“Não basta fazer a nossa parte, a gente tem que fazer de cada parte uma parte de um todo”

Seminário reúne pesquisadores, educadores populares e militantes para defender uma teoria da economia solidária construída a partir da prática coletiva, da autogestão e da transformação social

O I Seminário por uma Teoria para a Economia Solidária reuniu pesquisadores, educadores, militantes e articuladores de experiências populares de diferentes regiões do Brasil e da América Latina em um amplo debate sobre os caminhos teóricos, políticos e organizativos da economia solidária. A atividade foi promovida pela ESOL-PA, Escola Estadual de Economia Solidária do Pará, com apoio da Universidade da Amazônia, da Universidad del Buen Vivir, da Campaña por un Currículum Global de la Economía Social Solidaria e da SER.

Transmitido pela TV Andurinha, Rádio Amazônia Sonora e pela TV Atitude Popular, o encontro contou com participações de nomes históricos da educação popular, da economia solidária e da crítica ao capitalismo contemporâneo, como Miguel González Arroyo, Euclides André Mance, Lia Tiriba, Renato Dagnino e Delso Oliveira.

A abertura foi conduzida por João Arroyo, articulador da ESOL-PA, que destacou o caráter militante da iniciativa e a necessidade de transformar experiências isoladas em um projeto articulado de sociedade. “Não basta fazer a nossa parte, a gente tem que fazer de cada parte uma parte de um todo”, afirmou durante a transmissão.

Arroyo defendeu que a economia solidária precisa avançar para além da fragmentação organizativa e construir referências comuns capazes de enfrentar as desigualdades estruturais do capitalismo. Segundo ele, experiências de autogestão, bancos comunitários, cooperativas e iniciativas populares acumulam décadas de prática, mas ainda carecem de maior articulação política e teórica. “Ou a abolição vem do seio da sociedade ou ela não virá”, disse, relacionando simbolicamente o seminário ao 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea.

O debate também enfatizou a importância da construção do conhecimento a partir da experiência concreta dos territórios. Representando a Universidad Cooperativa del Buen Vivir, a argentina Cláudia Álvares afirmou que grande parte da teoria da economia solidária ainda não foi sistematizada porque os sujeitos que constroem práticas comunitárias, agroecológicas e cooperativas “têm pouco espaço para a produção de um marco teórico”.

Ao longo da atividade, a defesa de uma “teoria viva” apareceu como eixo comum entre diferentes intervenções. Delso Oliveira, militante histórico da economia solidária e ligado às experiências de agricultura familiar e desenvolvimento local no Nordeste, argumentou que a reflexão crítica não pode ficar restrita ao ambiente acadêmico. Inspirado em Antonio Gramsci e Paulo Freire, ele afirmou que “todo ser humano é capaz de produzir pensamento, visão de mundo e elaboração teórica”.

Delso apresentou ainda uma leitura do mercado como espaço de disputa política e de luta de classes. Segundo ele, a economia solidária não pode ser compreendida apenas como alternativa econômica localizada, mas como parte de um projeto de sociedade em disputa com o capitalismo. “O mercado é o palco da luta de classe”, resumiu.

Na exposição de Euclides André Mance, a discussão avançou para uma formulação mais ampla sobre circuitos econômicos solidários e libertação econômica. Mance retomou o conceito de “bem viver” como categoria filosófica de transformação social, vinculada à superação das relações de exploração e à construção de uma economia baseada na reciprocidade, na autogestão e no compartilhamento dos meios econômicos.

Segundo o filósofo, a economia solidária precisa construir seus próprios circuitos de produção, circulação, crédito e consumo, reduzindo a dependência estrutural do capital. Ele argumentou que grande parte do valor produzido em empreendimentos solidários acaba sendo apropriada pelo mercado capitalista por meio das cadeias comerciais e financeiras tradicionais. “Os valores produzidos na economia solidária são acumulados no circuito do capital”, afirmou.

Mance também relacionou a atual crise do capitalismo ao avanço da automação, da inteligência artificial e da robótica, que reduzem empregos, salários e capacidade de consumo. Para ele, a economia solidária precisa incorporar tecnologias de forma socialmente orientada, transformando ganhos produtivos em ampliação das liberdades coletivas e não em concentração de riqueza.

Já Lia Tiriba iniciou sua participação destacando a necessidade de valorizar os saberes produzidos pelas experiências populares de trabalho associado e autogestão. Professora da Universidade Federal Fluminense, Tiriba defendeu que a economia solidária precisa reconhecer os conhecimentos construídos fora dos marcos tradicionais da ciência econômica.

Ao final do encontro, os organizadores anunciaram a produção de um e-book coletivo com reflexões, textos e contribuições enviadas por pesquisadores, militantes e empreendedores populares. Também foi confirmada a articulação de uma segunda edição do seminário, com maior participação internacional e aprofundamento dos debates sobre teoria, prática e organização da economia solidária.

A transmissão completa do seminário está disponível no YouTube:

Referências

  • Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire
  • A revolução das redes, de Euclides André Mance
  • Economia de libertação, de Euclides André Mance
  • O capital e Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx
  • Filosofia da libertação, de Enrique Dussel
  • Conocimiento y poder popular, de Orlando Fals Borda
compartilhe: