Mensagem publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil na manhã deste domingo pede sabedoria e coragem aos brasileiros e ganha força simbólica depois de uma campanha em que a Padroeira do Brasil acabou no centro de uma intensa disputa política e religiosa
Da Redação | Atitude Popular
No domingo em que milhões de brasileiros saem de casa para escolher o presidente da República, governadores, senadores e deputados, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil decidiu começar o dia com uma oração pelo país. A CNBB publicou na manhã deste 4 de outubro uma mensagem curta, mas carregada de significado depois de uma das semanas mais tensas da campanha eleitoral. A entidade confiou o Brasil à proteção de Nossa Senhora Aparecida e pediu a Deus sabedoria e coragem para que os brasileiros construam um país “reconciliado, soberano, justo e fraterno”.
Não houve indicação de candidato, pedido de voto ou referência nominal aos principais concorrentes à Presidência. A mensagem mantém a posição institucional adotada pela Igreja Católica durante o processo eleitoral de 2026, segundo a qual a CNBB não apoia formalmente partidos ou candidaturas, mas considera parte de sua missão pastoral apresentar princípios para orientar a participação dos fiéis na vida pública. Ainda assim, seria impossível separar completamente as palavras escolhidas neste domingo da temperatura política das últimas semanas.
Nossa Senhora Aparecida, uma das expressões religiosas e culturais mais profundas da história brasileira, acabou transformada em personagem involuntária da reta final da eleição. Uma controvérsia iniciada a partir de comentários na televisão e de publicações nas redes sociais colocou em circulação a afirmação de que Flávio Bolsonaro poderia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A informação não se sustentou. Não há evidência de que Flávio tenha apresentado ou apoiado uma proposta com esse objetivo, e o candidato negou publicamente que pretendesse fazer qualquer alteração dessa natureza.
A origem legislativa utilizada para alimentar parte da controvérsia também não estava ligada a Flávio Bolsonaro. Tratava-se de um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que pretendia alterar a denominação para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada em 2008. A GloboNews corrigiu posteriormente informações transmitidas durante a cobertura do assunto, enquanto verificadores independentes identificaram outros conteúdos falsos relacionados à controvérsia religiosa que passaram a circular nas redes.
O caso, porém, não terminou com o desmentido. Flávio Bolsonaro acusou pessoas de dentro da CNBB de terem colaborado para disseminar a informação falsa. A Conferência reagiu publicamente e negou ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de qualquer conteúdo falso relacionado à eleição. Também repudiou o uso da desinformação independentemente de quem fosse beneficiado ou prejudicado por ela e cobrou provas das acusações feitas contra a entidade.
Foi nesse ambiente que uma devoção religiosa profundamente enraizada na cultura brasileira acabou atravessando a última semana da campanha presidencial. E é justamente por isso que a decisão da CNBB de voltar a Nossa Senhora Aparecida na manhã da eleição possui uma força simbólica que ultrapassa as poucas linhas da publicação.
Uma mensagem que vinha sendo construída antes da polêmica
A referência à Padroeira do Brasil não surgiu agora. Em junho, muito antes da controvérsia da última semana, a CNBB havia divulgado sua mensagem oficial para as eleições de 2026. Naquele documento, os bispos afirmaram que a Igreja Católica não indica candidatos ou partidos e defenderam a participação consciente do eleitor, a democracia, a dignidade humana, o bem comum, a justiça social e a fraternidade. O documento também condenou corrupção, compra de votos, abuso de poder econômico e político, uso indevido de recursos públicos e disseminação deliberada de notícias falsas.
Havia ainda um ponto particularmente importante diante do ambiente que posteriormente marcaria a campanha: a CNBB reafirmou a necessidade de respeito à Constituição, às instituições da República, ao Estado Democrático de Direito, ao processo eleitoral e aos resultados das urnas. A Conferência também desaconselhou a abstenção e pediu aos cidadãos que não avaliassem candidatos apenas por promessas de campanha, mas observassem sua trajetória e os compromissos assumidos ao longo da vida pública.
Aquela mensagem de junho terminava exatamente com a entrega do país à proteção de Nossa Senhora Aparecida e uma oração para que os eleitores fossem iluminados em sua responsabilidade cidadã. O gesto realizado neste domingo, portanto, não é uma invenção provocada pela polêmica eleitoral. É a retomada, no momento da votação, de uma posição pastoral que a Conferência já havia estabelecido meses antes.
O que mudou foi o contexto.
Depois de tudo o que aconteceu na última semana, mencionar Nossa Senhora Aparecida deixou inevitavelmente de ser apenas uma referência religiosa. A imagem da santa passou a carregar também as marcas de uma disputa política que nenhum dos lados deveria ter interesse em aprofundar.
É justamente nesse ponto que a palavra “reconciliado”, escolhida pela CNBB nesta manhã, adquire importância.
O Brasil chega às urnas profundamente polarizado. Famílias, comunidades religiosas e grupos de amigos foram atravessados por uma campanha marcada por acusações duras, circulação de conteúdos falsos, batalhas judiciais e uma disputa cada vez mais intensa pelo significado de símbolos nacionais e religiosos. Pedir reconciliação nesse contexto não significa pedir ausência de conflito político. Democracia pressupõe divergência. Significa defender que diferenças políticas não destruam a possibilidade de convivência entre brasileiros depois da contagem dos votos.
A outra palavra escolhida pela CNBB também chama atenção: soberania.
O termo já vinha aparecendo nas manifestações de integrantes da Igreja durante a campanha. Bispos falaram sobre soberania nacional, democracia, direitos sociais e responsabilidade eleitoral nas semanas anteriores ao primeiro turno. Em setembro, no Santuário Nacional de Aparecida, o arcebispo emérito dom Orlando Brandes também defendeu a soberania brasileira e o voto orientado pelo bem comum.
A palavra possui uma dimensão própria na Doutrina Social da Igreja e na história da atuação pública da CNBB, mas ganhou inevitavelmente um peso político especial numa eleição em que soberania nacional se tornou um dos temas centrais do debate público brasileiro.
A santa que a política não conseguiu deixar fora da eleição
Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular na formação religiosa brasileira. Sua devoção nasceu em torno da pequena imagem encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no início do século XVIII, e atravessou séculos até se transformar numa das maiores expressões do catolicismo popular do país. Sua presença ultrapassa templos e cerimônias. Está em casas, pequenos altares, medalhas, imagens sobre móveis, procissões e romarias que reúnem milhões de pessoas.
É uma devoção profundamente popular.
Talvez justamente por isso sua entrada numa campanha presidencial tenha produzido tanta reação.
Símbolos religiosos possuem uma força política particular porque estão ligados a sentimentos que antecedem partidos e eleições. Para um devoto, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida não é uma peça de propaganda. Pode representar memória familiar, promessa, sofrimento, esperança e fé. Transformar essa relação em instrumento de confronto eleitoral é entrar numa região extremamente sensível da experiência humana.
Foi o que tornou tão delicada a controvérsia das últimas semanas. Uma informação sem comprovação suficiente acabou misturada a uma disputa política real, enquanto diferentes atores tentavam interpretar o significado eleitoral do episódio. O resultado foi uma espécie de guerra de narrativas em torno de uma santa que, evidentemente, jamais pediu para participar da campanha.
A mensagem da CNBB neste domingo parece caminhar na direção contrária. Em vez de transformar Nossa Senhora Aparecida numa arma contra um candidato, a Conferência coloca a Padroeira como símbolo de proteção de todo o país.
Não de um partido.
Não de uma candidatura.
Não de uma parcela dos brasileiros.
Do Brasil.
Essa diferença é importante.
Depois da campanha, continuará existindo um país
Quando as urnas forem fechadas neste domingo, haverá vencedores e derrotados. Dependendo do resultado presidencial, o Brasil poderá entrar imediatamente numa nova campanha de segundo turno. As disputas políticas não desaparecerão, tampouco deveriam desaparecer. Democracia não é unanimidade.
Mas haverá algo que continuará existindo independentemente do resultado: uma sociedade que precisa viver junta.
É esse talvez o aspecto mais interessante da mensagem publicada pela CNBB.
“Reconciliado, soberano, justo e fraterno” não descreve o Brasil existente. Descreve uma aspiração. Reconciliação porque o país está dividido. Soberania porque nenhuma democracia é plena quando suas decisões fundamentais podem ser condicionadas de fora. Justiça porque a desigualdade continua atravessando a vida brasileira. Fraternidade porque uma sociedade não sobrevive indefinidamente quando adversários políticos passam a enxergar uns aos outros como inimigos absolutos.
A Igreja Católica brasileira conhece conflitos políticos. A CNBB atravessou ditadura, redemocratização, crises econômicas, impeachment, polarização e diferentes governos. Foi elogiada e atacada por campos políticos distintos em momentos diferentes de sua história. Sua atuação pública frequentemente provoca controvérsia justamente porque a Conferência não entende a fé como algo completamente separado das condições materiais em que vivem as pessoas.
Nesta eleição, voltou a defender democracia, participação política, combate à mentira, respeito às instituições e preocupação com desigualdade, violência e dignidade humana. Também voltou a repetir que não escolhe candidatos pelos fiéis.
Neste domingo, preferiu fazer uma oração.
Há alguma coisa especialmente brasileira nessa imagem.
Enquanto mesários preparam urnas, famílias procuram documentos, eleitores formam as primeiras filas e campanhas fazem suas últimas movimentações permitidas pela legislação, uma instituição que representa os bispos católicos do país olha para uma pequena imagem negra encontrada por pescadores há mais de três séculos e pede proteção para uma nação de mais de 200 milhões de habitantes.
Depois de uma semana em que Nossa Senhora Aparecida foi puxada de um lado para outro pela disputa eleitoral, talvez seja significativo que a CNBB tenha escolhido devolvê-la, simbolicamente, a todos.
Hoje haverá votos diferentes.
Haverá brasileiros votando em Lula, Flávio Bolsonaro, Renan Santos e nos demais candidatos. Haverá católicos de direita, de esquerda e de centro. Haverá evangélicos com escolhas igualmente distintas, seguidores de outras religiões e milhões de cidadãos sem religião alguma.
A democracia não exige que pensem igual.
Exige que possam escolher livremente, que as regras sejam respeitadas e que, depois de contados os votos, o país continue pertencendo a todos.
É nesse domingo carregado de tensão, expectativa e esperança que a CNBB decidiu pronunciar quatro palavras.
Reconciliação.
Soberania.
Justiça.
Fraternidade.
E, antes que o Brasil conheça a decisão de suas urnas, confiou o país à proteção daquela que milhões de brasileiros chamam simplesmente de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.
