Atos reuniram milhares de pessoas no Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, São Paulo e outras cidades, a uma semana do segundo turno presidencial. Caetano Veloso, Chico Buarque, Daniela Mercury, Gilberto Gil e artistas de diferentes gerações participaram das atividades, que ocorreram depois de o TSE rejeitar uma tentativa de suspensão das apresentações.
Da Redação
A Avenida Atlântica, em Copacabana, recebeu neste domingo (18) milhares de pessoas que enfrentaram a chuva para participar de um ato musical em defesa da democracia, enquanto, a cerca de 1.200 quilômetros dali, manifestantes ocupavam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e caminhavam em direção ao Congresso Nacional. Em Salvador, uma multidão acompanhava trios elétricos entre Ondina e o Farol da Barra, com apresentações de alguns dos principais nomes da música brasileira. As manifestações integraram uma jornada nacional de mobilização política no último domingo antes do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, com a participação de apoiadores da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de movimentos que organizaram atividades sob a bandeira da defesa da democracia.
Os atos ocorreram em diferentes formatos, reunindo concentrações, caminhadas, apresentações musicais e manifestações estudantis. Além do Rio de Janeiro, de Brasília e de Salvador, houve registros de atividades em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Maceió e outras cidades. A distribuição das manifestações por diferentes regiões do país marcou um dia de intensa presença das organizações sociais e culturais no espaço público, em um momento no qual as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro (PL) realizam seus últimos compromissos antes da votação.
No Rio de Janeiro, a programação começou pela manhã, na região da Candelária, onde estudantes, movimentos sociais e representantes de organizações políticas se reuniram antes de seguir em caminhada pelo Centro da cidade. O cantor Chico Buarque participou da manifestação e discursou aos presentes, associando sua participação à defesa da democracia e ao apoio à candidatura de Lula. Marisa Monte também esteve entre os artistas presentes, segundo a cobertura da Agência Estado. A mobilização reuniu diferentes gerações de participantes, entre estudantes, militantes de movimentos populares e pessoas que compareceram individualmente.
A presença de Chico Buarque teve significado particular para parte dos manifestantes, considerando sua trajetória de participação em atividades culturais e políticas desde a ditadura militar. Ao longo de décadas, o compositor se posicionou publicamente sobre questões democráticas e participou de eventos relacionados às disputas institucionais brasileiras. Neste domingo, sua presença integrou uma programação organizada por movimentos sociais e estudantis, distinta do grande ato musical realizado posteriormente em Copacabana.
Na orla carioca, o Ato Musical pela Democracia reuniu artistas de diferentes gerações. Convocada por Caetano Veloso e organizada por iniciativas como 342 Artes e Mídia Ninja, a apresentação ocupou um trecho de aproximadamente um quilômetro da Avenida Atlântica, segundo a Folha de S.Paulo. Caetano, Djavan, João Bosco, Simone, Frejat, Ivan Lins, Marina Sena e Chico César estiveram entre os nomes anunciados ou registrados na programação, que combinou apresentações artísticas com intervenções de participantes ligados à cultura e a movimentos sociais.
A chuva que atingiu o Rio de Janeiro durante o evento não impediu a permanência de milhares de pessoas na região de Copacabana. O UOL publicou uma estimativa de 56,4 mil participantes, embora a cifra deva ser tratada como uma estimativa de público, e não como contagem oficial definitiva de todas as pessoas que passaram pelo evento. O número também não pode ser estendido às demais manifestações do país, realizadas em locais e horários diferentes.
A participação de artistas com trajetórias musicais tão diversas foi um dos aspectos mais visíveis da programação. A organização procurou reunir expressões culturais de várias gerações e estilos, enquanto os participantes se distribuíam pela orla, alguns acompanhando os shows e outros exibindo bandeiras e mensagens políticas. A manifestação foi divulgada como um evento em defesa da democracia, mas contou com a presença de numerosos apoiadores do presidente Lula, identificados por camisetas, símbolos e manifestações individuais de preferência eleitoral.
A presença simultânea de pessoas mobilizadas por questões institucionais e de participantes explicitamente identificados com uma candidatura exige distinguir a iniciativa dos organizadores das manifestações individuais do público. Essa diferença esteve no centro da controvérsia jurídica que antecedeu os eventos e que foi examinada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Em Salvador, a mobilização percorreu a orla da cidade, saindo de Ondina em direção ao Farol da Barra. A cantora Daniela Mercury participou da condução do ato, realizado com a utilização de trio elétrico e acompanhado por artistas, integrantes de blocos afro e manifestantes que se concentraram ao longo do percurso. A programação incluiu Gilberto Gil, Liniker, Zélia Duncan, BaianaSystem, Rachel Reis, Baco Exu do Blues, O Kanalha e Mariene de Castro, além da presença de grupos culturais como Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê, Banda Didá e Cortejo Afro.
A manifestação na capital baiana reuniu elementos característicos das grandes mobilizações culturais de Salvador. A utilização do trio elétrico, a presença de blocos afro e a participação de artistas ligados à música popular e à produção contemporânea deram ao evento uma estrutura diferente das passeatas realizadas em outras capitais. Segundo a cobertura do Portal Salvador FM, o percurso durou aproximadamente quatro horas e terminou com Daniela Mercury cantando o Hino Nacional.
O ato baiano também ocorreu em uma cidade com longa tradição de participação dos movimentos negros, estudantis e culturais nos debates nacionais. A presença de blocos afro e artistas identificados com diferentes expressões da música brasileira acrescentou à manifestação questões relacionadas à cultura, à identidade e à participação política, além da disputa presidencial que motivou a mobilização de parte do público.
Em Brasília, os participantes começaram a se concentrar pela manhã nas proximidades do Museu Nacional da República. A caminhada seguiu pela área central da capital federal e alcançou a Esplanada dos Ministérios, em direção ao Congresso Nacional. A programação reuniu militantes de organizações de esquerda, representantes de movimentos sociais e pessoas que compareceram para manifestar apoio à reeleição de Lula. Também foram registradas apresentações musicais, incluindo participação da banda Natiruts, segundo a cobertura do UOL.
A ocupação da área monumental de Brasília teve como cenário as sedes dos principais poderes da República. A utilização desse espaço em manifestações políticas é recorrente, especialmente em mobilizações relacionadas às instituições federais. Neste domingo, as imagens registraram grupos caminhando pela Esplanada, com faixas e bandeiras, enquanto a programação cultural acompanhava a concentração.
Em São Paulo, a mobilização não ficou restrita a um único ponto da cidade. Houve atividades no Largo da Batata, no Vale do Anhangabaú, no Grajaú, em Itaquera e em outras regiões. Parte dos eventos teve participação de artistas ligados ao rap e à música urbana, incluindo Emicida e Karol Conká, segundo o UOL. A distribuição territorial das atividades destacou a presença de movimentos culturais e políticos em diferentes áreas da capital, incluindo bairros distantes da região central.
Outras cidades também registraram mobilizações. Em Curitiba, participantes realizaram o ato denominado Por um Brasil Soberano, com concentração na Praça 19 de Dezembro e caminhada até o Palácio Iguaçu. Em Belo Horizonte, Florianópolis, Porto Alegre, Maceió e Olinda, manifestações reuniram apoiadores do presidente e grupos que participaram da convocação nacional.
Embora os registros em vídeo e as reportagens confirmem atividades em diferentes capitais, não existe, nas informações consultadas, uma contagem nacional consolidada e independente de participantes. As imagens de concentrações e caminhadas permitem observar a dimensão dos atos em locais específicos, mas não autorizam calcular o comparecimento total no país sem levantamentos metodologicamente definidos.
Decisão do TSE permitiu a realização dos eventos
A mobilização deste domingo foi precedida por uma disputa na Justiça Eleitoral. O Partido Novo solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral a suspensão dos eventos organizados sob a denominação Brasil nas Ruas, alegando que as apresentações de artistas e a utilização de trios elétricos poderiam configurar showmícios destinados a beneficiar a candidatura de Lula.
A legenda também questionou a origem dos recursos empregados na organização das atividades e pediu medidas destinadas a impedir apresentações musicais que, segundo sua avaliação, poderiam ser utilizadas como propaganda eleitoral irregular.
No sábado (17), o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, rejeitou o pedido de suspensão preventiva. Ao examinar os documentos apresentados, considerou insuficientes os elementos que demonstrariam uma ligação direta entre os eventos culturais e a estrutura formal da campanha presidencial.
A decisão ressaltou que a legislação eleitoral proíbe os showmícios, mas essa restrição não representa uma proibição geral à participação de artistas em manifestações políticas. Para caracterizar uma infração, é necessário examinar a finalidade concreta da apresentação, as condições de organização e eventual utilização do evento para promover candidaturas de maneira vedada.
O ministro também observou que manifestações culturais e políticas estão protegidas por direitos constitucionais, especialmente as liberdades de expressão e reunião. A possibilidade de ocorrência de uma irregularidade futura não foi considerada fundamento suficiente para impedir antecipadamente os atos.
O indeferimento, entretanto, não significou uma autorização irrestrita para propaganda eleitoral durante as apresentações. O TSE deixou aberta a possibilidade de examinar eventuais infrações posteriormente, caso sejam apresentados elementos concretos sobre descumprimento das regras.
Em comunicado oficial publicado neste domingo, a Justiça Eleitoral reiterou essa distinção. A realização dos eventos foi preservada, mas as atividades permaneceram sujeitas às normas eleitorais, incluindo as limitações relacionadas ao uso de apresentações artísticas para promoção direta de candidaturas.
Os organizadores do ato de Copacabana haviam informado que os artistas receberiam orientações para evitar pedidos explícitos de voto, números eleitorais, jingles e slogans oficiais de campanha. Essas condições buscaram estabelecer uma separação entre a manifestação cultural anunciada e a propaganda eleitoral formal.
A existência de manifestações individuais de apoio a Lula entre o público não demonstra, isoladamente, que toda a programação tenha sido organizada como atividade oficial de campanha. Da mesma forma, o caráter cultural anunciado pelos responsáveis não impediria a apuração de infrações caso elas fossem efetivamente identificadas.
Mobilização antecedeu debate presidencial
Os atos ocorreram no mesmo domingo em que Lula e Flávio Bolsonaro tinham compromisso com o primeiro debate televisivo do segundo turno, programado para a noite na Band. O presidente não compareceu às manifestações, permanecendo concentrado na preparação para o encontro com seu adversário.
A coincidência dos eventos com a preparação para o debate deu ao domingo duas dimensões da campanha eleitoral: de um lado, as mobilizações presenciais e manifestações culturais em diferentes cidades; de outro, a disputa pública de propostas e argumentos entre os candidatos na televisão.
Nos últimos dias, os principais institutos de pesquisa divulgaram levantamentos que registram pequenas diferenças entre as intenções de voto para Lula e Flávio, em geral dentro das respectivas margens de erro. Esses resultados descrevem as preferências declaradas pelos entrevistados nas datas das pesquisas, sem permitir antecipar o resultado das urnas.
A presença de milhares de pessoas nas manifestações mostra a capacidade de mobilização dos grupos participantes, mas não permite estabelecer, por si só, mudanças nas intenções de voto. Comparecimento a atos públicos e preferência eleitoral são indicadores distintos, e a participação nas ruas não corresponde a uma amostra representativa do conjunto dos eleitores brasileiros.
A dimensão política das manifestações também ultrapassa o calendário imediato da campanha. A presença de organizações estudantis, movimentos sociais, coletivos culturais e artistas demonstra que o debate sobre democracia, direitos e participação política continua mobilizando setores da sociedade civil, embora os participantes possam atribuir significados diferentes a essas pautas.
No Rio de Janeiro, a presença de gerações distintas ficou visível entre os participantes. Reportagem do UOL registrou a participação de duas mulheres idosas, de 100 e 95 anos, que compareceram ao evento de Copacabana acompanhadas por familiares e relacionaram sua presença às experiências vividas durante períodos anteriores da história política brasileira. Entre estudantes e artistas mais jovens, as mobilizações também reuniram pessoas cuja experiência de participação política se desenvolveu principalmente nos últimos anos.
Os relatos individuais ajudam a compreender a diversidade de trajetórias presentes, sem que possam ser utilizados para representar as motivações de todos os manifestantes.
Ao longo do domingo, vídeos das caminhadas e apresentações circularam nas redes sociais, ampliando a visibilidade das atividades realizadas em diferentes capitais. A publicação dessas imagens permitiu acompanhar concentrações simultâneas e eventos que ocorreram ao longo da tarde, embora o alcance digital de cada gravação não corresponda necessariamente ao público presente nos locais.
A jornada nacional terminou com registros de manifestações em várias regiões, apresentações de alguns dos nomes mais conhecidos da música brasileira e a participação de movimentos que haviam convocado atividades em defesa da democracia e da reeleição presidencial.
A semana seguinte concentrará os compromissos finais das campanhas antes da votação de 25 de outubro. As manifestações deste domingo integram esse período de intensa atividade política, no qual partidos, movimentos e cidadãos utilizam diferentes espaços para expressar suas posições.
Os eventos também reforçaram uma discussão jurídica que deve continuar acompanhando as eleições: a necessidade de assegurar o direito à manifestação cultural e política sem afastar a fiscalização das regras que disciplinam a propaganda eleitoral.
Nas ruas, o que se viu neste domingo foi a realização de atos de diferentes dimensões e formatos, reunindo milhares de participantes, artistas e organizações sociais. A extensão nacional da mobilização está documentada por reportagens e registros audiovisuais, enquanto sua dimensão exata e seus efeitos sobre as preferências eleitorais não podem ser determinados apenas pelas imagens.





