Registros extraídos pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro indicam reunião na residência do ex-controlador do Banco Master em 20 de agosto de 2025, poucas horas depois de Ibaneis Rocha sancionar a autorização legislativa para a operação com o banco público do Distrito Federal. O encontro está documentado, mas as mensagens divulgadas até agora não demonstram que a venda do Master tenha sido discutida com os políticos
Da Redação
Novas mensagens recuperadas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro acrescentaram uma peça importante à reconstrução das relações políticas mantidas pelo antigo controlador do Banco Master no período em que tentava concluir a venda de parte da instituição ao Banco de Brasília. Na noite de 20 de agosto de 2025, Vorcaro recebeu em sua residência, no Lago Sul, em Brasília, o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato do PL à Presidência da República, e o então senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas e uma das principais lideranças do campo bolsonarista. O encontro aconteceu em uma data especialmente sensível para o negócio: naquele mesmo dia, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, havia sancionado a lei que autorizava o BRB a adquirir participação no Master. Bnews
A coincidência temporal não prova que Flávio ou Ciro tenham participado das negociações bancárias, interferido na autorização dada pelo governo do Distrito Federal ou discutido a venda durante a reunião. O conteúdo integral do encontro não é conhecido. As mensagens reveladas, entretanto, colocam dois políticos de alto escalão dentro da casa do banqueiro justamente no momento em que o futuro do Master dependia de decisões políticas, regulatórias e financeiras decisivas. O episódio ganha peso adicional porque já não aparece isolado: documentos da própria PF mostram uma relação continuada entre Vorcaro e Flávio ao longo de 2025, além de contatos frequentes do banqueiro com Ciro Nogueira, Hugo Motta, Fábio Faria e outras figuras centrais de Brasília. UOL Notícias
A sequência daquela noite começa no fim da tarde. Por volta das 17h22, Vorcaro escreveu a Flávio sugerindo um encontro às 21 horas. O senador respondeu confirmando. Mais tarde, às 21h47, avisou ao banqueiro que estava “a caminho”. Aproximadamente uma hora e meia antes, Ciro Nogueira havia enviado uma mensagem de áudio explicando que estava numa cerimônia do Congresso em Foco e mencionando que Flávio também se encontrava no evento. Ciro disse que Flávio provavelmente iria antes e que ele próprio chegaria quando a premiação terminasse. Os registros apontam, assim, para um encontro combinado entre os três na casa do banqueiro. Bnews
Hugo Motta também foi convidado. Às 18h15, Vorcaro perguntou ao presidente da Câmara se ele conseguiria aparecer mais tarde para “tomar uma”. Já às 22h48, Motta quis saber onde o banqueiro estava. Vorcaro respondeu que estava em casa, informou que Ciro estava lá e voltou a convidá-lo. Em seguida houve uma ligação de poucos segundos entre os dois. A assessoria de Motta não confirmou nem negou que ele tenha comparecido naquela noite e afirmou que contatos com empresários fazem parte da atividade institucional do presidente da Câmara. Bnews
Os registros oferecem, portanto, uma fotografia bastante concreta de como Daniel Vorcaro circulava pelo núcleo do poder político brasileiro enquanto tentava salvar uma instituição financeira que enfrentava questionamentos crescentes no mercado e dependia da aprovação do Banco Central para concluir uma operação bilionária com um banco controlado pelo governo do Distrito Federal.
Uma noite decisiva para o Master
O contexto daquele 20 de agosto ajuda a explicar por que a revelação chama atenção. Um dia antes, a Câmara Legislativa do Distrito Federal havia aprovado, em dois turnos, o projeto enviado em regime de urgência pelo governo local autorizando o BRB a adquirir instituições financeiras. A medida atendia também a uma exigência judicial para que uma operação dessa dimensão tivesse autorização legislativa. No dia seguinte, Ibaneis Rocha sancionou o texto sem vetos.
O negócio proposto previa que o BRB adquirisse 49% das ações ordinárias e a totalidade das ações preferenciais do Banco Master. Àquela altura, o governo do Distrito Federal apresentava a operação como uma oportunidade para expandir o banco público, aumentar sua escala nacional e fortalecer sua posição no sistema financeiro. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica já havia aprovado a transação, mas ainda faltava a etapa decisiva: o aval do Banco Central. UOL Economia
Foi nesse mesmo dia, depois da sanção de Ibaneis, que Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira se dirigiram à casa de Vorcaro.
Até agora, não existe mensagem divulgada na qual o banqueiro escreva a Flávio que deseja discutir a venda para o BRB, nem registro público de que o candidato tenha realizado qualquer intervenção junto ao governo do Distrito Federal ou ao Banco Central em favor da operação. Também não há elemento conhecido que associe Ciro diretamente à sanção de Ibaneis. O fato jornalisticamente relevante é outro: enquanto o Master atravessava uma das datas mais importantes de sua tentativa de venda, seu controlador mantinha uma reunião particular com políticos de grande influência nacional.
Pouco antes da chegada dos convidados, às 21h41, Vorcaro enviou uma reprimenda ao motorista que trabalhava para ele em Brasília. Pediu que fosse avisado antes da entrada de pessoas e reclamou que o funcionário não deveria levar qualquer visitante diretamente para dentro da residência. A conversa não esclarece quem havia entrado na casa anteriormente nem demonstra que a bronca estivesse diretamente relacionada aos políticos que chegariam naquela noite. Ainda assim, o diálogo ajuda a reconstruir a movimentação na residência no período imediatamente anterior ao encontro.
Quinze dias depois, em 3 de setembro, o Banco Central rejeitou a compra do Master pelo BRB. A autoridade monetária não divulgou publicamente todos os fundamentos técnicos de sua decisão, e o BRB chegou a solicitar acesso ao conteúdo integral para avaliar as alternativas possíveis. A partir daquele momento, as dificuldades financeiras e regulatórias do Master ficaram ainda mais evidentes. Agência Brasil
O relacionamento de Vorcaro com Flávio, no entanto, continuou.
Relação com Flávio ia muito além de uma reunião
A reunião de 20 de agosto já constava parcialmente de relatórios anteriores da Polícia Federal. O que a nova revelação acrescenta é o contexto político daquela noite e a presença de Ciro Nogueira na residência.
A PF conseguiu recuperar aproximadamente três meses de conversas entre Vorcaro e Flávio, abrangendo o período de 20 de agosto a 16 de novembro de 2025. Registros mais antigos não estavam disponíveis porque o aplicativo utilizado pelo senador estava configurado para apagar automaticamente as mensagens depois de 90 dias. No material preservado, investigadores identificaram referências a pelo menos seis possíveis encontros, embora nem todos tenham podido ser comprovados como realizados. UOL Notícias
Grande parte das conversas está ligada ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia internacional sobre Jair Bolsonaro. Flávio afirma que foi nesse contexto que manteve contato com Vorcaro e sustenta que a relação envolvia uma operação privada destinada exclusivamente à produção cinematográfica. O senador reconheceu ter buscado recursos com o banqueiro, mas nega ter recebido dinheiro pessoalmente ou oferecido qualquer contrapartida política.
Documentos da investigação mostram, porém, uma interlocução intensa. Em setembro, Flávio cobrava pagamentos atrasados e demonstrava preocupação com compromissos assumidos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Em outubro, voltou a procurar Vorcaro afirmando que as filmagens estavam no limite financeiro e que precisaria encontrar outro caminho caso os aportes não fossem liberados. Em novembro, agradeceu diretamente ao banqueiro pelo apoio ao projeto. A Polícia Federal investiga a origem e o destino de cerca de R$ 60 milhões relacionados à produção e também apura negociações que inicialmente chegaram a envolver valores muito superiores. Brasil 247
A relação prosseguiu até praticamente a prisão de Vorcaro. Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da detenção do banqueiro, Flávio tentou telefonar e escreveu uma mensagem afirmando que estaria ao lado dele e pedindo uma definição sobre as questões que os dois ainda tratavam. Meses depois, o senador admitiu também ter visitado Vorcaro quando o empresário estava sob prisão domiciliar e usando tornozeleira eletrônica. Disse que o objetivo desse encontro posterior era colocar um ponto final no financiamento do filme. Agência Brasil
Nenhum desses elementos, isoladamente, comprova que Flávio tenha participado de crimes cometidos na administração do Master. O candidato nega irregularidades e afirma que sua relação com Vorcaro tinha natureza privada e comercial. É justamente por isso que a cronologia importa: cabe à investigação separar aquilo que pertencia legitimamente ao projeto cinematográfico de eventuais interesses financeiros ou políticos relacionados ao banco.
Vorcaro cultivava relações no centro do poder
As mensagens recuperadas também mostram que Flávio não era o único político de alta projeção com quem Vorcaro mantinha proximidade. Ciro Nogueira, Hugo Motta e Fábio Faria integravam um grupo de WhatsApp utilizado para organizar encontros, viagens e atividades sociais. Conversas já publicadas mostram pedidos de transporte, uso de aeronaves, encontros em residências e discussões sobre temas que chegavam ao mundo empresarial e político.
Esse padrão de relacionamento é importante para compreender o funcionamento do Banco Master antes de sua crise definitiva. Vorcaro não era apenas um banqueiro buscando investidores no mercado. Ele havia construído uma rede de relações com dirigentes partidários, parlamentares, integrantes de governos, empresários e figuras com capacidade de interlocução em diferentes instituições do Estado.
Nada disso torna ilegítimo, por si só, um encontro entre um empresário e um parlamentar. Políticos conversam com banqueiros, industriais, dirigentes sindicais, executivos e representantes dos mais diversos setores econômicos. Para que exista responsabilização é necessário demonstrar que uma relação institucional ou pessoal foi utilizada para obter vantagem ilegal, influenciar decisão pública de maneira indevida ou oferecer contrapartida.
O que mudou no caso Master é o contexto produzido pelas investigações.
A Polícia Federal passou a apurar um conjunto de suspeitas de fraudes financeiras bilionárias, operações envolvendo títulos e fundos, remessas de dinheiro e articulações relacionadas à tentativa de venda do banco. À medida que os celulares, mensagens, relatórios do Coaf e registros empresariais foram analisados, relações que anteriormente poderiam parecer apenas encontros sociais passaram a ser examinadas também sob o ângulo de interesses econômicos concretos.
É nesse cenário que a noite de 20 de agosto retorna agora à investigação e ao debate público.
O governador do Distrito Federal sancionava naquele dia a autorização necessária para que o BRB avançasse na compra do Master. Horas depois, o dono do banco recebia em sua casa Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira. Hugo Motta também era convidado a aparecer. Quinze dias mais tarde, o Banco Central impediria a conclusão do negócio.
As mensagens não revelam, até o momento, sobre o que Flávio, Ciro e Vorcaro conversaram naquela residência. Não há prova pública de que tenham discutido o BRB, a decisão de Ibaneis ou qualquer atuação junto ao Banco Central. Fazer essa afirmação sem evidências significaria ultrapassar aquilo que os documentos demonstram.
Mas os registros retiram o encontro do terreno da especulação.
Ele aconteceu numa noite específica, num endereço específico e em um momento específico da história do Banco Master. E essa circunstância passa agora a integrar uma cronologia muito mais ampla das relações de Daniel Vorcaro com o candidato que disputa a Presidência da República.
No meio de um segundo turno em que o próprio caso Master se tornou arma de disputa política, a investigação produz um dado que não depende de interpretação partidária: as mensagens do celular do banqueiro mostram que Flávio Bolsonaro esteve em sua órbita de relacionamento durante um período decisivo para o banco.
A pergunta que permanece aberta é qual era o alcance dessa relação para além de Dark Horse.
Responder a ela dependerá menos das versões apresentadas na campanha eleitoral e mais daquilo que a Polícia Federal conseguir reconstruir a partir das mensagens, transferências financeiras, agendas e encontros ocorridos durante aqueles meses.

