Historiador analisa a Copa do Mundo de 2026 como palco de disputas políticas, denuncia a submissão da FIFA ao governo Trump e defende a retomada da camisa da seleção brasileira como símbolo democrático
Da Redação
A Copa do Mundo de 2026 extrapola os limites do esporte e expõe disputas políticas, econômicas e geopolíticas que atravessam o futebol contemporâneo. Essa foi a avaliação do historiador *Evaldo Lima, convidado do programa *Café com Democracia, da TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas. Ao longo da entrevista, o professor analisou os principais acontecimentos do torneio, discutiu o papel da FIFA, criticou a influência do governo Donald Trump sobre a competição e defendeu que a camisa da seleção brasileira seja recuperada como patrimônio cultural de todos os brasileiros.
Apaixonado por futebol e estudioso da relação entre esporte e sociedade, Evaldo sustentou que a Copa de 2026 ficará marcada tanto pela qualidade técnica quanto pelas contradições políticas. Para ele, o torneio revelou como interesses econômicos e decisões de governos interferem diretamente no maior evento esportivo do planeta.
“Não dá para entregar a amarelinha nas mãos de golpistas. É necessário deixar claro que a camisa amarela pertence ao povo brasileiro, deve voltar a representar democracia, futebol e alegria.”
Uma Copa marcada por recordes e contradições
Segundo o historiador, a edição de 2026 representa uma mudança histórica no formato do Mundial. Pela primeira vez, a competição reúne 48 seleções, é organizada por três países e alcança um número recorde de partidas.
Na avaliação de Evaldo, o novo modelo ampliou o espaço para seleções tradicionalmente fora do centro do futebol mundial, permitindo campanhas expressivas de equipes como Cabo Verde, Egito e República Democrática do Congo. Ao mesmo tempo, observou que a expansão também atende aos interesses financeiros da FIFA.
“O aumento do número de seleções democratiza o acesso, mas também amplia receitas com direitos de transmissão, publicidade e exploração comercial”, afirmou.
Futebol e política nunca estiveram separados
Durante toda a entrevista, o professor rejeitou a ideia de que o futebol possa ser compreendido apenas como entretenimento.
Segundo ele, o esporte sempre esteve ligado às disputas de poder, ao colonialismo, ao racismo, às migrações, às identidades nacionais e aos projetos políticos.
Como exemplos históricos, lembrou a Copa de 1934, marcada pelo fascismo italiano de Benito Mussolini, a exclusão de jogadores negros da seleção brasileira nas primeiras Copas, a apropriação da conquista de 1970 pela ditadura militar e, agora, o protagonismo político assumido pelo governo norte-americano durante o Mundial.
“Futebol não se entende apenas pelo placar. Envolve identidade, colonialismo, migrações, racismo, paixões, dinheiro e relações de poder.”
A “Copa do Trump”
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica ao papel desempenhado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a competição.
Evaldo afirmou que Trump ultrapassou o papel institucional de chefe de Estado do principal país-sede e passou a interferir diretamente em episódios ligados ao torneio.
Segundo ele, a atuação do presidente da FIFA, Gianni Infantino, demonstrou submissão política diante da Casa Branca.
Entre os episódios citados estão a pressão exercida após a expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun, posteriormente liberado para atuar na partida seguinte, além das dificuldades enfrentadas por delegações e torcedores de diversos países.
Para o historiador, esses fatos comprometeram o discurso da FIFA de que o futebol seria um instrumento de integração entre os povos.
Restrições a países e denúncias de tratamento desigual
Evaldo também criticou o tratamento dado a algumas seleções durante a competição.
Segundo ele, torcedores de países africanos enfrentaram dificuldades para ingressar nos Estados Unidos, enquanto integrantes da delegação iraniana tiveram problemas com vistos, deslocamentos e permanência no país.
Na avaliação do professor, essas situações demonstram que nem todas as seleções foram submetidas às mesmas condições de participação.
“O tratamento destinado ao Irã foi indigno. Defender igualdade de regras não significa apoiar governos. Significa defender princípios internacionais.”
Palestina, racismo e liberdade de manifestação
Outro tema abordado foi a postura do técnico da seleção do Egito, que utilizou entrevistas para manifestar solidariedade ao povo palestino.
Evaldo destacou que gestos de combate ao racismo e de defesa dos direitos humanos frequentemente recebem tratamento diferente daquele destinado a manifestações nacionalistas ou militares.
Para ele, existe uma seletividade sobre quais manifestações políticas são consideradas aceitáveis dentro do futebol.
“O nacionalismo oficial e a publicidade militar são tratados como naturais. Já a solidariedade à Palestina ou o combate ao racismo passam a ser vistos como politização indevida.”
Rivalidades históricas não anulam a política
Durante o debate, Luiz Regadas questionou se a solidariedade aos argentinos que enfrentaram a ditadura militar justificaria uma torcida pela seleção do país vizinho.
Evaldo respondeu que reconhece a luta democrática travada na Argentina, mas considera que rivalidades históricas entre Brasil e Argentina permanecem presentes no futebol.
Ao mesmo tempo, ressaltou que isso não altera sua compreensão de que esporte e política são dimensões inseparáveis.
A campanha brasileira
Sobre o desempenho da seleção brasileira, Evaldo avaliou que a campanha ficou abaixo das expectativas.
Na opinião do historiador, Carlo Ancelotti não conseguiu transformar o potencial individual dos atletas em uma equipe competitiva e repetiu problemas observados nos últimos ciclos da seleção.
Ele também criticou a convocação de Neymar, argumentando que o atacante atravessa um longo período sem sequência como atleta de alto rendimento.
Histórias que marcaram a competição
Apesar das críticas ao contexto político da Copa, Evaldo destacou episódios que considera inspiradores.
Entre eles, citou o atacante norueguês Erling Haaland, que comprou um exemplar raro de uma importante obra da literatura norueguesa para doá-lo a uma biblioteca pública.
Também lembrou das ações solidárias de Sadio Mané em sua comunidade no Senegal e da decisão de Kylian Mbappé de destinar premiações obtidas com a seleção francesa a instituições beneficentes.
Para o historiador, essas iniciativas demonstram que o futebol continua produzindo referências positivas mesmo em meio às contradições do esporte profissional.
A disputa pela amarelinha
Encerrando a entrevista, Evaldo defendeu que os brasileiros recuperem o significado histórico da camisa da seleção nacional.
Ele recordou que, durante a campanha pelas Diretas Já, a camisa amarela foi utilizada como símbolo da luta democrática e afirmou que esse patrimônio não pode permanecer associado ao extremismo político.
“O futebol pertence ao povo brasileiro. A camisa da seleção também.”
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