Netanyahu avança sobre a Cisjordânia e coloca futuro do Estado palestino sob ameaça

Da Redação

Primeiro-ministro israelense declara que a Cisjordânia é “nossa terra” enquanto seu governo acelera a expansão dos assentamentos. No centro da ofensiva está o projeto E1, considerado estratégico porque pode aprofundar a fragmentação do território palestino e tornar ainda mais difícil a criação de um Estado viável.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, voltou a defender abertamente a permanência israelense na Cisjordânia ocupada, afirmando que o território é “nossa terra” e continuará pertencendo a Israel. A declaração foi feita durante um evento ligado ao movimento de assentamentos israelenses e ocorre em um momento de aceleração da ocupação territorial, justamente quando cresce a pressão internacional para impedir que a expansão das colônias torne praticamente impossível a criação de um Estado palestino.

A fala não pode ser compreendida apenas como retórica política. Ela acompanha uma transformação concreta do território. O governo israelense vem ampliando e regularizando assentamentos, autorizando novas construções e fortalecendo a presença civil israelense na Cisjordânia, ocupada militarmente desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Segundo Netanyahu, seu governo estabeleceu ou regularizou 104 assentamentos e 160 fazendas. O primeiro-ministro também vinculou a expansão territorial à expectativa de uma nova onda de imigração judaica para Israel, a chamada Aliyah, e afirmou que o país estaria se preparando para recebê-la.

É justamente a combinação entre discurso político, crescimento populacional e ocupação física que torna o momento especialmente importante. A disputa pela Cisjordânia não acontece somente nas mesas diplomáticas. Ela ocorre diariamente por meio de casas, estradas, assentamentos, postos de controle, áreas militares e infraestrutura que alteram progressivamente a geografia do território.

No centro dessa transformação está agora o chamado projeto E1, uma das iniciativas de assentamento mais controversas das últimas décadas.

Israel abriu licitação para mais de 1.200 novas moradias dentro dessa área, enquanto o planejamento mais amplo prevê milhares de unidades habitacionais. O problema fundamental não está simplesmente no número de casas, mas na localização escolhida.

O E1 fica a leste de Jerusalém, entre Jerusalém Oriental e o grande assentamento israelense de Ma’ale Adumim. A consolidação dessa área permitiria aprofundar a conexão territorial israelense entre Jerusalém e Ma’ale Adumim, ao mesmo tempo em que dificultaria a continuidade geográfica entre áreas palestinas da Cisjordânia.

É por isso que o projeto provoca tanta resistência internacional.

A possibilidade de criação de um Estado palestino depende de um território minimamente contínuo e funcional. Jerusalém Oriental é reivindicada pelos palestinos como capital desse futuro Estado, enquanto cidades como Ramallah e Belém constituem centros fundamentais da vida política, econômica e social palestina.

A expansão do E1 pode aumentar a fragmentação entre essas áreas. Na prática, a Cisjordânia corre o risco de se transformar cada vez mais em um conjunto de territórios palestinos descontínuos, cercados por assentamentos, infraestrutura israelense e zonas submetidas a diferentes formas de controle.

A discussão, portanto, não é simplesmente imobiliária. É uma disputa pela possibilidade material de existência de um Estado palestino.

Essa é também a razão pela qual a maior parte da comunidade internacional considera os assentamentos israelenses nos territórios ocupados ilegais à luz do direito internacional. Israel rejeita essa interpretação e sustenta argumentos históricos, jurídicos e de segurança próprios para defender sua presença na região.

O avanço recente provocou novas condenações internacionais. Países árabes e muçulmanos, assim como governos europeus e outras potências ocidentais, manifestaram oposição ao projeto E1 e advertiram que sua implementação compromete ainda mais a perspectiva de uma solução negociada de dois Estados.

O conflito territorial também está profundamente conectado à política interna israelense. Netanyahu governa em coalizão com forças nacionalistas e religiosas que defendem posições ainda mais duras sobre a Cisjordânia. Entre as figuras mais importantes desse campo está o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defensor da aplicação da soberania israelense sobre o território.

Para esses setores, a Cisjordânia — frequentemente denominada Judeia e Samaria a partir da terminologia bíblica — não deveria constituir a base territorial de um futuro Estado palestino, mas permanecer definitivamente sob soberania israelense.

Essa pressão desloca progressivamente o debate.

Durante décadas, grande parte da diplomacia internacional trabalhou com a ideia de que israelenses e palestinos poderiam chegar a um acordo que resultasse em dois Estados. A Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental estariam no centro das negociações para a formação do Estado palestino, enquanto questões como fronteiras definitivas, segurança, refugiados e Jerusalém seriam resolvidas diplomaticamente.

O problema é que uma solução territorial precisa de território.

Cada novo assentamento modifica a realidade sobre a qual uma futura negociação teria de ocorrer. Quanto maior a população israelense estabelecida na Cisjordânia e quanto mais integrada estiver essa população à infraestrutura de Israel, maior será o custo político e material de qualquer eventual reorganização das fronteiras.

É nesse sentido que a expansão dos assentamentos pode produzir uma situação irreversível mesmo sem uma declaração formal de anexação.

Não é necessário anunciar de um dia para o outro que determinado território foi incorporado. A transformação pode acontecer progressivamente: uma estrada hoje, um assentamento amanhã, milhares de residências depois, novas conexões de infraestrutura e, finalmente, uma realidade física tão consolidada que qualquer retirada se torna politicamente muito mais difícil.

A Cisjordânia vive ainda outro processo preocupante. Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, cresceram as operações militares israelenses, os confrontos, as prisões e as denúncias de violência praticada por colonos contra palestinos. Comunidades palestinas enfrentam também restrições de circulação e dificuldades econômicas que aprofundam a deterioração das condições de vida.

Enquanto Gaza permanece no centro da atenção mundial por causa da dimensão da destruição produzida pela guerra, uma transformação territorial de enorme alcance histórico continua ocorrendo na Cisjordânia.

É justamente nesse contexto que as palavras de Netanyahu ganham significado.

Quando um primeiro-ministro afirma que a Cisjordânia é “nossa terra” diante de representantes do movimento de assentamentos, enquanto seu governo simultaneamente amplia construções no território, existe uma convergência evidente entre discurso e política concreta.

A questão central deixa então de ser apenas se Israel realizará algum dia uma anexação formal de partes da Cisjordânia.

A pergunta passa a ser se uma anexação de fato já está sendo construída gradualmente no terreno.

Essa diferença é decisiva. Uma anexação formal provoca imediatamente consequências diplomáticas e jurídicas. Uma transformação territorial progressiva pode avançar durante anos, produzindo fatos consumados antes que exista uma decisão política definitiva reconhecendo aquilo que já ocorreu materialmente.

É exatamente por isso que o projeto E1 desperta tanta preocupação.

A disputa israelense-palestina possui dimensões históricas, religiosas, nacionais e geopolíticas extraordinariamente complexas. Mas há uma realidade material impossível de contornar: nenhum Estado existe sem um território sobre o qual possa exercer soberania.

Se esse território é continuamente fragmentado, ocupado e integrado à infraestrutura de outro Estado, chega um momento em que a solução de dois Estados pode permanecer viva nos discursos diplomáticos, mas deixar de existir concretamente no mapa.

É esse o risco colocado pela atual ofensiva de assentamentos.

Netanyahu não está apenas disputando uma narrativa sobre quem possui direito histórico à Cisjordânia. Seu governo participa da transformação física da região. Casas, estradas e assentamentos podem permanecer durante décadas depois que governos terminam e primeiros-ministros deixam o poder.

Por isso, o que acontece agora na Cisjordânia ultrapassa Netanyahu e ultrapassa a atual guerra.

A verdadeira disputa é sobre qual realidade territorial restará quando israelenses e palestinos finalmente voltarem a uma mesa de negociação — e se, quando esse momento chegar, ainda haverá no mapa um território contínuo capaz de se transformar em um Estado palestino.