Da Redação
Em comício neste sábado (12), em Curitiba, presidente voltou a defender publicidade ampla dos inquéritos, afirmou que fraudes previdenciárias começaram antes de seu atual mandato e relacionou a ascensão do Banco Master ao governo Bolsonaro. Lula também disse que não pretende proteger seu filho caso surjam provas contra ele. Parte das declarações, porém, constitui acusação política e precisa ser distinguida dos fatos já estabelecidos pelas investigações.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou um ato de campanha realizado neste sábado (12), em Curitiba, para responder diretamente a uma das principais linhas de ataque da oposição nesta eleição: as tentativas de associar seu governo aos escândalos dos descontos indevidos do INSS e do Banco Master. Lula afirmou que a ampliação da publicidade dos inquéritos permitirá à população confrontar as versões apresentadas durante a campanha com os documentos das investigações. “A verdade tarda, mas não falha”, declarou. O discurso ocorreu três dias depois de o presidente defender publicamente a retirada ampla dos sigilos do caso Master e em meio à divulgação de novos documentos que alcançam políticos de diferentes partidos.
No caso do INSS, Lula sustentou que o esquema foi estruturado durante o governo de Jair Bolsonaro e descoberto durante sua administração. A cronologia disponível exige uma formulação um pouco mais precisa: os descontos associativos indevidos cresceram a partir de 2019, no governo Bolsonaro, mas o volume das irregularidades também aumentou depois de 2023, já no atual governo Lula. Foi sob a atual administração que a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União desencadearam a investigação que expôs nacionalmente o esquema. Portanto, a afirmação de que o problema simplesmente pertence a um único governo não traduz toda a extensão temporal do caso.
Lula procurou enfrentar também uma questão politicamente mais delicada: as investigações envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. No discurso em Curitiba, afirmou que não pretende impedir qualquer investigação e declarou que, se o filho tiver cometido irregularidades, deverá responder por elas. A posição apresentada pelo presidente é politicamente relevante, mas não resolve o mérito das suspeitas. A responsabilidade de qualquer pessoa citada nas investigações depende das provas reunidas pela PF, do posicionamento do Ministério Público e, caso exista acusação formal, do julgamento pelo Poder Judiciário.
Foi ao tratar do Banco Master que Lula elevou mais fortemente o tom. O presidente afirmou que, em 2019, durante o governo Bolsonaro, “pegaram um agiota e transformaram em banqueiro”, numa referência a Daniel Vorcaro, e acrescentou que seu governo posteriormente prendeu o empresário e fechou o banco. Também declarou que Vorcaro “corrompeu muita gente da República”. A frase é uma acusação política de Lula e não pode ser tratada como conclusão judicial sobre todas as relações mantidas pelo ex-banqueiro. Vorcaro está no centro de uma investigação financeira de grandes proporções, mas a eventual responsabilidade criminal de cada autoridade, empresário ou intermediário relacionado a ele precisa ser individualmente demonstrada.
A cronologia do Master, entretanto, tornou-se parte importante da disputa. Documentos já revelados mostram que mudanças nas regras do crédito consignado do INSS realizadas em 2022, durante o governo Bolsonaro, permitiram a criação e posterior expansão do cartão consignado de benefício explorado pelo Master. Em março daquele ano, o INSS autorizou operações dessa modalidade; em junho, o banco solicitou a inclusão do produto em seu acordo de cooperação com o instituto; e, em julho, o aditivo correspondente foi formalizado. O modelo permaneceu em funcionamento posteriormente, inclusive durante o governo Lula, até 2025. A defesa de Vorcaro sustenta que o banco operava de acordo com as normas então existentes.
A questão tornou-se eleitoralmente ainda mais explosiva porque Flávio Bolsonaro passou a aparecer diretamente em uma das investigações derivadas do universo Master. Como revelado nesta semana, a Polícia Federal investiga sua participação na captação de recursos de Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. A apuração examina, em tese, suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Isso significa que existem hipóteses criminais sob investigação — não que esses crimes já tenham sido comprovados contra Flávio.
É justamente a abertura dos documentos que Lula tenta transformar em resposta à campanha adversária. O presidente vinha criticando o que classificava como “vazamentos seletivos” e, na quarta-feira (9), defendeu publicamente a retirada completa dos sigilos das investigações relacionadas ao Master, “seja quem for, doa a quem doer”. Desde então, André Mendonça ampliou consideravelmente o material tornado público, inclusive com procedimentos relacionados a Dark Horse e investigações que mencionam políticos de diferentes partidos.
Em Curitiba, Lula afirmou ainda ter conversado com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre a divulgação fragmentada do material e voltou a criticar a condução dada por Mendonça. Segundo Lula, não seria aceitável liberar partes capazes de atingir determinados personagens e manter outras protegidas. A crítica representa a posição do presidente na disputa; a manutenção de sigilo sobre diligências ainda em andamento pode ter fundamento processual legítimo e precisa ser examinada caso a caso. Fachin já havia defendido maior publicidade, preservando informações cuja exposição pudesse comprometer investigações.
Lula também fez referência às revelações sobre festas e encontros privados organizados no círculo de Vorcaro. “Quem fez putaria vai ser desmascarado”, afirmou. Reportagens recentes revelaram mensagens sobre eventos reservados, mulheres estrangeiras e convites a autoridades e empresários. A existência dessas conversas não comprova que todas as pessoas mencionadas tenham comparecido aos encontros, muito menos que tenham recebido vantagens ilícitas. O interesse público está em estabelecer se benefícios privados tiveram alguma relação com decisões funcionais ou interesses do Banco Master.
A fala de Curitiba mostra, sobretudo, que INSS e Master deixaram definitivamente o campo exclusivo das investigações policiais e entraram no centro da eleição presidencial. Governo e oposição disputam a cronologia dos escândalos, atribuem responsabilidades políticas aos adversários e selecionam fatos capazes de sustentar suas narrativas. Nesse ambiente, a documentação integral ganha importância porque permite separar três planos que frequentemente aparecem misturados: quando determinada irregularidade começou, quando foi descoberta e quem efetivamente participou dela.
Há fatos que não dependem da retórica eleitoral. As irregularidades nos descontos associativos do INSS atravessaram mais de uma administração. A investigação que expôs nacionalmente o esquema avançou durante o governo Lula. O Banco Master expandiu atividades importantes durante o governo Bolsonaro e continuou operando posteriormente. Daniel Vorcaro tornou-se alvo de uma grande investigação financeira. Flávio Bolsonaro passou a ser investigado numa frente relacionada ao financiamento de Dark Horse. E nenhuma dessas constatações, isoladamente, autoriza atribuir responsabilidade criminal a um presidente, governo, partido ou família inteira.
É exatamente por isso que a abertura dos documentos pode ser mais relevante do que as acusações trocadas durante a campanha. Lula diz que a extrema direita mentiu sobre os dois escândalos e que a verdade agora aparecerá. Seus adversários sustentam responsabilidade do atual governo pelas irregularidades. As duas afirmações são posições políticas. A reconstrução documental é que poderá estabelecer responsabilidades individuais.
Com o avanço simultâneo das investigações do INSS e do Banco Master, a disputa passa a depender cada vez menos de frases de palanque e cada vez mais de uma sequência verificável: quem criou ou autorizou os mecanismos utilizados, quando surgiram os primeiros alertas, quem recebeu dinheiro, quem se beneficiou, quem tinha poder para interromper as irregularidades e o que cada autoridade efetivamente fez diante delas.
É nesse terreno que a frase repetida por Lula em Curitiba — “a verdade tarda, mas não falha” — será colocada à prova.
