Presidente critica insinuações de intervenção externa, governo divulga nota oficial e Washington afirma que não pretende interferir nas eleições brasileiras
Da Redação
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abriu uma nova frente de tensão diplomática entre Brasília e Washington. O episódio ganhou dimensão política após declarações de autoridades norte-americanas e provocou uma reação contundente do presidente Lula, do Palácio do Planalto e de integrantes da diplomacia brasileira.
Durante evento da Petrobras em Sergipe, onde foram anunciados investimentos superiores a R$ 70 bilhões no estado, Lula afirmou que o Brasil não aceitará qualquer forma de tutela estrangeira sobre suas instituições, suas eleições ou sua política de segurança pública.
O presidente iniciou o discurso dizendo estar “muito triste” com as notícias envolvendo manifestações de autoridades norte-americanas sobre o Brasil. Em seguida, reconheceu a gravidade das facções criminosas, mas ressaltou que o combate a elas cabe ao próprio Estado brasileiro.
“Eles são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país”, declarou. “Eles incomodam as famílias, os bairros e as cidades. Nós vamos combatê-los aqui dentro.”
Segundo Lula, o país já possui instrumentos legais para enfrentar o crime organizado. O presidente lembrou a aprovação de medidas de combate às facções e defendeu o fortalecimento das estruturas nacionais de segurança pública.
Ao mesmo tempo, cobrou dos Estados Unidos maior cooperação na entrega de brasileiros procurados pela Justiça que vivem em território norte-americano. Lula citou investigações da Polícia Federal envolvendo lavagem de dinheiro, contrabando e organizações criminosas.
“Quer combater o crime organizado? Me entregue os nossos que estão nos Estados Unidos”, afirmou.
O presidente também destacou que armas utilizadas por organizações criminosas brasileiras frequentemente chegam ao país a partir do mercado norte-americano e defendeu ações coordenadas entre os dois governos para enfrentar o problema.
Críticas a bolsonaristas que buscam apoio externo
Sem esconder a irritação, Lula dirigiu críticas a políticos brasileiros que mantêm articulações junto à administração do presidente Donald Trump.
“Nós não aceitamos ser tratados como moleques. Nós não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta”, afirmou.
Em um dos momentos mais duros do discurso, o presidente acusou integrantes do bolsonarismo de recorrerem a autoridades estrangeiras para influenciar a política nacional.
“Não tem vergonha maior do que ir aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil.”
A declaração ocorre em meio à atuação internacional de aliados da família Bolsonaro e ao debate sobre possíveis sanções e pressões diplomáticas envolvendo instituições brasileiras.
Governo divulga nota em defesa da soberania nacional
Poucas horas depois, o governo federal divulgou uma nota oficial reforçando o mesmo tom adotado por Lula.
No documento, o Palácio do Planalto afirma que o Brasil é uma democracia soberana e rejeita qualquer tentativa de interferência externa em seus assuntos internos.
A nota destaca que “a escolha do Presidente da República é uma decisão soberana do povo brasileiro” e reafirma que o combate ao crime organizado continuará sendo conduzido pelas instituições nacionais, em cooperação internacional quando necessário, mas sempre dentro dos marcos constitucionais brasileiros.
O texto também manifesta preocupação com iniciativas que possam utilizar temas de segurança pública para produzir pressões políticas ou diplomáticas sobre o país.
Celso Amorim alerta para riscos de ingerência externa
O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, reforçou a posição do governo.
Segundo Amorim, a cooperação internacional no combate ao crime organizado é necessária, mas não pode servir de justificativa para relativizar a soberania dos países.
O diplomata observou que classificações unilaterais adotadas por governos estrangeiros podem produzir consequências políticas, econômicas e diplomáticas que extrapolam o objetivo declarado de combater organizações criminosas.
Para ele, o enfrentamento das facções deve ocorrer em parceria entre os países, mas com respeito às leis brasileiras e à autonomia das instituições nacionais.
Washington afirma que eleição brasileira cabe aos brasileiros
Diante da repercussão do caso, o Departamento de Estado dos Estados Unidos procurou reduzir a tensão diplomática.
Em resposta a questionamentos sobre o cenário político brasileiro, autoridades norte-americanas afirmaram que os Estados Unidos não pretendem interferir nas eleições presidenciais de 2026.
Segundo a posição oficial divulgada por Washington, a escolha do próximo presidente do Brasil é uma decisão que pertence exclusivamente aos brasileiros.
A manifestação foi interpretada como uma tentativa de afastar suspeitas de ingerência externa no processo eleitoral nacional, especialmente após o aumento das críticas do governo brasileiro e da repercussão das articulações de integrantes do bolsonarismo junto a setores da direita norte-americana.
Apesar disso, integrantes do governo avaliam que o debate vai além das declarações formais. A preocupação central envolve a utilização de canais internacionais para pressionar instituições brasileiras ou influenciar disputas políticas internas.
Lula associa soberania à proteção das riquezas nacionais
Ao final do discurso em Sergipe, Lula ampliou a discussão para além da segurança pública e relacionou a defesa da soberania brasileira à proteção dos recursos estratégicos do país.
O presidente destacou que o Brasil possui algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos, terras raras, recursos hídricos e biodiversidade.
“Isso aqui não é um país qualquer. Isso aqui é um país muito grande”, afirmou.
“Nós temos muitos minerais críticos, muitas terras raras. Temos muito minério, muito ouro, a maior floresta tropical do mundo e 12% da água doce.”
Lula também defendeu uma política externa baseada no respeito mútuo entre as nações.
“Eu não falo grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos.”
O presidente concluiu com um recado direto:
“Não brinquem com a soberania desse país. Não brinquem com a nossa democracia.”
O episódio recolocou no centro do debate temas como soberania nacional, relações internacionais, segurança pública e a capacidade do Brasil de formular suas próprias estratégias de desenvolvimento e defesa institucional.
Nesse contexto, a campanha Brasil Soberano e Congresso Amigo do Povo será lançada neste sábado, 30 de maio, em Fortaleza. A iniciativa reúne movimentos sociais, sindicatos, intelectuais, lideranças populares e representantes da sociedade civil em defesa da soberania nacional, da democracia e de uma representação popular mais comprometida com os interesses do país.
Serviço
Lançamento da Campanha Brasil Soberano e Congresso Amigo do Povo
📅 Sábado, 30 de maio de 2026
🕘 9h
📍 Auditório da Adufc
Rua Waldery Uchoa, 50, Benfica, Fortaleza (CE)
🎟 Entrada gratuita
Mais informações:
Campanha Brasil Soberano e Congresso Amigo do Povo será lançada em Fortaleza neste sábado (30)



