Eliara Santana e Sandra Helena analisam manipulação da grande mídia, disputa narrativa e os movimentos da direita no quadro A Notícia que Você Não Vê
O programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, recebeu nesta edição a jornalista Eliara Santana e a professora de filosofia Sandra Helena para mais uma rodada do quadro especial A Notícia que Você Não Vê. A conversa, apresentada por Sara Goes, teve como eixo a leitura crítica da cobertura da grande mídia sobre os fatos políticos mais recentes e foi exibida pela Atitude Popular, cuja transcrição serviu de base para esta matéria.
Em um debate denso, afiado e marcado por análise crítica da comunicação, as convidadas discutiram o papel dos grandes veículos na fabricação de consensos, a tentativa de moldar a percepção pública sobre o governo do presidente Lula e os rearranjos em curso no campo da extrema direita para 2026. Entre os pontos centrais do programa, esteve a repercussão do chamado “PowerPoint da Globo” e o modo como a imprensa segue operando, segundo as entrevistadas, por padrões de manipulação já conhecidos, mas ainda muito eficazes.
Eliara Santana foi direta ao tratar da reação da TV Globo após a repercussão negativa de uma peça gráfica que associava visualmente Lula e o PT ao escândalo do Banco Master. Para ela, a emissora não fez uma autocrítica real. “Não houve um pedido de desculpas”, afirmou. Na avaliação da jornalista, o que houve foi uma leitura protocolar, cuidadosamente calculada para conter danos, sem qualquer admissão efetiva de erro ou de intencionalidade editorial.
A jornalista chamou atenção para o modo como a peça foi construída. Segundo ela, o aspecto simbólico do material era central: ao organizar visualmente os elementos da tela, a emissora teria reforçado na linha de visão do público justamente Lula e a estrela do PT, eclipsando os demais agentes envolvidos. “Você bate o olho e vê Lula e a estrela do PT”, resumiu. Para Eliara, esse tipo de construção não é tosco por acidente. Mesmo mal executado, cumpre uma função narrativa precisa.
Ao longo da entrevista, ela insistiu que reduzir o problema à figura de uma jornalista específica seria um erro de análise. “Não é uma decisão da Sadi”, disse, ao defender que a crítica deve ser dirigida ao grupo de comunicação e à lógica estrutural que organiza esse tipo de cobertura. Em sua leitura, a manipulação midiática não pode ser entendida como ato isolado, mas como “ação intencional de um grupo”, articulada por interesses e métodos recorrentes.
Sandra Helena reforçou essa linha de raciocínio ao lembrar que os grandes nomes da televisão, por mais influentes que pareçam, não passam de peças de uma engrenagem maior. Ao comentar o funcionamento interno dos conglomerados de mídia, ela destacou que jornalistas conhecidos muitas vezes vestem o papel de protagonistas, mas seguem subordinados a decisões tomadas em esferas superiores. A professora observou que, quando se trata de compreender a produção de sentido na mídia, o mais importante é olhar para os padrões, para os filtros e para a estrutura de comando.
Nesse ponto, Eliara retomou a contribuição de Perseu Abramo para a crítica da imprensa brasileira e argumentou que esses padrões continuam em plena operação. Para ela, entender como eles funcionam é fundamental para antecipar os próximos movimentos da cobertura. O caso do Banco Master, segundo a jornalista, ilustra bem esse mecanismo: houve uma tentativa nítida de jogar o escândalo “no colo do governo” e de Lula, inclusive com menções ao filho do presidente, mas a operação não se consolidou porque, até agora, não surgiram elementos capazes de sustentar essa vinculação.
“Master não está no colo do governo”, afirmou Eliara, sustentando que o caso se espalha por setores muito mais amplos, alcançando mercado financeiro, Judiciário, imprensa e influenciadores. Na visão dela, a narrativa ensaiada pela mídia encontrou limite na realidade dos fatos, o que não impediu, porém, que o estrago simbólico fosse tentado. A peça, disse ela, pode ter sido recolhida da cena principal, mas não foi descartada. Ficou arquivada em sentido estratégico, como material que pode ser reutilizado se a conjuntura oferecer brecha.
A partir daí, a conversa avançou para outro tema central do programa: a busca da imprensa por um nome viável da direita fora do núcleo mais explosivo do bolsonarismo. Eliara avaliou que a mídia paulista alimentou durante meses a hipótese de um “Flávio moderado”, uma figura sem sobrenome, quase descolada do clã a que pertence. Mas esse esforço, segundo ela, esbarra em uma contradição incontornável: o bolsonarismo não se torna moderado por expediente retórico.
Ao comentar os movimentos mais recentes, a jornalista observou que parte da imprensa passou a testar o nome de Ronaldo Caiado como alternativa, numa tentativa de construir uma direita mais palatável para o centro liberal e o mercado. Eliara ironizou esse ensaio ao definir o governador de Goiás como “um Collor requentado”, com ares de personagem de novela e forte apelo junto ao imaginário conservador do agronegócio. Ainda assim, ela avalia que se trata de uma candidatura com teto baixo e vulnerabilidades fáceis de explorar.
Ao mesmo tempo em que setores da mídia ensaiam esse reposicionamento, as entrevistadas identificaram outro movimento: a tentativa de introduzir no debate público dúvidas sobre a candidatura do presidente Lula em 2026. Eliara chamou atenção para matérias e colunas recentes que passaram a insinuar que o presidente talvez não dispute a eleição, associando sua idade ao debate sobre sucessão. Para ela, trata-se de mais uma construção narrativa com objetivo político claro: minar a centralidade de Lula antes mesmo da definição do tabuleiro.
Sandra Helena acrescentou que esse tipo de operação se torna ainda mais delicado em um momento de turbulência no campo da extrema direita, com fissuras visíveis entre figuras como Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e outros atores do bolsonarismo. Em vez de explorar a profundidade dessa crise, a grande imprensa, segundo ela, parece buscar atalhos para reorganizar uma alternativa conservadora que não ameace tanto os próprios interesses do sistema midiático e econômico.
Na parte final do programa, o debate se expandiu para a cobertura da crise internacional, especialmente o ataque ao Irã e a naturalização de discursos de guerra no noticiário. As convidadas criticaram a forma como a mídia brasileira trata a violência geopolítica ao mesmo tempo em que celebra feitos tecnológicos e espaciais dos Estados Unidos, como se guerra, poder militar e conquista científica pudessem ser apresentados sem conexão entre si.
Eliara observou que grandes eventos midiáticos funcionam muitas vezes como temas diversionistas, deslocando a atenção do público para uma narrativa de grandeza enquanto tensões internas profundas permanecem encobertas. Sandra, por sua vez, destacou o caráter ideológico dessa montagem, em que destruição e heroísmo civilizatório saem do mesmo centro de poder, mas aparecem no noticiário como se não pertencessem à mesma lógica.
Apesar do tom grave dos temas abordados, a edição também foi marcada por momentos de forte sintonia entre as convidadas, que defenderam a necessidade de aprofundar o debate público sobre comunicação, poder e disputa de narrativas. Ao final, ficou a impressão de que o quadro A Notícia que Você Não Vê cumpre precisamente o que promete no título: não apenas revisitar fatos, mas expor os mecanismos que decidem o que será visto, o que será omitido e de que maneira a realidade será empacotada para consumo coletivo.
Em tempos de rearranjo político, radicalização da extrema direita e fragilidade crescente do debate público, a conversa entre Eliara Santana e Sandra Helena ofereceu uma leitura contundente sobre o papel da mídia na produção de sentido. Mais do que comentar manchetes, as duas mostraram que a batalha principal talvez continue sendo a mesma: disputar o enquadramento dos fatos antes que ele se transforme, mais uma vez, em verdade oficial.
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