Em Barcelona, líder brasileiro defende coerência do campo progressista, critica neoliberalismo e propõe mobilização internacional permanente contra a extrema direita
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da 1ª reunião da Mobilização Progressista Global, realizada em Barcelona, na Espanha, em um encontro que reuniu lideranças políticas e movimentos sociais de diversos países para discutir estratégias de enfrentamento à extrema direita e reconstrução da democracia. A iniciativa, organizada pelo governo espanhol liderado por Pedro Sánchez, marca um esforço internacional de articulação entre forças progressistas.
De acordo com informações do Partido dos Trabalhadores, o evento busca consolidar uma rede global comprometida com justiça social, multilateralismo e defesa das instituições democráticas em um cenário internacional marcado por conflitos, desigualdade e avanço de discursos autoritários.
Durante seu discurso, o presidente Lula fez uma das intervenções mais contundentes de sua trajetória recente, combinando crítica estrutural ao modelo econômico dominante com um chamado à ação permanente das forças progressistas. “O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda semana, todo mês e durante 365 dias por ano”, afirmou.
Crítica ao neoliberalismo e autocrítica da esquerda
Um dos pontos centrais da fala foi a crítica ao neoliberalismo e à forma como governos progressistas lidaram com esse modelo ao longo das últimas décadas. Lula foi direto ao apontar contradições internas do próprio campo político:
“Governos de esquerda ganham eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema.”
A partir dessa avaliação, o presidente defendeu que a coerência deve ser o princípio orientador das forças progressistas. “Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo”, disse.
Desigualdade como escolha política
Lula também destacou o papel da concentração de riqueza global e criticou o discurso da meritocracia. Para ele, a desigualdade não é um fenômeno natural, mas resultado de decisões políticas:
“Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir.”
O presidente associou esse cenário ao crescimento da extrema direita, que, segundo ele, soube capitalizar a frustração social gerada por promessas não cumpridas.
Democracia para além do voto
Em um dos trechos mais marcantes, Lula redefiniu o conceito de democracia a partir das condições concretas de vida da população:
“Não há democracia quando um pai não sabe de onde tirar o próximo prato de comida. Não há democracia quando alguém morre na fila do hospital. Não há democracia quando uma mãe não consegue dar um beijo de boa noite nos filhos.”
A fala reforça a ideia de que direitos sociais e econômicos são elementos estruturantes da democracia, e não apenas complementares.
Multilateralismo e crítica à ordem global
No plano internacional, Lula defendeu a reformulação das instituições globais e criticou o papel das grandes potências. Ele apontou que o Sul Global continua sendo penalizado por conflitos que não provocou e por crises climáticas que não causou.
“O sul global paga a conta de guerras que não provocou. É tratado como quintal das grandes potências.”
O presidente também questionou a atuação do Conselho de Segurança da ONU e defendeu um sistema internacional mais equilibrado, com igualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Guerra, desinformação e disputa nas redes
Outro eixo da fala foi a denúncia do uso da desinformação como ferramenta política. Lula destacou que a extrema direita atua de forma agressiva no ambiente digital e que o campo progressista precisa disputar esse espaço.
“A internet se tornou um campo de batalha. Disputar as redes virtuais é uma tarefa incontornável.”
Ele também alertou para o risco real que movimentos autoritários representam, citando inclusive tentativas de ruptura institucional no Brasil.
Um discurso pessoal e político
Em tom mais íntimo, Lula relembrou sua trajetória como operário e destacou sua origem popular como elemento formador de sua visão política:
“Tudo que eu sou na vida devo a uma mãe que morreu sem saber ler. O que eu sei de caráter, aprendi com ela.”
A fala reforçou a centralidade da experiência de vida na construção de sua atuação política e dialogou diretamente com o público presente, estimado em milhares de participantes.
Mobilização permanente
Encerrando sua participação, o presidente sintetizou o espírito do encontro ao defender que a mobilização progressista precisa ser contínua e concreta:
“Nosso lema deve estar sempre do lado do povo. Essa luta precisa ser global.”
A reunião em Barcelona marca o início de uma articulação internacional que pretende ir além dos encontros formais, buscando atuação coordenada diante dos desafios contemporâneos, como desigualdade, crise climática, guerras e avanço do autoritarismo.












