No Instituto Mauá de Tecnologia, presidente acompanhou testes com etanol e biodiesel, cobrou mais investimentos em pesquisa e relacionou a transição energética à soberania nacional
Da Redação
O presidente Lula visitou nesta segunda-feira, 13 de julho, os laboratórios do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul, na Região Metropolitana de São Paulo. A agenda concentrou-se nos testes destinados a avaliar o desempenho de motores com maiores proporções de etanol na gasolina e biodiesel no diesel, etapa necessária para novos avanços na política brasileira de combustíveis renováveis.
As informações e declarações desta matéria foram extraídas da transmissão oficial do evento pelo YouTube. A visita reuniu representantes do governo federal, do setor automotivo, de empresas produtoras de biocombustíveis, pesquisadores e dirigentes da instituição. O Instituto Mauá, mantido por uma fundação privada sem fins lucrativos, atua há mais de seis décadas nas áreas de ensino, pesquisa e prestação de serviços tecnológicos.
Durante a passagem pelos laboratórios, Lula acompanhou demonstrações de equipamentos utilizados para submeter motores a diferentes condições de funcionamento. Os ensaios devem avaliar potência, durabilidade, consumo, emissões e possíveis impactos provocados por novas formulações dos combustíveis.
A legislação brasileira permite a ampliação gradual das misturas, mas condiciona os próximos aumentos à realização de testes técnicos. Desde agosto de 2025, a gasolina vendida no país contém 30% de etanol, enquanto o diesel recebe 15% de biodiesel. A Lei do Combustível do Futuro abriu caminho para percentuais maiores e também estabeleceu políticas para combustíveis sustentáveis de aviação, diesel verde e biometano.
Ao comentar o trabalho realizado na instituição, Lula afirmou que o país precisa aproximar a produção acadêmica das necessidades industriais. Para ele, pesquisas científicas ganham relevância quando são aplicadas na criação de produtos, tecnologias, medicamentos e processos produtivos.
“Se você não transforma a sua tese num produto, fica na gaveta e vale pouco. Hoje, nossos pesquisadores sabem da importância de transformar cada tese num produto, seja ele industrial, alimentício ou remédio”, declarou.
O presidente ressaltou que os laboratórios visitados permitem combinar o conhecimento desenvolvido nas universidades com aplicações práticas na indústria automotiva. Segundo ele, estudantes e pesquisadores estão contribuindo para aperfeiçoar motores capazes de utilizar maiores quantidades de etanol e biodiesel.
“O que nós estamos vendo aqui são meninas e meninos que estão aprendendo engenharia e tentando transformar aquilo que aprenderam num produto mais sofisticado, sobretudo nos carros para serem utilizados com biodiesel e etanol”, disse.
Biocombustíveis e soberania energética
A defesa dos combustíveis renováveis ocupou a maior parte do discurso presidencial. Lula relacionou a expansão do etanol e do biodiesel à necessidade de reduzir a exposição do Brasil às oscilações internacionais do petróleo, especialmente em períodos de guerras e restrições ao comércio mundial.
Segundo o presidente, conflitos externos pressionam os preços dos combustíveis e acabam alcançando produtos básicos consumidos no Brasil, uma vez que o diesel interfere diretamente nos custos de transporte e produção.
“O preço da guerra está chegando ao preço do feijão aqui no Brasil, ao preço do arroz, do tomate e da cebola, porque tornou o combustível mais caro”, afirmou.
Lula disse que o petróleo continuará sendo explorado e utilizado, mas defendeu a preparação gradual da economia para um cenário com menor participação dos combustíveis fósseis.
“O petróleo é importante para nós. Nós vamos continuar pesquisando e usando, mas, ao longo do tempo, vamos preparando o Brasil e a humanidade para viver sem combustível fóssil”, declarou.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis define os biocombustíveis como produtos derivados de biomassa renovável que podem substituir parcial ou integralmente os derivados de petróleo. No Brasil, os principais combustíveis líquidos dessa categoria são o etanol, obtido sobretudo da cana-de-açúcar, e o biodiesel, produzido a partir de óleos vegetais e gorduras animais.
Lula citou matérias-primas como soja, macaúba, dendê, mamona e pinhão-manso para sustentar que o Brasil dispõe de diferentes possibilidades produtivas. O desafio, segundo ele, é transformar essa disponibilidade em desenvolvimento tecnológico, atividade industrial e renda.
“Não se preocupem, porque o mundo pode viver sem petróleo. O Brasil pode produzir biocombustível de muitos produtos”, afirmou.
Governo aposta em veículos híbridos
O presidente também defendeu a produção de veículos híbridos que combinem eletricidade e etanol. Na avaliação de Lula, essa configuração pode oferecer maior autonomia e aproveitar uma cadeia produtiva já consolidada no país.
“Está se falando muito em carro elétrico, e o carro elétrico é muito importante. Mas nós temos algo mais importante ainda: o carro híbrido, elétrico e a etanol, porque ele vai ter muito mais autonomia”, disse.
Lula mencionou a instalação de fábricas chinesas de veículos elétricos no Brasil, mas sustentou que a indústria nacional pode desenvolver soluções adaptadas às condições energéticas brasileiras. O etanol, nesse contexto, seria usado como fonte complementar para ampliar a autonomia dos veículos e reduzir a necessidade de grandes conjuntos de baterias.
O presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, Marcos Vinícius Aguiar, afirmou que os testes realizados no Instituto Mauá devem oferecer uma base técnica para a validação das novas misturas.
“Vamos fazer uma série de testes para que as misturas sejam validadas e para que o país demonstre ao mundo o que somos capazes de colocar nos nossos motores”, declarou.
Aguiar também destacou que a transição da indústria brasileira deve incluir diferentes formas de hibridização. Nos automóveis de passageiros, a combinação pode envolver eletricidade e etanol. No transporte pesado, a eletrificação poderá ser associada ao biodiesel.
“O Brasil tem toda a capacidade técnica. Estamos em um centro de excelência de engenharia para mostrar que o brasileiro sabe fazer e vai exportar essa tecnologia para o resto do mundo”, afirmou.
Setor produtivo pede aceleração dos testes
O diretor-presidente global da JBS, Gilberto Tomazoni, defendeu que os ensaios sejam concluídos com rapidez e declarou que empresas já utilizam biodiesel puro em parte de suas operações.
Segundo Tomazoni, a JBS possui uma frota própria e terceirizada de aproximadamente 13 mil caminhões. Alguns veículos, afirmou, circulam há cerca de três anos com B100, combustível composto integralmente por biodiesel, sem registros relevantes de perda de potência ou problemas mecânicos.
“Estamos esperançosos e otimistas de que, antes do final deste ano, teremos um aumento da mistura do biodiesel”, declarou.
O empresário também rejeitou a ideia de que a produção de biocombustíveis necessariamente prejudica a oferta de alimentos. Segundo ele, o processamento da soja produz simultaneamente óleo, utilizado no biodiesel, e farelo, empregado na alimentação animal.
“Não há conflito. Na verdade, um reforça o outro. Quando fazemos o esmagamento da soja, temos o óleo para produzir o biocombustível, mas também temos o farelo, que é vital para a produção animal”, disse.
Para Tomazoni, o processamento realizado dentro do Brasil permite agregar valor à produção agrícola antes da exportação, com efeitos sobre a atividade industrial e a geração de empregos.
Lei exige segurança dos motores
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ressaltou que a ampliação das misturas não poderá ocorrer sem os estudos previstos na Lei do Combustível do Futuro. Segundo ele, os ensaios precisam demonstrar que os novos percentuais preservam a segurança e a estabilidade dos motores.
“Nós não podemos avançar sem que esses testes sejam feitos de forma segura, para que a gente garanta a estabilidade e a segurança da motorização”, afirmou.
Silveira atribuiu aos primeiros governos Lula a criação e a consolidação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel. O ministro também destacou mecanismos destinados a assegurar a participação da agricultura familiar na cadeia produtiva.
O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o Brasil já ocupa uma posição relevante na produção e na utilização de combustíveis renováveis. Para ele, os novos testes podem permitir o aumento das misturas e estimular a agroindústria nacional.
“A soja vira combustível, vira farelo, vira carne, alimenta a população e ajuda a reduzir a poluição”, declarou.
Alckmin também relacionou a política de biocombustíveis à qualidade do ar. Ele lembrou que, quando governava São Paulo, o estado reduziu a alíquota do ICMS incidente sobre o etanol como forma de estimular seu consumo e diminuir a poluição provocada pelos veículos.
Mais engenheiros e investimento em pesquisa
Outro tema destacado por Lula foi a formação de profissionais nas áreas de engenharia e tecnologia. O presidente afirmou que o avanço da inteligência artificial, da digitalização industrial e das novas fontes de energia exige uma ampliação da oferta de engenheiros e engenheiras.
“Engenharia não é profissão de homem. Hoje, a mulher estuda o que quiser. Nós precisamos formar mais engenheiros e mais engenheiras neste país”, afirmou.
Lula defendeu a manutenção dos cursos nas áreas de ciências humanas, saúde e direito, mas considerou necessário ampliar a presença das engenharias no sistema educacional brasileiro.
“A engenharia é que faz a gente transformar o nosso conhecimento e a nossa riqueza”, declarou.
O presidente ainda divulgou a abertura de inscrições para o Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies, e afirmou que estudantes sem condições de pagar as mensalidades do Instituto Mauá podem procurar o programa.
“O que nós não podemos é deixar ninguém fora da escola. Somente a educação pode fazer a revolução de que o país precisa”, disse.
A visita terminou com o anúncio de que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social apoiará uma competição de robótica promovida pela instituição. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, participou da agenda ao lado de ministros, representantes empresariais e dirigentes do Instituto Mauá.
Após o evento, Lula seguiu para São José dos Campos, onde visitaria o Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Segundo o presidente, o objetivo era acompanhar o funcionamento de uma turbina desenvolvida para operar com etanol, projeto que recebeu novos recursos federais depois de permanecer interrompido.
Para Lula, os projetos apresentados nas duas instituições demonstram a importância da continuidade dos investimentos públicos em ciência.
“Tudo isso acontece por conta de uma coisa só: investimento em pesquisa”, concluiu.






