Atitude Popular

“Não é possível que estejamos gastando US$ 2,7 trilhões em guerra e nada para acabar com a fome no planeta”

Na abertura da Hannover Messe 2026, Presidente Lula apresentou o Brasil como potência verde e industrial, defendeu a paz, cobrou a reforma do multilateralismo e vinculou inovação tecnológica à geração de trabalho e soberania


Na abertura da Hannover Messe 2026, na Alemanha, o Presidente Lula combinou vitrine econômica, discurso geopolítico e crítica moral à ordem internacional. Em uma fala que costurou memória operária, neoindustrialização, transição energética, inteligência artificial, comércio exterior e denúncia das guerras, o presidente apresentou o Brasil como um país que quer voltar ao centro da indústria mundial sem abdicar da defesa da soberania, da inclusão social e do multilateralismo.

A fala foi transmitida pelo Canal GOV e publicada também pelo Palácio do Planalto no domingo, 19 de abril, data em que Lula participou da cerimônia de abertura da Hannover Messe, maior feira internacional de tecnologia industrial, cuja edição de 2026 tem o Brasil como país parceiro oficial. A própria organização do evento destaca o país como protagonista desta edição, com ênfase em sustentabilidade, inovação industrial e integração às cadeias globais de valor.

Ao longo do discurso, Lula procurou transformar a presença brasileira na feira em algo maior que uma agenda comercial. Em vez de limitar sua intervenção ao repertório protocolar de promoção de investimentos, usou o palco alemão para defender um novo paradigma de desenvolvimento, centrado em cooperação internacional, reindustrialização verde e combate às desigualdades. Em sua formulação, não há futuro tecnológico consistente em um mundo que aceita a fome, o deslocamento forçado e a guerra como normalidade.

Logo no início, Lula deu ao discurso uma chave autobiográfica e histórica. Recordou que, em 19 de abril de 1980, enquanto tecnologias brasileiras eram exibidas em Hannover, ele era preso por liderar uma greve no principal polo automobilístico da América Latina. Ao remeter à repressão sofrida ainda sob a ditadura, o presidente criou uma linha de continuidade entre o passado operário e a defesa atual de uma política industrial nacional. Não se tratava apenas de celebrar a volta do Brasil à feira, mas de simbolizar o retorno de um país que, em suas palavras, foi enfraquecido pela desindustrialização, pela reprimarização e pelos “dogmas do Estado mínimo”.

Essa foi uma das espinhas dorsais da fala. Lula apresentou a retomada da política industrial como resposta ao esvaziamento da capacidade estatal de planejar e investir. Ao dizer que o Brasil volta a Hannover como “potência verde, inovadora e integrada às cadeias globais de valor”, procurou associar a Nova Indústria Brasil a uma ideia de reconstrução nacional. A mensagem central era clara: o país quer deixar para trás a condição de mero exportador de produtos primários e disputar espaço em setores de maior valor agregado, articulando indústria 4.0, transição energética, ciência e tecnologia.

Nesse ponto, a presença brasileira na Hannover Messe não foi tratada como mera honraria diplomática. A feira, realizada de 20 a 24 de abril de 2026, reservou ao Brasil o papel de parceiro oficial, repetindo um protagonismo que o país só havia ocupado em 1980, quando a mostra iniciou essa tradição. A ApexBrasil informa que o Pavilhão Brasil reúne empresas, instituições e representantes do governo em uma área de 2.660 metros quadrados distribuída por seis halls, concebida para ampliar negócios, projetar a imagem do país e abrir novos mercados.

Mas o ponto de maior densidade política do pronunciamento veio quando Lula deslocou o eixo da fala para a crise global. Diante de uma plateia empresarial e tecnológica, ele rompeu a moldura estritamente econômica para denunciar o cenário internacional marcado por guerras, protecionismo e unilateralismo. Foi nesse momento que pronunciou uma das frases mais fortes do evento: “Não é possível que estejamos gastando 2 trilhões e 700 bilhões de dólares em guerra e nada para acabar com a fome no planeta.”

A declaração condensou o sentido mais amplo de sua participação em Hannover. Lula argumentou que a humanidade vive um paradoxo perverso: de um lado, acelera-se a sofisticação tecnológica, inclusive com inteligência artificial e automação avançada; de outro, multiplicam-se bombardeios, mortes de civis, deslocamentos forçados e insegurança alimentar. Em vez de saudar a tecnologia como valor em si, o presidente insistiu que desenvolvimento só merece esse nome quando se converte em melhoria material da vida humana.

Esse raciocínio reapareceu quando ele criticou a paralisia e a perda de legitimidade das instituições multilaterais. Ao afirmar que “um novo paradigma de desenvolvimento requer um multilateralismo justo e equilibrado”, Lula vinculou o presente da indústria mundial à crise de governança internacional. A fala incluiu uma cobrança direta ao Conselho de Segurança da ONU e aos seus membros permanentes, acusados de falhar justamente na missão para a qual o órgão foi criado: preservar a paz. Ao perguntar para que serve um conselho incapaz de deter a proliferação dos conflitos, o presidente transformou um discurso de abertura de feira industrial numa intervenção explícita sobre a ordem mundial.

Essa defesa do multilateralismo apareceu também no terreno comercial. Lula apresentou o acordo entre Mercosul e União Europeia como símbolo de uma escolha política pela cooperação, em contraste com o ressurgimento de respostas protecionistas. De acordo com a Comissão Europeia, os instrumentos do acordo foram assinados em 17 de janeiro de 2026. Já a Associated Press informou, em abril, que a entrada em vigor provisória foi anunciada para 1º de maio de 2026, conectando mais de 700 milhões de pessoas em uma das maiores áreas comerciais do planeta.

No discurso, Lula tratou esse movimento como oportunidade para mais comércio, mais investimento, mais empregos e maior estabilidade das cadeias de suprimento. Mas não o fez em termos subalternos. Ao defender maior integração produtiva com a Europa, insistiu que as regras do bloco reconheçam a especificidade da matriz energética brasileira, majoritariamente limpa, e rejeitem barreiras adicionais contra biocombustíveis. Sua posição foi a de quem tenta reposicionar o Brasil como parceiro estratégico e não como fornecedor periférico.

Foi nesse contexto que o presidente voltou à agenda ambiental e energética. Lula afirmou que o Brasil produz biocombustíveis de forma sustentável, sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas, e reiterou o compromisso de zerar o desmatamento na Amazônia até 2030. Também sustentou que o país reduziu fortemente o desmatamento nos últimos anos. Em paralelo, apresentou o Brasil como ator privilegiado da transição energética, destacando a alta participação de fontes limpas na matriz elétrica e o potencial nacional para produzir hidrogênio verde a baixo custo. A organização da Hannover Messe e a própria ApexBrasil têm enfatizado exatamente esses ativos brasileiros ao divulgar a participação do país como parceiro oficial da edição de 2026. (https://www.hannovermesse.de)de Lula, porém, não foi apenas ecológica. Ela foi industrial e soberanista. Ao falar de minerais críticos, o presidente fez questão de afirmar que o Brasil não repetirá o papel de simples exportador de commodities minerais. O recado foi direto: o país está aberto a parcerias internacionais, desde que incluam agregação de valor, transferência de tecnologia e inserção qualificada nas cadeias produtivas. Em outras palavras, a transição verde não pode servir de novo nome para velhas relações desiguais.

Essa mesma preocupação atravessou o trecho em que Lula abordou a inteligência artificial. Num dos momentos mais significativos da fala, ele advertiu que se fala muito sobre os impactos da IA, mas pouco sobre “uma pessoa chamada trabalhador”. A formulação, simples e potente, recolocou a questão social no centro da discussão tecnológica. Para o presidente, não basta celebrar ganhos de produtividade se eles vierem desacompanhados de proteção ao emprego, valorização do trabalho e direito a uma vida digna.

A passagem tem forte peso político porque confronta um imaginário tecnocrático cada vez mais comum em fóruns empresariais e governamentais. Em Hannover, Lula se recusou a tratar a IA como processo neutro. Ao contrário, afirmou que por trás de cada invenção existe um ser humano e que cabe aos dirigentes garantir que a tecnologia sirva à sociedade, e não o inverso. A modernização, nessa visão, precisa responder às perguntas mais antigas e mais concretas: quem trabalha, quem lucra, quem descansa, quem é descartado.

Não por acaso, ele conectou esse debate à defesa de uma reorganização do tempo de trabalho, mencionando o objetivo de assegurar ao trabalhador dois dias de descanso por semana para que possa usufruir dos ganhos de produtividade. A fala busca associar inovação com distribuição social de benefícios, e não apenas com eficiência empresarial. É um ponto importante porque revela que, para Lula, a reindustrialização não se sustenta apenas em investimentos e exportações, mas também em legitimidade social.

Ao listar realizações internas, o presidente procurou reforçar essa imagem de reconstrução em curso. Citou a retomada do crescimento acima da média mundial desde 2023, a queda do desemprego, o aumento da renda dos trabalhadores, a saída do Brasil do mapa da fome, os investimentos no setor industrial, o fortalecimento da ciência e o destaque do país no governo digital. Sobre este último ponto, o Banco Mundial registrou, na atualização de 2025 do GovTech Maturity Index, que o Brasil permaneceu entre os países da categoria mais alta e elevou sua pontuação para 0,986.

Lula também usou exemplos concretos para reforçar a narrativa de um Estado capaz de inovar. Mencionou o PIX como infraestrutura pública, gratuita e internacionalmente reconhecida de pagamento instantâneo, além de citar a capacidade científica instalada no país, como o Sirius e o futuro laboratório Orion. Esses exemplos não apareceram como adornos discursivos. Serviram para sustentar a tese de que o Brasil dispõe de base material e institucional para disputar o futuro tecnológico sem abrir mão da soberania.

Outro aspecto relevante foi a tentativa de redefinir a relação com a Alemanha e, por extensão, com a Europa. Lula insistiu que o Brasil está de “braços abertos” para discutir qualquer tema com os alemães, em especial inteligência artificial, data centers e minerais críticos. Ao mesmo tempo, delimitou o campo dessa aproximação: democracia, multilateralismo, integridade territorial e respeito à soberania dos povos. A mensagem foi cuidadosamente construída para combinar pragmatismo diplomático com sinalização política.

Na reta final, o tom voltou a subir. Sem citar diretamente todos os episódios recentes da política internacional, Lula criticou a ideia de que um presidente possa, “por e-mail ou por Twitter”, taxar produtos, punir países e fazer guerra. A frase foi recebida como uma crítica ao unilateralismo das grandes potências e à naturalização de decisões que afetam economias inteiras ao sabor de impulsos políticos. Numa feira voltada à indústria global, a advertência tinha endereço econômico e geopolítico: não há investimento estável, cadeia integrada ou inovação compartilhada em um ambiente de coerção permanente.

O discurso de Hannover, portanto, não foi uma simples peça promocional sobre o potencial industrial do Brasil. Foi uma tentativa de articular, no mesmo texto, o país que quer atrair investimentos e o país que quer disputar os rumos do mundo. Lula apresentou o Brasil como potência energética limpa, fornecedor estratégico de insumos e tecnologia, parceiro comercial relevante e ator diplomático interessado em paz, cooperação e reforma do multilateralismo.

Ao fazer isso, recolocou velhos temas da esquerda desenvolvimentista em diálogo com as urgências do século XXI: reindustrialização, soberania, emprego, integração regional, política externa ativa, crítica à guerra e regulação social da tecnologia. Em plena Hannover Messe, diante de empresários, cientistas e autoridades, Lula procurou dizer que o futuro não será decidido apenas por algoritmos, patentes e cadeias de suprimento, mas também pela capacidade de as sociedades imporem algum sentido humano ao desenvolvimento.

E foi justamente aí que sua fala se diferenciou do protocolo habitual. Em vez de celebrar a técnica como destino, o presidente insistiu em lembrar que a história continua aberta e que o problema central não é apenas o que a humanidade consegue produzir, mas para quê, para quem e sob quais valores produz.

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