Pesquisa mostra crescimento da insatisfação com o governo e forte preocupação com corrupção; apesar disso, 71% rejeitam realização de eleições enquanto guerra continua
Da Redação
Mais da metade dos ucranianos consultados pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev afirma que Volodymyr Zelensky deveria encerrar sua passagem pela Presidência ao fim do atual mandato. Os mesmos levantamentos registram aumento da frustração com o governo e forte cobrança sobre casos de corrupção, mas mostram que a maioria da população ainda rejeita a realização de eleições durante a guerra.
Um conjunto de pesquisas divulgado pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, o KIIS, revela uma mudança importante no ambiente político interno da Ucrânia. Segundo o levantamento mais recente, 53% dos entrevistados acreditam que o presidente Volodymyr Zelensky deveria limitar-se ao atual mandato e não concorrer novamente à Presidência. Outros 42% defendem que ele participe da próxima eleição, enquanto 5% não souberam responder.
Em dezembro de 2025, 46% defendiam que Zelensky não buscasse outro mandato e 45% apoiavam uma nova candidatura. A diferença entre os dois grupos, que naquele momento estava praticamente dentro da margem de erro, aumentou no levantamento realizado entre 12 e 21 de setembro deste ano. Kiis
A pesquisa ouviu 1.002 adultos por telefone nas regiões controladas pelo governo ucraniano. Pessoas residentes nos territórios ocupados pela Rússia não participaram, assim como cidadãos que deixaram o país depois do início da invasão em fevereiro de 2022. O próprio instituto alerta que, além da margem estatística normal, pesquisas realizadas durante uma guerra estão sujeitas a distorções adicionais provocadas por deslocamentos populacionais, dificuldades de comunicação e pela impossibilidade de alcançar determinados grupos. Kiis
Os números aparecem em um momento de crescente tensão entre a Presidência, órgãos anticorrupção, integrantes do governo e parcelas da sociedade ucraniana. Eles também ajudam a explicar por que temas internos voltaram a ganhar espaço no debate público mesmo enquanto o país continua submetido a ataques russos, mantém centenas de milhares de militares mobilizados e depende de ajuda externa para sustentar parte significativa de seu esforço de guerra.
A insatisfação, porém, não significa que a sociedade ucraniana queira convocar imediatamente uma eleição. Quando perguntados sobre o momento adequado para votar, 71% disseram que as eleições devem ocorrer apenas depois do fim da guerra. Somente 24% defenderam eleições agora, enquanto 4% não responderam.
O dado produz um quadro político mais complexo do que a simples ideia de rejeição a Zelensky. Uma parcela majoritária dos entrevistados demonstra desejo de mudança na liderança política, mas, simultaneamente, considera inadequado realizar essa mudança eleitoral enquanto permanecer em vigor a situação de guerra. O próprio KIIS descreveu esse cenário como uma espécie de adiamento da renovação política para o período posterior ao conflito. Kiis
Corrupção tornou-se elemento central da insatisfação
A corrupção aparece com peso ainda maior em outra parte da pesquisa realizada pelo instituto no mesmo período. Quando receberam uma lista de problemas e puderam escolher até três alternativas, 50% dos entrevistados apontaram a corrupção no governo entre suas maiores preocupações. Ataques massivos de mísseis e drones russos foram mencionados por 40%.
O KIIS faz uma ressalva importante sobre esses números. Quando a pergunta sobre os maiores problemas do país é feita de maneira aberta, sem uma lista previamente apresentada aos entrevistados, a guerra aparece com maior frequência. O instituto alerta, portanto, que a forma como a pergunta é apresentada influencia os resultados e que a corrupção provoca uma resposta emocional particularmente forte na sociedade ucraniana. Kiis
Ainda assim, os indicadores sobre a percepção do problema são significativos. Setenta e dois por cento dos entrevistados afirmaram acreditar que a corrupção aumentou durante o período da invasão em grande escala, iniciada em fevereiro de 2022. Apenas 6% consideraram que ela diminuiu.
O mesmo percentual, 72%, respondeu que Zelensky possui responsabilidade pessoal pelas práticas de corrupção atribuídas a pessoas de seu entorno. O instituto, entretanto, advertiu explicitamente que a resposta não deve ser interpretada como acusação de envolvimento direto do presidente em crimes.
Na leitura dos pesquisadores, “responsabilidade pessoal”, nesse caso, significa principalmente responsabilidade política pela escolha, manutenção e atuação de integrantes de sua administração, e não a afirmação de que Zelensky tenha participado de esquemas ilícitos. Vinte e cinco por cento disseram não considerar o presidente responsável. Kiis
Essa distinção é importante porque diversas investigações recentes atingiram antigos funcionários e pessoas próximas ao núcleo de poder em Kiev, mas não estabeleceram responsabilidade criminal do presidente.
Entre os casos de maior repercussão estão investigações conduzidas pelo Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia, o NABU, e pela Procuradoria Especializada Anticorrupção, conhecida como SAPO. Antigos integrantes do gabinete presidencial, autoridades de governo e empresários politicamente conectados passaram a ser investigados em diferentes processos envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro, contratos públicos e desvios de recursos.
Em maio, o ex-chefe do gabinete presidencial Andriy Yermak foi formalmente apontado como suspeito em uma investigação envolvendo lavagem de dinheiro. Yermak rejeitou as acusações. Investigações diferentes também atingiram outros antigos integrantes da administração presidencial. OSW Ośrodek Studiów Wschodnich
O tema já havia provocado uma crise política no ano anterior. Em julho de 2025, Zelensky sancionou uma legislação que reduzia a independência do NABU e da SAPO, colocando as estruturas anticorrupção sob maior influência do procurador-geral. A medida provocou manifestações em várias cidades ucranianas e críticas de aliados europeus. Depois dos protestos, Zelensky apresentou nova legislação e a autonomia das instituições foi restaurada. Reuters
Decepção cresce mesmo sem ruptura com esforço de guerra
Outra parte do levantamento ajuda a mostrar a mudança no ambiente político. Ao serem perguntados sobre os sentimentos provocados pelo atual governo, 44% dos entrevistados escolheram “decepção”, contra 36% em dezembro de 2025. “Vergonha” passou de 20% para 33%, enquanto “raiva” subiu de 14% para 20%.
Ao mesmo tempo, 23% citaram esperança, percentual que permaneceu estável, e outros sentimentos positivos também continuaram presentes entre parcelas dos entrevistados. A pesquisa permitia a escolha de até três respostas, portanto os percentuais não representam grupos necessariamente separados. Kiis
Quando a questão apresentada foi a direção geral do país, 45% disseram acreditar que a Ucrânia caminha na direção errada, 40% consideraram que segue pelo caminho correto e 15% não responderam. O resultado é semelhante ao obtido em fevereiro de 2024, quando 46% apontavam direção errada e 44%, correta. Kiis
Por isso, os dados não permitem falar simplesmente em colapso repentino do apoio político ao presidente. Eles mostram, entretanto, uma sociedade que separa cada vez mais duas questões: a necessidade de manter o funcionamento do Estado durante a guerra e a avaliação que fará de sua liderança quando novamente houver condições para eleições.
O próprio instituto detectou crescimento expressivo do desejo de renovação política depois do conflito. Em maio deste ano, 88% dos entrevistados disseram esperar algum tipo de renovação nas estruturas centrais de poder depois da guerra. No caso específico da Presidência, a parcela favorável a uma mudança posterior aumentou de 23% em 2023 para 67% em 2026. Kiis
Essa combinação ajuda a entender o momento político de Kiev. O apoio ao esforço de guerra e a rejeição a eleições imediatas coexistem com um desgaste crescente do governo, cobranças relacionadas à corrupção e uma demanda por renovação futura da classe dirigente.
A disputa política ucraniana, portanto, não está suspensa pela guerra. Ela ocorre de outra maneira. Sem eleições enquanto vigora a lei marcial, pesquisas, manifestações, investigações anticorrupção e conflitos dentro do próprio aparelho de Estado transformaram-se nos principais indicadores da relação entre governo e sociedade.
Os números divulgados pelo KIIS apontam que Zelensky continua ocupando uma posição central na condução do país em guerra, mas já enfrenta uma questão que provavelmente terá peso quando o sistema eleitoral puder voltar a funcionar: uma maioria dos entrevistados afirma hoje que, quando esse momento chegar, prefere que o atual presidente não busque um novo mandato.


