Da Redação
Senado dos Estados Unidos confirmou Daniel Perez para a embaixada em Brasília, mas o governo Lula mantém a decisão de analisar o agrément depois do pleito de outubro. Impasse se tornou mais uma frente da grave crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos.
A confirmação de Daniel Perez pelo Senado dos Estados Unidos nesta sexta-feira (7) não deverá acelerar sua chegada a Brasília. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém a intenção de analisar somente depois das eleições de outubro o pedido de agrément, autorização indispensável para que o indicado de Donald Trump possa assumir formalmente como embaixador norte-americano no Brasil.
A posição brasileira transforma a nomeação de Perez em mais um capítulo de uma crise que já ultrapassou os limites de uma divergência diplomática convencional. Segundo o Brasil 247, auxiliares de Lula avaliam que autorizar imediatamente a nomeação, depois das pressões exercidas por Washington, poderia ser interpretado como uma capitulação do governo brasileiro diante da Casa Branca.
A aprovação pelo Senado norte-americano resolve apenas a etapa interna dos Estados Unidos. Perez não pode exercer funções como embaixador em Brasília enquanto o Brasil não conceder formalmente o agrément. A prerrogativa de aceitar ou não um representante estrangeiro pertence ao Estado receptor e integra a prática diplomática internacional.
O ponto central da resistência brasileira está no momento político em que a indicação foi apresentada. O Brasil atravessa uma campanha presidencial polarizada e o governo Lula manifesta preocupação de que a presença de um representante identificado politicamente com Trump possa acrescentar um novo elemento de tensão ao processo eleitoral. A CNN Brasil informa que integrantes do governo temem inclusive possíveis tentativas de interferência no ambiente político brasileiro.
Perez não é diplomata de carreira. Republicano, filho de imigrantes cubanos e atual presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, construiu sua trajetória no ambiente político conservador do estado que se tornou um dos principais centros do trumpismo nos Estados Unidos. Seu perfil político e suas posições anticomunistas ganharam atenção especial no Brasil desde que Trump decidiu indicá-lo para o posto.
A escolha ocorre justamente quando as relações entre Brasília e Washington atravessam forte deterioração. O governo Trump já revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Washington apresentou a medida como resposta à demora brasileira em aceitar Perez e à negativa de vistos a dois diplomatas norte-americanos. O governo brasileiro, por sua vez, sustenta que está seguindo os procedimentos diplomáticos regulares e rejeita a tentativa de transformar o agrément em instrumento de pressão política.
Diplomatas ouvidos pela imprensa brasileira também questionaram a alegação de que Brasília estaria promovendo uma demora excepcional. Segundo a Folha de S.Paulo, pedidos de agrément podem levar meses para serem avaliados pelos próprios Estados Unidos, período superior ao tempo transcorrido desde a indicação de Perez.
O caso adquire dimensão ainda maior porque ocorre simultaneamente a conflitos comerciais, divergências sobre a política latino-americana e acusações brasileiras de interferência norte-americana em assuntos internos. O que seria normalmente um procedimento reservado entre chancelarias passou a integrar a disputa política entre os governos Lula e Trump.
Para o Brasil, adiar a decisão até depois das eleições significa retirar a nomeação do centro do processo eleitoral e preservar a autonomia brasileira para decidir sobre o representante estrangeiro sem responder a ultimatos externos. Para Washington, entretanto, a demora passou a ser tratada como sinal de deterioração das relações bilaterais.
Há ainda interesses econômicos consideráveis em jogo. Brasil e Estados Unidos possuem uma das relações comerciais e diplomáticas mais antigas do continente, envolvendo indústria, agricultura, energia, tecnologia, defesa, investimentos e cadeias produtivas estratégicas. A transformação de procedimentos diplomáticos em instrumentos de retaliação aumenta a instabilidade justamente quando o sistema internacional atravessa uma disputa cada vez mais intensa por mercados, recursos, tecnologia e influência política.
A questão Daniel Perez, portanto, deixou de ser simplesmente a escolha de um embaixador. Tornou-se parte de uma disputa mais ampla sobre os limites da pressão de Washington e a capacidade do Brasil de preservar sua soberania política diante dos Estados Unidos. Ao transferir a decisão para depois das urnas, o Planalto sinaliza que pretende separar a relação diplomática com Washington da escolha que caberá exclusivamente ao eleitor brasileiro em outubro.





