A morte do professor Francisco de Assis de Souza Filho, aos 59 anos, nesta quarta-feira (25), representa uma perda profunda para a ciência brasileira e para o Ceará, especialmente em um campo que define o próprio destino do estado: a água. A informação foi divulgada inicialmente pelo Diário do Nordeste, que destacou o papel central do pesquisador na formulação de políticas hídricas estratégicas para o semiárido.
Docente do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Universidade Federal do Ceará, Assis enfrentava há cerca de seis anos um câncer raro. Ele morreu em São Paulo, onde realizava tratamento médico, após agravamento do quadro clínico.
Ao longo da carreira, construiu um legado que vai além da academia. Seu trabalho ajudou a transformar a maneira como o Ceará e o Nordeste lidam com a escassez hídrica, especialmente por meio de modelos de planejamento capazes de antecipar cenários climáticos e organizar o uso da água de forma mais eficiente. Entre suas contribuições mais reconhecidas está a formulação de estratégias que tratam a incerteza climática como elemento central do planejamento, com impacto direto sobre os reservatórios do estado.
Assis de Souza Filho foi também uma figura de articulação institucional. Presidiu a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos entre 2001 e 2006 e a Associação Brasileira de Recursos Hídricos entre 2008 e 2009. Atuou ainda como cientista-chefe na área de recursos hídricos da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, consolidando-se como uma referência nacional no tema.
Sua trajetória combinava rigor técnico e compromisso público. Ainda jovem, liderou o movimento estudantil na UFC e, ao longo da vida, manteve uma atuação voltada para o interesse coletivo, formando gerações de pesquisadores e influenciando políticas públicas em todo o país.
A repercussão de sua morte mobilizou instituições em todo o Brasil. Em nota oficial, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico destacou o papel do professor na construção de conhecimento aplicado à gestão hídrica e ressaltou sua “excelência técnica” e “compromisso com o interesse público”. A entidade também enfatizou sua contribuição para a formação de profissionais e para o aprimoramento das políticas de água no país.
Antes da morte, a luta contra a doença já havia mobilizado colegas, alunos e parte da sociedade cearense. O portal Atitude Popular participou dessa mobilização ao divulgar o apelo por apoio ao tratamento de alto custo enfrentado pelo professor, transformando a trajetória científica também em uma história de solidariedade coletiva.
Assis deixa não apenas uma produção acadêmica extensa, mas um modo de pensar o semiárido como território de inteligência e planejamento, e não apenas de escassez. Em um estado onde a água sempre foi disputa, limite e sobrevivência, ele ajudou a transformá-la também em política pública, ciência e futuro.












