamente o desempenho de Flávio Bolsonaro, Trump havia elogiado a rapidez da apuração brasileira. Em uma publicação feita depois da eleição, destacou que os resultados ficaram disponíveis poucas horas depois do encerramento da votação e utilizou o Brasil como contraponto ao sistema eleitoral dos Estados Unidos.

A comparação foi utilizada por Trump principalmente para renovar suas próprias críticas às eleições norte-americanas. O republicano mencionou cidades e estados dos Estados Unidos onde a contagem costuma levar mais tempo e voltou a fazer acusações contra o funcionamento do sistema eleitoral de seu país. O elogio à velocidade brasileira, portanto, estava inserido sobretudo numa disputa política doméstica norte-americana.

Ainda assim, o comentário chama atenção diante da história recente. Durante os últimos anos, aliados brasileiros de Trump fizeram críticas às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral brasileiro. Agora, o próprio presidente norte-americano utilizou a velocidade da apuração no Brasil como exemplo positivo para atacar a demora existente em partes dos Estados Unidos.

A apuração brasileira efetivamente produziu o resultado nacional poucas horas depois do fechamento das urnas. Segundo os números divulgados pela Justiça Eleitoral, mais de 119 milhões de votos válidos foram contabilizados para a eleição presidencial, além de votos brancos e nulos.

Foi justamente esse resultado rápido que colocou Flávio Bolsonaro na liderança e surpreendeu parte das pesquisas publicadas na reta final da campanha.

A Reuters registrou que o desempenho do candidato do PL ficou acima do indicado por várias sondagens eleitorais anteriores ao domingo. O resultado também provocou forte reação nos mercados financeiros nesta segunda-feira. O Ibovespa avançou 7,7% e terminou o pregão em máxima histórica, enquanto o real se valorizou diante do dólar. Investidores ouvidos pela agência relacionaram o movimento à expectativa de uma eventual mudança na orientação econômica e ao avanço de partidos de direita no Congresso.

Esses movimentos de mercado representam expectativas dos investidores, e não uma previsão do resultado eleitoral ou uma avaliação objetiva sobre qual candidatura produziria melhores resultados econômicos. O segundo turno ainda será disputado durante três semanas, e ambos os candidatos terão de apresentar suas propostas e disputar os votos que não receberam no domingo.

Uma declaração observada de perto em Brasília

O ponto politicamente mais sensível da fala de Trump não está apenas no elogio. Está na posição institucional de quem o fez.

Donald Trump não é um comentarista político estrangeiro, um ex-presidente ou simplesmente um aliado ideológico da família Bolsonaro. É o atual presidente dos Estados Unidos. Quando um chefe de Estado comenta diretamente uma eleição em andamento em outro país, suas palavras passam necessariamente a integrar a relação diplomática entre os dois governos.

Isso não significa que a declaração configure, por si só, interferência eleitoral. Presidentes e primeiros-ministros frequentemente comentam eleições estrangeiras, e não existe até agora anúncio de utilização de recursos ou instrumentos do governo norte-americano em favor da candidatura de Flávio. Qualquer afirmação diferente exigiria evidências que a declaração desta segunda-feira não fornece.

Ao mesmo tempo, o contexto torna legítimo observar com atenção os próximos movimentos de Washington. Trump já declarou que acompanha a eleição brasileira de perto. Agora elogiou publicamente o resultado de um dos candidatos. Marco Rubio também afirmou que o governo norte-americano continuará acompanhando o segundo turno.

A fronteira relevante será aquilo que acontecer daqui para frente.

Há uma diferença substancial entre um presidente estrangeiro manifestar opinião sobre o resultado de uma eleição e o aparato de um Estado estrangeiro empregar recursos, pressões, financiamento ou instrumentos diplomáticos para tentar modificar seu resultado. O primeiro comportamento pertence ao terreno da política internacional; o segundo levantaria questões muito mais sérias sobre soberania e legislação eleitoral.

Até este momento, a declaração de Trump pertence ao primeiro terreno.

A atenção brasileira deverá estar justamente em verificar se permanecerá nele.

O segundo turno começa num cenário em que a relação entre política doméstica e geopolítica está mais presente do que em eleições brasileiras recentes. Flávio Bolsonaro carrega uma relação política histórica entre sua família e o movimento de Trump. Lula, por sua vez, dirige um governo que teve conflitos e negociações com Washington e procura manter relações simultaneamente com Estados Unidos, China, União Europeia e os demais integrantes dos BRICS.

A eleição de 25 de outubro decidirá a Presidência brasileira, mas será observada também pelas principais potências internacionais porque o Brasil ocupa posição central na América Latina, integra o G20 e os BRICS, possui uma das maiores economias do mundo e mantém relações estratégicas tanto com Washington quanto com Pequim.

É nesse tabuleiro que a declaração desta segunda-feira deve ser compreendida.

Trump não anunciou apoio formal a Flávio Bolsonaro.

Mas deixou de falar apenas sobre a eleição brasileira em abstrato.

Chamou o resultado do candidato do PL de “grande vitória”, disse considerá-lo “incrível” e antecipou aquilo que espera ver daqui a três semanas: uma disputa muito apertada entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

Agora, para o Brasil, a questão relevante não é interpretar além do que Trump efetivamente disse. É acompanhar aquilo que o governo dos Estados Unidos efetivamente fará durante as três semanas que separam o país do segundo turno.