Atitude Popular

“Não basta ter razão, tem que demonstrar que tem razão”

Professor Osmar de Sá Ponte analisa o avanço da instabilidade política, o impacto das investigações sobre o centrão e a disputa de narrativas que pode influenciar o rumo da democracia brasileira

Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o professor Osmar de Sá Ponte analisou o ambiente de tensão política que se intensificou com as investigações em torno de Vorcaro, os efeitos desse processo sobre o centrão e a forma como o nome de Fábio Luís Lula da Silva voltou ao centro de uma disputa pública marcada por vazamentos, suspeitas e guerra de narrativas.

Ao longo da conversa com Sara Goes, o professor sustentou que o Brasil atravessa um momento decisivo, em que crises judiciais, disputas institucionais, pressões midiáticas e rearranjos no Congresso se combinam para produzir um cenário de instabilidade. Para ele, o risco maior não está apenas nos fatos em investigação, mas na erosão da confiança pública e no avanço de uma percepção de que “todos são iguais”, ambiente que, segundo sua leitura, favorece justamente os setores mais comprometidos com a manipulação política.

Logo no início da entrevista, Osmar de Sá Ponte classificou o período como um dos mais delicados da história recente do país. Na sua avaliação, mesmo após a vitória de Lula e o afastamento imediato do bolsonarismo do Planalto, nunca houve razão para subestimar a capacidade de articulação das elites políticas e econômicas contra um projeto de centro democrático aliado à esquerda. “Nós estamos passando por um momento absolutamente crucial da nossa história”, afirmou.

Segundo ele, a democracia brasileira entrou em uma nova prova de resistência. O professor argumentou que não basta a convicção íntima de que determinado campo político tem razão: é preciso demonstrá-la de forma pública, compreensível e persuasiva. Daí a frase que sintetiza um dos eixos centrais de sua análise: “Não basta ter razão, tem que demonstrar que tem razão, tem que provar para a população”.

Essa formulação apareceu no contexto da discussão sobre a situação de Fábio Luís, filho do presidente Lula. Durante o programa, foi debatida a maneira como o nome dele voltou a ser lançado no debate público em meio ao caso do INSS, mesmo sem apresentação de provas que o ligassem às irregularidades. Osmar destacou que a posição de Lula, ao sustentar que qualquer pessoa próxima a ele deve responder por seus atos caso tenha cometido irregularidades, preserva um princípio essencial: a separação entre vínculos pessoais e responsabilidade pública.

Para o professor, essa distinção é fundamental não apenas como postura ética, mas como necessidade política. Ele defendeu que qualquer pessoa do entorno do governo, da esquerda ou do campo democrático que tenha participado de esquemas ilícitos deve ser afastada com clareza, justamente para impedir que a defesa do projeto democrático se confunda com blindagem moral ou corporativa. “A autoridade moral é fundamental para quem quer ter autoridade política”, resumiu.

Osmar também criticou duramente o silêncio de setores organizados da política diante de escândalos que atingem estruturas de representação social e institucional. Ao comentar o caso do INSS, afirmou que o movimento sindical deveria ter se manifestado com mais vigor. Para ele, a omissão transmite à sociedade uma mensagem desastrosa num momento em que o descrédito nas instituições já é alto. “Esse silêncio, para mim, ele é ensurdecedor. Esse silêncio, ele é um grito no meu ouvido”, declarou.

A entrevista avançou então para um terreno mais amplo: o da disputa simbólica. Na avaliação do professor, o país vive uma fase em que a narrativa frequentemente pesa mais do que o fato, sobretudo nas redes sociais e na comunicação política digital. Nesse ambiente, disse ele, esquerda e extrema direita falam muitas vezes para suas próprias bolhas, enquanto um contingente decisivo do eleitorado permanece em disputa. É esse segmento, calculado por ele entre 10% e 15% da população, que pode decidir eleições e reconfigurar a correlação de forças.

Por isso, Osmar argumenta que não é suficiente produzir conteúdos eficazes apenas para os já convencidos. A construção da narrativa democrática, segundo ele, precisa dialogar com quem está no meio, com quem desconfia de todos os lados e se move menos pela coerência programática do que pela percepção de risco. “O argumento tem que ser muito bem construído, fora das duas bolhas”, disse. Em seguida, reforçou: “Não é simplesmente a racionalidade. As discussões não são racionais”.

Na leitura do professor, esse é justamente o ponto em que a extrema direita opera com maior desenvoltura: a produção de um ambiente de confusão moral generalizada. Quando a sociedade passa a acreditar que toda política é igual, que toda instituição está corrompida e que toda denúncia é apenas parte de uma briga de versões, quem ganha terreno são os que vivem da mentira organizada. “Essa confusão de narrativa favorece os responsáveis, os culpados, os criminosos”, alertou.

Osmar associou esse cenário às suspeitas que hoje recaem sobre diferentes polos do poder, do Congresso ao Supremo Tribunal Federal. Sem ignorar a gravidade de comportamentos impróprios ou suspeitos, ele advertiu que a generalização do descrédito pode deslegitimar justamente os instrumentos que ainda sustentam a ordem democrática. Para ele, o Brasil corre o risco de ver sua transição para uma política mais transparente ser atropelada pela desesperança. “Hoje, o grande fator que nos amedronta é a desesperança”, afirmou.

A entrevista também tratou da conjuntura internacional e de seus reflexos sobre o Brasil. Nessa parte da conversa, o professor ampliou o foco e situou a crise brasileira dentro de um tabuleiro global marcado pelo enfraquecimento das normas democráticas, pelo avanço da extrema direita e pela agressividade crescente dos Estados Unidos sob Donald Trump. Em sua visão, o país não pode analisar seus conflitos internos como se estivessem isolados da disputa geopolítica mais ampla.

Ao comentar os movimentos dos EUA no cenário mundial, Osmar foi enfático ao afirmar que o Brasil não deve subestimar sua vulnerabilidade estratégica. Para ele, o país se tornou central tanto por sua capacidade produtiva quanto por suas reservas de recursos naturais e minerais estratégicos. “O Brasil é estratégico”, afirmou, ao defender que a soberania nacional volte a ocupar o centro da agenda pública democrática.

Nessa linha, sustentou que a sociedade civil precisa assumir um papel mais ativo na defesa da democracia e da autonomia brasileira. Em vez de deixar o discurso patriótico monopolizado pela extrema direita, ele propôs que os setores democráticos assumam a tarefa de vincular soberania, participação popular e defesa das instituições. “A sociedade civil tem que construir essa narrativa, tem que buscar essa defesa da democracia e da soberania nacional”, disse.

Outro ponto forte da entrevista foi sua crítica ao modo como a extrema direita opera com a realidade. Segundo o professor, o fascismo contemporâneo trata a verdade como produto maleável, moldado por repetição e saturação. Nessa lógica, os fatos objetivos importam menos do que a capacidade de uma mentira se fixar emocionalmente no imaginário coletivo. “A realidade para um fascista é uma questão de narrativa”, resumiu.

Essa observação ajuda a compreender o encadeamento central da análise feita por Osmar de Sá Ponte: as investigações envolvendo Vorcaro, o medo de delações, a ansiedade do centrão, o uso político de suspeitas contra Fábio Luís, o desgaste institucional do Congresso e os tensionamentos em torno do STF não são episódios isolados. Eles se alimentam mutuamente numa conjuntura em que o objetivo de parte do sistema político não é apenas vencer adversários, mas dissolver referências de confiança pública.

Ao final, o professor insistiu que cada cidadão comprometido com a democracia precisa entender a gravidade do momento. Para ele, não se trata apenas de reagir a ataques pontuais, mas de participar da construção de um campo democrático capaz de convencer, mobilizar e oferecer horizonte histórico. “Cada um de nós faz a diferença”, disse, ao defender um esforço coletivo de reconstrução da legitimidade política.

A entrevista, assim, desenhou um retrato inquietante do país: um Brasil em que crises judiciais e disputas de poder se cruzam com medo, propaganda, interesses internacionais e colapso de referências éticas. Mas também apontou uma saída: enfrentar o tempo da confusão com transparência, firmeza moral e capacidade de diálogo com a sociedade real, para além das trincheiras digitais e das bolhas já convencidas.

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