Atitude Popular

Lula chama Conselho da ONU de “senhores da guerra”

Da Redação

Em discurso contundente na Espanha, Lula criticou duramente o Conselho de Segurança da ONU, afirmando que o órgão deixou de promover a paz e passou a funcionar como instrumento das grandes potências. Ao chamar seus membros permanentes de “cinco senhores de guerra”, o presidente brasileiro expôs uma crise profunda do sistema internacional e colocou novamente em pauta a reforma da governança global.

A crítica de Luiz Inácio Lula da Silva ao Conselho de Segurança da ONU marca um dos momentos mais duros de sua atuação recente na política internacional. Ao afirmar que a organização, criada para garantir a paz após a Segunda Guerra Mundial, se transformou em um espaço dominado por “cinco senhores de guerra”, o presidente brasileiro não apenas fez um ataque retórico, mas colocou em xeque a própria arquitetura do sistema multilateral contemporâneo.

A declaração foi feita durante a reunião de mobilização progressista global em Barcelona, em um contexto internacional marcado por múltiplos conflitos simultâneos e pela incapacidade das instituições globais de responder a essas crises. Para Lula, o problema central está na estrutura do Conselho de Segurança, especialmente no poder de veto exercido pelos cinco membros permanentes, que bloqueia decisões e impede soluções efetivas para guerras em curso.

Esse diagnóstico não é isolado. O Conselho de Segurança é composto por cinco potências com assento permanente e poder de veto — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — o que lhes permite barrar qualquer resolução relevante, independentemente do apoio internacional. Essa estrutura, criada em 1945, reflete uma ordem mundial que já não corresponde à realidade geopolítica do século XXI, mas continua determinando os limites da ação internacional.

A fala de Lula ganha ainda mais peso quando inserida no cenário atual. O mundo vive hoje um aumento significativo de conflitos armados, com tensões no Oriente Médio, guerras por procuração e disputas entre grandes potências. O próprio presidente brasileiro destacou que o nível de conflitos é o mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial, o que evidencia o fracasso do sistema de segurança coletiva.

Em paralelo, Lula também criticou diretamente a atuação dessas potências em guerras recentes, questionando as justificativas utilizadas para intervenções militares. Ao citar episódios como a invasão do Iraque e conflitos na Líbia, Gaza e Líbano, o presidente reforçou a ideia de que muitas dessas ações foram baseadas em narrativas frágeis ou manipuladas, o que contribuiu para o agravamento da instabilidade global.

Essa crítica dialoga com uma posição histórica do Brasil na política externa, que sempre defendeu o multilateralismo e a reforma das instituições internacionais. Lula, inclusive, tem reiterado que o modelo atual da ONU perdeu legitimidade e precisa ser atualizado para refletir a nova correlação de forças global, incluindo maior participação de países do Sul Global.

O discurso também se conecta a uma crítica mais ampla ao comportamento das grandes potências. Em declarações recentes, Lula apontou que os países que deveriam garantir a paz estão, na prática, promovendo ou alimentando conflitos, seja por interesses geopolíticos, econômicos ou estratégicos. Essa inversão de papel é justamente o que fundamenta a expressão “senhores da guerra”, utilizada pelo presidente.

Além disso, Lula tem alertado para o impacto dessas guerras na vida cotidiana das populações, especialmente no aumento do custo de vida, na crise energética e na instabilidade econômica global. Ao fazer esse vínculo, ele amplia a crítica para além da diplomacia e a conecta diretamente às condições materiais da população mundial, reforçando o caráter político e social da questão.

Outro ponto importante da fala do presidente brasileiro é o ataque à lógica de decisões unilaterais. Em um mundo cada vez mais marcado por disputas geopolíticas, o enfraquecimento do multilateralismo abre espaço para ações isoladas de grandes potências, muitas vezes sem respaldo internacional. Esse processo, segundo Lula, contribui para a erosão do direito internacional e para a normalização de intervenções militares.

A crítica ao Conselho de Segurança também tem uma dimensão estratégica. Ao questionar a legitimidade do órgão, Lula reforça a necessidade de construir novas formas de governança global ou reformar profundamente as existentes. Esse debate inclui propostas como a ampliação do Conselho, a revisão do poder de veto e a inclusão de países como o Brasil entre os membros permanentes.

No plano político, o discurso de Lula se insere em um movimento mais amplo de afirmação do Sul Global. Ao denunciar o funcionamento do sistema internacional, o presidente brasileiro busca posicionar o Brasil como uma liderança capaz de articular uma alternativa ao modelo atual, baseado em maior equilíbrio, cooperação e respeito à soberania dos países.

Essa postura também dialoga com o momento histórico atual, em que o mundo atravessa uma transição geopolítica profunda. A ascensão de novas potências, o enfraquecimento relativo do Ocidente e o aumento das tensões globais criam um ambiente de disputa intensa sobre o futuro da ordem internacional. Nesse contexto, a crítica de Lula não é apenas uma análise, mas uma intervenção política que busca influenciar essa disputa.

Ao mesmo tempo, a reação internacional às falas do presidente brasileiro indica que o debate sobre a reforma da ONU está longe de ser consensual. Enquanto alguns países defendem mudanças estruturais, outros resistem a qualquer alteração que possa reduzir seu poder dentro do sistema. Essa tensão revela a dificuldade de reformar uma instituição cuja própria estrutura foi desenhada para preservar os interesses das grandes potências.

No fim, a declaração de Lula expõe uma contradição central do sistema internacional. A ONU foi criada para evitar guerras, mas hoje é frequentemente incapaz de impedi-las. O Conselho de Segurança deveria ser o principal instrumento de paz global, mas muitas vezes funciona como espaço de disputa entre interesses nacionais. Ao chamar seus membros de “senhores da guerra”, Lula sintetiza essa contradição de forma direta e provocativa.

Mais do que uma frase de impacto, trata-se de um diagnóstico político. E, ao mesmo tempo, de um aviso: sem mudanças profundas, o sistema internacional pode continuar produzindo exatamente aquilo que foi criado para evitar — a guerra permanente.