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MP suspeita de uso de dinheiro público para bancar filme sobre Bolsonaro e investigação aprofunda crise em torno de Dark Horse

Da Redação

A investigação envolvendo a cinebiografia Dark Horse, produção internacional que busca retratar Jair Bolsonaro como uma liderança política heroica, entrou em uma nova fase após o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil passarem a trabalhar com a suspeita de que recursos públicos possam ter sido utilizados de forma indireta para financiar o longa-metragem. A apuração gira em torno de um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização comandada por Karina Ferreira da Gama, que também controla a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme.

A suspeita transformou uma polêmica cinematográfica em um caso de potencial repercussão política, administrativa e judicial. Nesta segunda-feira, a Polícia Civil deflagrou a chamada Operação Wi-Fi, cumprindo mandados de busca e apreensão para investigar possíveis irregularidades no contrato firmado entre o município e o Instituto Conhecer Brasil. O foco principal da apuração é verificar se houve superfaturamento, pagamentos indevidos, descumprimento de metas e eventual desvio de recursos públicos para finalidades diferentes das previstas originalmente no contrato.

Segundo os investigadores, o Instituto Conhecer Brasil foi contratado para instalar e manter milhares de pontos de internet gratuita em comunidades periféricas da capital paulista. O problema é que a investigação afirma ter identificado uma série de inconsistências desde a própria origem do processo de contratação.

De acordo com a Polícia Civil, apenas uma entidade participou do chamamento público que resultou na contratação. Além disso, a ONG não possuía histórico técnico compatível com a execução de um projeto de infraestrutura digital dessa magnitude. O histórico institucional do ICB estaria ligado principalmente à realização de feiras literárias, eventos culturais e iniciativas de caráter religioso, sem experiência comprovada em grandes projetos de conectividade pública.

Outro elemento considerado sensível pela investigação envolve os valores contratados. A Polícia Civil afirma que o instituto teria cobrado aproximadamente 230% acima dos parâmetros utilizados por estruturas públicas já existentes no município. Segundo os investigadores, enquanto a Prodam, empresa municipal de tecnologia, operava com custos muito inferiores, o contrato firmado com o ICB previa pagamentos significativamente maiores por cada ponto de acesso instalado. Para os responsáveis pela investigação, a diferença pode indicar possível superfaturamento.

As suspeitas aumentaram ainda mais após auditorias preliminares apontarem dificuldades na execução do projeto. O cronograma previa a instalação de cerca de 5 mil pontos de Wi-Fi até meados de 2025, mas as vistorias realizadas pela polícia indicaram que uma parcela significativa das metas não teria sido cumprida dentro dos prazos estabelecidos. Investigadores também analisam pagamentos realizados antes da comprovação integral da entrega dos serviços contratados.

Foi justamente nesse contexto que surgiu a ligação direta com Dark Horse.

Karina Ferreira da Gama ocupa posição central tanto no Instituto Conhecer Brasil quanto na Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A coincidência levou Ministério Público e Polícia Civil a investigarem a hipótese de financiamento cruzado, ou seja, a possibilidade de que recursos públicos recebidos pela ONG tenham sido desviados ilegalmente para financiar a produção audiovisual. Até o momento, não existe conclusão definitiva sobre a existência desse desvio, mas essa é uma das principais linhas investigativas atualmente em andamento.

O custo estimado do filme varia entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões, segundo informações reunidas pela investigação. A Polícia Civil busca agora rastrear movimentações financeiras, contratos e transferências que possam esclarecer a origem dos recursos utilizados na produção.

A crise ganhou dimensão ainda maior porque Dark Horse já vinha acumulando controvérsias antes mesmo da investigação atual.

O longa é estrelado pelo ator norte-americano Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em A Paixão de Cristo, e apresenta Bolsonaro como protagonista de uma narrativa política voltada ao público internacional. O roteiro foi escrito por Mário Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, e a produção conta com forte participação de figuras ligadas ao bolsonarismo.

Além das controvérsias ideológicas, a produção também enfrentou denúncias trabalhistas. Figurantes relataram atrasos de pagamento, restrições abusivas durante as filmagens, condições consideradas degradantes e episódios de constrangimento nos bastidores. As denúncias chegaram ao Sindicato dos Artistas de São Paulo e ao Ministério do Trabalho.

Paralelamente, reportagens recentes também revelaram tentativas de captação milionária para financiar o projeto. Mensagens divulgadas pela imprensa apontaram articulações envolvendo aliados do bolsonarismo e operadores financeiros para obtenção de recursos destinados ao longa.

Agora, com a entrada formal do Ministério Público e da Polícia Civil no caso, o debate deixa de ser apenas político ou cultural e passa a envolver uma questão central para qualquer democracia: a correta utilização dos recursos públicos.

A Prefeitura de São Paulo afirma que está colaborando integralmente com as investigações e sustenta que o contrato seguiu os procedimentos legais previstos pela administração pública. A gestão municipal nega irregularidades e afirma que todos os documentos estão disponíveis para análise das autoridades responsáveis pela apuração.

Já os investigadores argumentam que a investigação precisa avançar para esclarecer se houve falhas na contratação, sobrepreço, descumprimento contratual ou eventual utilização indevida de dinheiro público.

O caso também reacende uma discussão histórica da política brasileira: a relação entre estruturas privadas, contratos públicos, organizações sociais e projetos ideológicos financiados direta ou indiretamente por recursos estatais.

Independentemente do resultado final das investigações, o episódio já produziu um enorme desgaste político porque conecta três elementos altamente sensíveis ao debate público contemporâneo: dinheiro público, estruturas de poder e um projeto audiovisual criado para reabilitar internacionalmente a imagem de Jair Bolsonaro.

E é justamente essa combinação que faz com que Dark Horse deixe de ser apenas um filme e passe a ocupar espaço central em uma das investigações mais delicadas da política paulista neste momento.