Da Redação
Em ato no Rio Grande do Sul, presidente afirmou que Donald Trump tenta influenciar eleições latino-americanas e disse ter advertido diretamente o norte-americano para não interferir na disputa brasileira. Lula também associou a defesa da soberania à política econômica, ao emprego e à valorização do salário mínimo. Declarações ocorreram durante evento de campanha ao lado de Juliana Brizola e outros candidatos de sua coligação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou nesta sexta-feira (11), no Rio Grande do Sul, o tom contra Donald Trump e contra a extrema direita brasileira, colocando a soberania nacional no centro de seu discurso eleitoral. Durante ato de campanha em Porto Alegre, Lula afirmou que o presidente dos Estados Unidos tem procurado exercer influência sobre eleições na América Latina e declarou ter advertido Trump diretamente para que não interfira no processo eleitoral brasileiro. “Nenhum presidente de outro país vai meter o bedelho em nossas eleições”, afirmou. Segundo Lula, ele disse ao norte-americano, em conversa telefônica, que pretende manter uma relação “civilizada” com Washington, mas que as decisões políticas brasileiras pertencem aos brasileiros.
A declaração ocorre num contexto de forte deterioração das relações entre Brasília e Washington em 2026. O governo Trump adotou medidas tarifárias contra produtos brasileiros e protagonizou sucessivos atritos com o governo Lula em torno da situação política brasileira, das decisões do Supremo Tribunal Federal e da condenação de Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, Brasília aprofundou sua participação nos BRICS e as relações com China e outros parceiros do Sul Global. Nesse ambiente, Lula vem apresentando a autonomia brasileira diante das grandes potências como um dos eixos de sua atuação externa. A caracterização das medidas norte-americanas como tentativa de interferência é a posição expressa pelo presidente brasileiro; motivações específicas de cada decisão de Washington precisam ser avaliadas a partir dos atos e declarações oficiais correspondentes.
No discurso desta sexta, Lula foi além da crítica diplomática e levou o conflito diretamente para o terreno eleitoral. Afirmou que “a extrema direita representada pelo presidente dos EUA tem tentado influenciar várias eleições na América Latina” e classificou Trump como uma espécie de referência internacional para forças de extrema direita. Também defendeu resistência ao que chamou de “extrema direita fascista”. O uso da expressão é uma caracterização política feita pelo próprio Lula, não uma classificação jurídica das organizações ou candidatos aos quais se referiu.
O cenário dá à eleição brasileira uma dimensão internacional pouco habitual. A disputa ocorre depois de sucessivos episódios de tensão entre os dois governos e num momento em que diferentes forças políticas latino-americanas procuram associar suas plataformas a projetos internacionais distintos. Lula tenta transformar esse ambiente numa discussão sobre soberania: seu argumento é que relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos podem e devem continuar, mas sem que Washington determine os limites da política interna brasileira. Trump e seus aliados, por sua vez, têm apresentado suas ações em relação ao Brasil a partir de críticas ao STF, à situação de Bolsonaro e a decisões brasileiras que consideram incompatíveis com interesses ou direitos norte-americanos.
O discurso gaúcho também mostrou que Lula pretende conectar essa defesa da soberania à agenda econômica doméstica. Ele voltou a destacar os números do emprego formal e a política de valorização do salário mínimo. Segundo os dados citados no evento, o Brasil acrescentou cerca de 10,1 milhões de vínculos formais entre janeiro de 2023 e junho de 2026, considerando trabalhadores celetistas e agentes públicos contabilizados pela RAIS. Lula também mencionou a elevação do salário mínimo de R$ 1.320 para R$ 1.621 e a política de reajustes acima da inflação. Esses números foram apresentados como resultados de governo e, no ambiente de campanha, integram naturalmente a tentativa do candidato à reeleição de construir uma comparação favorável de sua gestão.
No Rio Grande do Sul, o componente histórico do discurso apareceu com a homenagem a Leonel Brizola. Ao lado de Juliana Brizola, candidata do PDT ao governo gaúcho e neta do ex-governador, Lula afirmou ter orgulho de apoiá-la e descreveu Brizola como um dos grandes líderes produzidos pela política brasileira. O simbolismo é particularmente forte no estado onde Brizola comandou, em 1961, a Campanha da Legalidade, mobilização pela posse constitucional de João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros. No palanque desta sexta estavam também Edegar Pretto, candidato a vice-governador, Paulo Pimenta e outros integrantes da aliança eleitoral.
A escolha desse cenário ajuda a explicar a arquitetura política do pronunciamento. Lula articulou três elementos — memória democrática, soberania externa e disputa eleitoral contemporânea — para apresentar a eleição de 2026 como parte de um confronto mais amplo sobre os rumos do país. Essa é a interpretação política defendida pelo presidente e por sua campanha. O fato verificável é que as relações Brasil–Estados Unidos atravessam um período de tensão e que Trump tornou-se personagem recorrente do debate eleitoral brasileiro; a conclusão sobre o peso que essa interferência externa efetivamente terá nas urnas só poderá ser estabelecida pelo comportamento do eleitorado.
Lula também tratou da participação feminina na política. Segundo relato do ato, comparou a sub-representação das mulheres nos espaços de poder à contradição existente na África do Sul durante o apartheid, quando uma minoria branca controlava politicamente uma população majoritariamente negra. A analogia foi utilizada para perguntar por que as mulheres, embora sejam maioria da população brasileira, continuam minoritárias em governos, prefeituras e no Congresso. Em seguida, defendeu maior presença feminina na política, condicionando seu apoio às posições políticas das candidatas e voltando a usar o termo “fascista” para demarcar seus adversários.
O discurso desta sexta-feira, portanto, não foi apenas mais uma crítica de Lula a Trump. Ele indica como o presidente pretende enquadrar uma parte da campanha presidencial: transformar o conflito com Washington numa discussão sobre quem deve possuir poder para determinar o futuro político, econômico e diplomático do Brasil. Para Lula, a resposta deve permanecer dentro das instituições e do voto brasileiro; para seus adversários, essa interpretação e a própria condução das relações com os Estados Unidos são temas de disputa política.
A diferença é que, em 2026, Washington deixou de ocupar apenas o pano de fundo da eleição brasileira. Trump é citado diretamente por Lula, tornou-se referência para setores da direita latino-americana e está envolvido em controvérsias diplomáticas e comerciais com Brasília. Ao dizer publicamente que já pediu ao presidente norte-americano que “não se meta nas eleições brasileiras”, Lula procura estabelecer uma fronteira entre relação diplomática e influência política externa. A existência dessa fronteira e a maneira de protegê-la deverão continuar no centro do debate até as urnas.
