Atitude Popular

“Não adianta só fazer campanha, tem que criar políticas sérias”


Em entrevista ao Democracia no Ar, Adriana Almeida defende ações estruturais contra a violência de gênero, fortalecimento da educação pública e mais presença das mulheres nos espaços de poder em Fortaleza

Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, a vereadora de Fortaleza Adriana Almeida (PT-CE) defendeu que o enfrentamento à violência contra as mulheres não pode se limitar a campanhas institucionais e datas simbólicas. Presidenta da Comissão de Educação e Procuradora Especial da Mulher da Câmara Municipal de Fortaleza, a parlamentar sustentou que a proteção real exige políticas públicas permanentes, estrutura de acolhimento e independência econômica para as mulheres. O debate ocorreu em sintonia com reflexões recentes do campo progressista internacional, como a carta da Conferência Internacional Antifascista publicada pelo portal Outras Palavras, que propõe unidade contra as violências autoritárias e a ofensiva ultraconservadora no mundo.

Mulher negra, professora, mãe e feminista, Adriana levou ao centro da conversa uma constatação incômoda para quem ainda projeta sobre o Ceará uma imagem homogênea de progressismo. Ao comentar a realidade política local, ela reconheceu que Fortaleza e o estado convivem com estruturas conservadoras profundas, inclusive no interior das instituições. Sua presença em postos estratégicos da Câmara, nesse sentido, não é apenas representativa, mas parte de uma disputa concreta por espaço, por voz e por prioridade política.

A vereadora lembrou que a Procuradoria Especial da Mulher da Câmara Municipal de Fortaleza só foi criada em 2023, o que evidencia o atraso institucional diante de uma realidade marcada historicamente pela violência de gênero. Mais do que isso, destacou que, até recentemente, o órgão sequer era comandado por uma parlamentar. A mudança na legislação para garantir que a procuradora seja uma vereadora representa, segundo ela, um avanço importante, ao vincular o trabalho institucional ao fortalecimento político das mulheres eleitas.

Ao explicar o alcance da Procuradoria, Adriana deixou claro que o problema é mais amplo do que a violência doméstica. “A procuradoria tem um papel de acolhimento às mulheres vítimas de violência, orientação e acompanhamento, mas também tem como função apoiar, proteger e fortalecer os mandatos das nossas parlamentares”, afirmou. A atuação inclui também o enfrentamento à violência política de gênero, uma dimensão ainda pouco debatida, mas crescente no país.

A entrevista recuperou um dado histórico incontornável. O Ceará abriga a memória de Maria da Penha, cuja luta deu origem a uma das legislações mais importantes do Brasil no combate à violência doméstica. Ao mesmo tempo, Adriana destacou que esse legado não pode ser romantizado, já que nasce de uma experiência extrema de violência. A permanência de altos índices de agressões contra mulheres mostra que a lei, embora fundamental, não é suficiente por si só.

A discussão levantada pela vereadora dialoga diretamente com movimentos políticos recentes no estado. Reportagem da Atitude Popular sobre a homenagem à deputada federal Luizianne Lins na Assembleia Legislativa do Ceará mostrou que o evento, além de reconhecer sua trajetória, evidenciou disputas políticas e reforçou a centralidade da agenda de enfrentamento ao feminicídio. A iniciativa também marcou o lançamento de um pacto estadual envolvendo diferentes poderes, sinalizando que o tema se consolida como eixo estratégico tanto de políticas públicas quanto de embates no campo progressista cearense.

Nesse contexto, Adriana foi direta ao apontar os limites das ações superficiais. “Não adianta só fazer campanha, campanha, tem que criar políticas sérias.” Para ela, o enfrentamento à violência exige garantir condições materiais para que as mulheres rompam ciclos de abuso. Isso passa por creches, escolas em tempo integral, acesso ao emprego, acolhimento institucional e autonomia financeira.

A vereadora destacou que a dependência econômica ainda é um dos principais fatores que mantêm mulheres em relações violentas. Sem renda própria e sem rede de apoio, muitas não conseguem sair de situações de risco. “A dependência econômica, financeira da mulher em relação ao homem gera mais violência”, afirmou, defendendo políticas que assegurem inserção no mercado de trabalho e proteção social.

Adriana também abordou a sub-representação feminina na política. Embora as mulheres sejam maioria da população brasileira, ocupam uma parcela muito pequena dos espaços de poder. Em Fortaleza, são apenas nove vereadoras entre 43 parlamentares. Para ela, a luta não é por ocupar o espaço dos homens, mas por garantir o direito de participação proporcional e efetiva.

Outro eixo central da entrevista foi a necessidade de envolver os homens no enfrentamento à violência de gênero. A parlamentar defendeu que essa responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre as mulheres. Segundo ela, é preciso disputar valores desde cedo, sobretudo entre jovens, diante da disseminação de discursos misóginos nas redes sociais.

A Procuradoria, nesse sentido, tem promovido rodas de conversa em escolas, universidades e comunidades, além de atividades voltadas especificamente para meninos e jovens. A estratégia busca enfrentar a raiz cultural da violência, dialogando antes que o comportamento agressivo se consolide.

A vereadora também apontou iniciativas institucionais em Fortaleza, como a criação da Secretaria das Mulheres, agora com orçamento próprio, e a articulação entre diferentes órgãos públicos para fortalecer políticas de proteção. Para ela, sem estrutura e investimento, a pauta corre o risco de se tornar apenas retórica.

Ao ampliar o debate, Adriana relacionou a violência de gênero a questões sociais mais profundas, como o abandono parental e a sobrecarga das mulheres na organização da vida familiar. Segundo ela, enfrentar o problema exige repensar o papel do Estado e construir políticas que garantam dignidade, autonomia e proteção.

Ao final da entrevista, a vereadora reforçou o caráter coletivo dessa luta. A Procuradoria Especial da Mulher da Câmara Municipal de Fortaleza, informou, funciona de segunda a sexta, com atendimento jurídico e psicossocial, mas depende também da mobilização social para ampliar seu alcance. “Essa luta é de todas e todos nós”, concluiu.

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