Feriado que marca abolição pioneira no estado coincide com decisão internacional e discurso de Lula sobre desigualdade histórica
O 25 de março de 2026 ganhou um peso simbólico incomum. No mesmo dia em que o Ceará celebra a Data Magna, marco da abolição da escravidão em 1884, a Organização das Nações Unidas classificou a escravidão como o maior crime contra a humanidade. A coincidência entre o reconhecimento internacional e a memória local recoloca o passado no centro do debate político contemporâneo.
A resolução aprovada pela Organização das Nações Unidas afirma que o tráfico transatlântico de africanos não foi apenas um episódio histórico, mas um sistema estruturante de desigualdades que ainda moldam o mundo atual. O texto também reforça discussões sobre reparação e justiça histórica.
No Ceará, a Data Magna lembra que o estado aboliu a escravidão quatro anos antes da Lei Áurea, tornando-se a primeira província brasileira a formalizar a libertação. O feito, frequentemente celebrado, contrasta com a ausência de políticas que garantissem inclusão social à população negra libertada, que permaneceu à margem da sociedade.
Essa mesma contradição apareceu no discurso do presidente Lula durante a inauguração de novas áreas do Hospital Universitário de São Carlos, em São Paulo, também no dia 25. Ao falar sobre políticas públicas, Lula retomou a ideia de que o país ainda carrega os efeitos de séculos de exclusão.
“Sabe por uma coisa que a gente tem que aprender muito cedo? É que a nossa cabeça pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam”, afirmou. Para ele, governar exige olhar prioritariamente para quem ficou historicamente à margem. O presidente citou políticas como o ProUni e as cotas raciais, destacando a resistência enfrentada à época. Segundo Lula, não se tratava de privilegiar grupos, mas de corrigir distorções produzidas por mais de três séculos de escravidão. “A ideia era dar oportunidade a pessoas que foram execradas durante 350 anos nesse país”, disse.
Ao mencionar a criação de universidades como a UNILAB e a UNILA, Lula ampliou o argumento para além das fronteiras nacionais, defendendo a construção de uma consciência latino-americana e a superação de heranças coloniais. “Quando a gente é colonizado, é muito difícil ser descolonizado, porque a cultura tá impregnada no nosso cérebro”, afirmou.
A fala dialoga diretamente com o reconhecimento feito pela Organização das Nações Unidas. Se a escravidão é agora classificada como o maior crime contra a humanidade, suas consequências deixam de ser tratadas como herança distante e passam a exigir respostas concretas no presente.
A sobreposição entre a Data Magna do Ceará, a decisão internacional e o discurso presidencial revela um mesmo eixo. A história da escravidão não terminou com a abolição formal. Ela segue operando nas desigualdades, nas resistências políticas e nas disputas por memória.
Assim, o 25 de março deixa se transforma em um ponto de convergência entre passado e presente, um lembrete de que reparar o que foi construído ao longo de séculos ainda é uma tarefa em aberto.












