Em debate no programa Trilhas da Soberania, Carmen Diniz relaciona a crise cubana ao cerco imposto pelos Estados Unidos e defende que a resistência da ilha é também uma chave para compreender os impasses da América Latina
A edição do programa Trilhas da Soberania exibida pelo Código Aberto, em parceria com a TV Atitude Popular e a Rede Lawfare Nunca Mais, colocou Cuba no centro de uma discussão estratégica sobre a América Latina. A convidada da noite foi Carmen Diniz, coordenadora do Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba, que analisou o agravamento da situação cubana diante do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e conectou a realidade da ilha aos dilemas mais amplos da soberania latino-americana.
Ao longo da conversa, Carmen insistiu num ponto que atravessou toda a entrevista e serviu de eixo para sua análise: “Não dá para falar de Cuba sem falar do bloqueio”. A frase sintetiza a crítica central da convidada à cobertura dominante sobre o país caribenho. Para ela, qualquer leitura sobre dificuldades econômicas, crise energética, escassez de alimentos ou colapso de insumos básicos em Cuba se torna distorcida quando ignora o cerco econômico, financeiro e comercial mantido há décadas por Washington.
Segundo Carmen, a situação atual da ilha é grave e afeta diretamente a vida cotidiana da população. A dirigente relatou que a crise elétrica se tornou um dos aspectos mais dramáticos do presente cubano, com impactos que vão muito além do desconforto doméstico. A falta de energia compromete o armazenamento de alimentos, a rotina das famílias, o funcionamento de serviços públicos e até procedimentos hospitalares. Em um dos momentos mais fortes da entrevista, ela descreveu a dimensão humana da crise ao lembrar que uma família que passa o dia inteiro sem luz precisa reorganizar toda a vida quando a energia retorna durante a noite.
Para a convidada, o sofrimento material do povo cubano não é resultado de uma suposta falência espontânea do país, como frequentemente sugere a propaganda anticomunista, mas de uma política deliberada de asfixia. Carmen citou o memorando Mallory, documento histórico dos Estados Unidos elaborado nos primeiros anos da Revolução Cubana, para sustentar que o objetivo do bloqueio sempre foi produzir escassez, descontentamento e revolta social capazes de desestabilizar o governo. Em sua interpretação, a lógica permanece a mesma até hoje: impedir que Cuba acesse petróleo, medicamentos, tecnologia, crédito e peças industriais, e depois usar os efeitos dessa sabotagem para apontar a ilha como exemplo de fracasso.
Durante o debate, ela detalhou como o bloqueio se expressa de forma concreta. Não se trata apenas da proibição de relações comerciais diretas com os Estados Unidos, mas de um mecanismo extraterritorial que pune empresas, bancos e governos de qualquer país que negociem com Cuba. Isso significa, na prática, que uma peça de reposição, um lote de remédios ou uma carga de combustível podem deixar de chegar à ilha por medo de sanções norte-americanas. Carmen lembrou inclusive que, durante a pandemia, Cuba enfrentou dificuldades para adquirir vacinas e outros insumos essenciais, sendo obrigada a desenvolver alternativas próprias em meio a uma conjuntura hostil.
A entrevistada também rebateu a narrativa que costuma reduzir Cuba a uma caricatura autoritária. Segundo ela, existe crítica interna ao governo, há reclamações da população e há tensões concretas, mas isso não se traduz automaticamente em adesão a uma mudança de regime ou à destruição das conquistas sociais da Revolução. Para Carmen, o povo cubano sabe o que está em disputa. Pode questionar decisões do Estado, mas não ignora o valor de um sistema em que saúde e educação seguem sendo direitos universais, e não mercadorias disponíveis apenas para quem pode pagar.
Nesse sentido, a coordenadora do Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba chamou atenção para um elemento que considera decisivo: o nível de consciência política e de formação social do povo cubano. Na sua avaliação, a resistência da ilha não se explica apenas por patriotismo ou tradição revolucionária, mas também por uma compreensão histórica do que o capitalismo ofereceria a Cuba em caso de restauração plena. Em sua fala, a alternativa à experiência socialista não seria prosperidade, mas submissão, turismo predatório, cassino, prostituição e reconfiguração do país como plataforma de exploração subordinada aos interesses estrangeiros.
Ao comentar o papel simbólico de Cuba, Carmen convergiu com a leitura apresentada pelos comentaristas do programa. Reynaldo Aragon ressaltou que a ilha ocupa um lugar singular no imaginário político do Sul Global, não apenas por sua história revolucionária, mas porque representa um ponto de resistência anticolonial em plena área de influência dos Estados Unidos. A sobrevivência de Cuba, mesmo sob pressão permanente, aparece assim como um desafio geopolítico e moral ao imperialismo. A queda da experiência cubana, sugeriu ele, teria consequências que ultrapassariam as fronteiras da ilha e reverberariam em todos os povos que lutam por autodeterminação.
Ludmila Cindra, por sua vez, destacou a dimensão humanitária do debate e apontou para a solidariedade entre os povos como resposta necessária ao cenário atual. Ao comentar a persistência cubana, associou a experiência da ilha a uma ética de cooperação que contrasta com a lógica de guerra, sanção e punição que organiza as relações internacionais sob hegemonia estadunidense.
Na entrevista, Carmen também tratou de um tema decisivo para o presente cubano: a soberania alimentar. Ela lembrou que o país possui experiências relevantes de agricultura urbana e agroecologia, inclusive com apoio de brigadas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ainda assim, afirmou que a produção de alimentos esbarra em gargalos severos, como falta de combustível, dificuldade de transporte, carência de fertilizantes, déficit habitacional no campo e êxodo de jovens qualificados para as cidades ou para fora do país. O resultado é que o problema da alimentação não decorre de ausência absoluta de terra ou de conhecimento técnico, mas de uma combinação entre bloqueio externo e obstáculos estruturais que dificultam a circulação e o abastecimento.
Outro ponto central abordado na conversa foi a crise energética. Carmen explicou que Cuba depende fortemente do petróleo para sustentar sua matriz elétrica, e que essa dependência tornou a ilha ainda mais vulnerável à sabotagem econômica. Ela reconheceu o apoio recebido de países como México, Rússia e China, mas ponderou que a ajuda internacional, embora importante, não é suficiente para suprir integralmente as necessidades de um país inteiro. Por isso, indicou que uma das apostas estratégicas cubanas está na ampliação de fontes alternativas, como energia solar e eólica. Mesmo com a chegada de novos equipamentos e parques fotovoltaicos, porém, a transição energética exige tempo, investimento e estabilidade, três elementos constantemente tensionados pelo bloqueio.
Em um dos trechos mais duros da entrevista, Carmen relatou a situação do sistema de saúde. Falou da fila de milhares de pessoas aguardando cirurgia, da escassez de medicamentos básicos e das condições extremas enfrentadas por profissionais da saúde. Segundo ela, há casos em que equipes médicas precisam concluir procedimentos com a iluminação de celulares quando a energia cai. A cena, além de dramática, desmonta qualquer banalização da crise: o bloqueio, afirmou, não é uma abstração diplomática, mas um mecanismo que produz sofrimento concreto, cotidiano e profundamente desumano.
A fala da convidada também situou Cuba dentro de uma conjuntura regional mais ampla. Para ela, a América Latina vive um novo ciclo de pressões, ingerências e ofensivas contra projetos soberanos. Nesse contexto, a ilha segue sendo alvo prioritário não apenas por seu tamanho ou por sua posição geográfica, mas pelo que representa. Cuba incomoda porque prova, em condições extremas, que um país pequeno pode recusar a submissão total e ainda assim manter de pé uma experiência social alternativa.
Ao fim da entrevista, Carmen reforçou a importância da solidariedade internacional prática, e não apenas discursiva. Citou campanhas de arrecadação voltadas ao envio de medicamentos e painéis solares, mencionou o trabalho de articulação entre movimentos sociais brasileiros e entidades de apoio a Cuba e defendeu que a ajuda ao povo cubano seja tratada como parte da própria luta latino-americana por soberania. Nesse ponto, a mensagem do programa foi clara: defender Cuba não é olhar para um problema distante, mas enfrentar, no presente, a engrenagem global que tenta sufocar qualquer projeto político que não se dobre aos centros de poder.
Mais do que uma conversa sobre um país específico, a edição de Trilhas da Soberania ofereceu uma chave de leitura sobre a própria crise do continente. Ao discutir bloqueio, energia, alimentos, saúde, imperialismo e resistência popular, o programa recolocou a questão cubana no seu devido lugar: não como exceção exótica a ser julgada pelos critérios da imprensa hegemônica, mas como parte de uma disputa histórica entre dominação e autodeterminação.
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