Especialistas apresentam experiências de agroecologia, reúso da água, bancos de sementes e organização comunitária como respostas concretas à emergência climática no Semiárido brasileiro
As soluções produzidas pelas comunidades do Semiárido para enfrentar a crise climática foram tema da edição desta segunda-feira (13) do programa Bancos da Democracia, apresentado pela jornalista Sara Goes. A entrevista reuniu Carlos Magno Moraes, coordenador executivo do Centro Sabiá (PE), Carla Galiza, coordenadora de projetos do CETRA (CE), e Pedro Genir, colaborador do Movimento de Organização Comunitária (MOC/BA), que compartilharam experiências desenvolvidas em diferentes estados do Nordeste.
O debate foi motivado por uma expedição realizada pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), que percorreu comunidades do Semiárido pernambucano para documentar iniciativas de convivência com a Caatinga. Entre elas estão sistemas agroflorestais, bancos comunitários de sementes crioulas, tecnologias de armazenamento e reúso da água, recuperação de áreas degradadas e fortalecimento da agricultura familiar.
Para os convidados, o principal desafio continua sendo romper uma visão histórica que associa a Caatinga exclusivamente à seca, à pobreza e à escassez.
“Colocar soluções e Caatinga na mesma frase já é uma revolução”, afirmou Carlos Magno Moraes. Segundo ele, durante décadas o Semiárido foi apresentado apenas como um território de problemas, quando, na prática, acumula conhecimentos que podem inspirar respostas para a crise climática em diferentes partes do mundo.
O coordenador do Centro Sabiá explicou que essa percepção foi reforçada por uma produção histórica de imagens e narrativas que reduzem o sertão à paisagem árida e ao sofrimento humano. Para ilustrar esse processo, mostrou durante a entrevista uma pesquisa de imagens na internet sobre o “sertão nordestino”, dominada por fotografias de seca, carcaças de animais e escassez de água.
“Quando uma história é contada muitas vezes de uma única forma, ela passa a ser considerada a única verdade”, observou, ao defender a construção de novas narrativas sobre o bioma.
Carlos Magno também apresentou a experiência da Caatinga Climate Week, encontro criado para aproximar formuladores de políticas públicas, pesquisadores e representantes de organismos internacionais das experiências desenvolvidas pelas comunidades do Semiárido.
Inspirada nas semanas do clima realizadas em cidades como Nova York, a iniciativa leva autoridades, pesquisadores e financiadores diretamente aos territórios, permitindo que agricultores, indígenas, quilombolas e organizações sociais apresentem suas próprias soluções para adaptação às mudanças climáticas.
Segundo ele, a proposta inverte a lógica tradicional das conferências internacionais.
“As pessoas que mais tinham a ensinar eram justamente os agricultores, agricultoras, indígenas e quilombolas que vivem diariamente os efeitos da crise climática.”
O colaborador do MOC, Pedro Genir, destacou que a emergência climática já alterou profundamente a rotina das comunidades rurais da Bahia. Segundo ele, as chuvas deixaram de seguir padrões previsíveis, afetando diretamente a produção agrícola.
“Hoje chove em uma comunidade e não chove na outra. Às vezes chove em uma parte da comunidade e na outra não.”
Ele explicou que a convivência com o Semiárido depende da valorização dos conhecimentos construídos pelas próprias famílias agricultoras. Entre as iniciativas desenvolvidas pelo MOC estão bancos comunitários de sementes, tecnologias de armazenamento de água, sistemas de reúso de águas cinzas, recuperação da vegetação nativa e observatórios para monitoramento do carbono nas propriedades rurais.
Pedro também chamou atenção para o processo de recatingamento, estratégia que busca recuperar áreas degradadas da vegetação nativa. Segundo ele, além da restauração ambiental, os projetos procuram garantir atividades econômicas sustentáveis, como a apicultura, permitindo geração de renda e conservação ambiental ao mesmo tempo.
Para Carla Galiza, do CETRA, a própria ideia de combater a seca representa uma construção política que historicamente serviu para justificar modelos de exploração econômica do Semiárido.
Segundo ela, o desafio atual é fortalecer a perspectiva da convivência com a Caatinga.
“A seca é uma característica natural desse ambiente. O problema não é a seca em si, mas a forma como o território foi historicamente explorado.”
A coordenadora ressaltou que a Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e possui grande diversidade de espécies vegetais e animais. Na sua avaliação, práticas agroecológicas aumentam a capacidade de adaptação das comunidades diante das mudanças climáticas.
Ela explicou que as soluções não dependem apenas de tecnologias isoladas, mas da combinação entre organização comunitária, assistência técnica especializada, economia solidária e políticas públicas permanentes.
Entre os exemplos citados estão quintais produtivos, sistemas agroflorestais, bancos de sementes crioulas, feiras agroecológicas, saneamento rural, biodigestores e tecnologias de armazenamento de água para consumo humano e produção agrícola.
Carla também destacou o papel das mulheres e da juventude rural na manutenção dessas experiências.
Segundo ela, projetos voltados para agroecologia e economia solidária ajudam a criar condições para que jovens permaneçam no campo com perspectivas de renda, autonomia e qualidade de vida.
Ao longo da entrevista, os participantes alertaram ainda para novas pressões sobre o Semiárido, como a expansão de grandes empreendimentos de mineração, energia e monoculturas, defendendo que o desenvolvimento da região respeite os modos de vida das comunidades tradicionais.
Para os convidados, preservar a Caatinga não significa impedir o desenvolvimento econômico, mas reconhecer que os conhecimentos acumulados pelas populações locais já oferecem respostas concretas para enfrentar uma crise climática que hoje afeta o planeta inteiro.
Referências
Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902)
O perigo de uma história única (The Danger of a Single Story), conferência de Chimamanda Ngozi Adichie (TED, 2009), posteriormente publicada em livro
📺 Programa Bancos da Democracia tem apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (Termo de Fomento – MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO nº 00111/2025 // TRANSFEREGOV.BR Nº991217-2025)
📅 Toda segunda-feira
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O









