A 2ª Marcha das Mulheres Negras, que ocorre no dia 25 em Brasília, articula resistência, reparação e bem viver em um país ainda marcado por violência estrutural, racismo ambiental e desigualdades históricas
Mulheres negras retomam Brasília por reparação e bem viver
No início da semana marcada pelo Dia de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado nacionalmente em 20 de novembro, o Programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes, dedicou sua edição desta segunda-feira (17) ao debate sobre a 2ª Marcha das Mulheres Negras, que neste ano retorna às ruas para cobrar reparação histórica, justiça racial e políticas de bem viver.
O programa recebeu Andreia Lopes (Crauá Coletiva Ambiental e Comitê Impulsor da Marcha no Ceará), Silvani Valentim (coordenadora do Minas Negras/CNPq e da Rede Mulheres, Gênero e Diversidade do Movimento Internacional do Graal – MG) e Itanaci Oliveira (Casa da Mulher do Nordeste e Rede de Mulheres Negras de Pernambuco), que detalharam a dimensão política, ancestral e territorial dessa mobilização. A entrevista original foi transmitida pela TV Atitude Popular.
A marcha como processo: “Nossos passos vêm de longe”
Ainda no início do programa, Sara Goes contextualizou o caráter histórico da Marcha das Mulheres Negras — a primeira ocorreu em 2015, mobilizando cerca de 100 mil mulheres em Brasília. Este ano, o objetivo nacional é reunir 1 milhão de mulheres em um movimento que, como destacaram as convidadas, não começa no dia 25 e tampouco termina nele.
A cientista ambiental Andreia Lopes, do Ceará, reforçou que a marcha é uma construção que já leva mais de dois anos de atividades, encontros, formações e interiorização:
“A marcha não começa em Brasília. Ela vem sendo gestada nos territórios. O que fazemos agora é o resultado de luta cotidiana, ancestral e coletiva.”
Andreia destacou ainda que a mobilização não é apenas política — é também espiritual, comunitária e ecológica, numa síntese que une o combate ao racismo à defesa da vida:
“Nós somos natureza. A tentativa de separar nossos corpos do território é parte da violência colonial.”
Racismo ambiental: do cotidiano periférico às grandes emergências
A discussão sobre racismo ambiental ganhou força no programa. A ministra Anielle Franco havia sido alvo de críticas no passado ao tratar do tema, e Sara relembrou como parte da imprensa ignorou ou ridicularizou o conceito.
Andreia explicou a dimensão concreta desse debate:
“Racismo ambiental não é só sobre árvore derrubada. É sobre territórios negros e indígenas receberem cargas tóxicas maiores, terem menos infraestrutura, menos acesso a saneamento, saúde, lazer.”
Ela lembrou ainda que essa desigualdade ambiental é ferramenta de extermínio:
“Quando tiram a esperança das nossas crianças dizendo que o mundo acabou, isso é parte do projeto de normalizar a morte dos nossos corpos.”
A professora Silvani Valentim reforçou que, em estados como Minas Gerais, esse debate é urgente:
“As barragens romperam rios, mataram peixes e ceifaram possibilidades de vida. Racismo ambiental é enfrentamento ao genocídio moderno.”
Organização nacional: interior, redes e economia solidária
Da venda de camisetas e feijoadas às articulações com casas de cultura e coletivos, as convidadas explicaram que boa parte da marcha está sendo financiada pelas próprias mulheres negras, com apoio de redes de economia solidária.
Andreia citou a importância simbólica e política desse processo:
“Nós estamos marchando por todas, inclusive por quem não pode ir. E chegar em Brasília exige trabalho, tempo e energia. Nada é simples para a mulher negra.”
Pernambuco e a força das caravanas: “A carne mais barata do mercado não é a carne negra”
A assistente social Itanaci Oliveira contou como o comitê pernambucano conseguiu realizar 37 caravanas em 37 municípios, alcançando mulheres de todo o estado:
“Somos nós mesmas que nos movemos pelo direito de viver. A carne negra não é a carne mais barata — e se ainda é, não deve ser.”
Ela destacou o caráter emocional, ancestral e profundamente político da marcha:
“Nós fomos sequestradas para cá. E desde então lutamos. Marchar é dizer sim à vida, sim ao futuro, sim ao bem viver.”
Reparação, política e futuro: 2026 no horizonte
As convidadas enfatizaram que a marcha também tem um componente estratégico:
enegrecer o parlamento em 2026 e fortalecer a participação de mulheres negras na política institucional.
Itanaci sintetizou essa dimensão:
“Nós temos candidatas preparadas, com vivência, com praxis. Reparação também é garantir que as mulheres negras ocupem o poder.”
Silvani reforçou:
“Reparar a ação significa reconstruir o país dialogando com quem historicamente o sustentou. Somos fundamentais para pensar o presente e o futuro do Brasil.”
As convidadas encerraram com um chamado: que todas e todos divulguem, apoiem e fortaleçam a marcha — seja indo a Brasília, seja compartilhando as pautas em suas cidades e redes.
Assista à entrevista completa
📺 Programa Bancos da Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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