Atitude Popular

“Nós necessitamos cultivar a nossa própria soberania digital”, afirma Jader Gama

Pesquisador debate colonialismo digital, Big Techs e autonomia tecnológica durante o programa Democracia no Ar

O programa “Democracia no Ar”, apresentado por Sara Goes na TV Atitude Popular, recebeu o pesquisador Jader Gama para discutir os desafios tecnológicos do Brasil e divulgar o 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital, realizado em Brasília nos dias 18 e 19 de maio.

Com o tema “Big Techs, democracia e poder: o Brasil precisa de soberania digital?”, o encontro reúne movimentos sociais, pesquisadores, especialistas e organizações interessadas em debater o avanço das grandes plataformas digitais sobre a economia, a política e os processos democráticos brasileiros.

Durante a entrevista, Jader Gama afirmou que o Brasil vive um momento crítico de dependência tecnológica e alertou para os riscos da chamada “alienação técnica”, conceito desenvolvido pelo filósofo francês Gilbert Simondon.

“Esse processo de alienação técnica define o uso da tecnologia sem saber o seu funcionamento e a sua intencionalidade. E nada é mais atual do que o que estamos vivendo agora”, afirmou.

Segundo o pesquisador, o colonialismo digital começa pela colonização do imaginário social.

“É colocado para nós que só existe um jeito de fazer as coisas. E esse jeito seria usando as ferramentas e plataformas das Big Techs”, declarou.

Jader citou o intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos para defender que existe uma “guerra de denominações” em torno da tecnologia e da comunicação digital.

“Não é à toa que nós chamamos de nuvem o lugar onde estão armazenados os nossos dados”, observou.

Ao longo da conversa, o pesquisador relacionou soberania digital, colonialismo de dados, mineração de minerais críticos e exploração ambiental. Para ele, as tecnologias digitais dependem diretamente da extração intensiva de recursos naturais da América Latina, da África e da Amazônia.

“São várias camadas de exploração que começam justamente quando a gente não tem capacidade de cultivar uma consciência crítica e somos colonizados primeiro no imaginário”, afirmou.

Jader também criticou a dependência brasileira em relação às plataformas estrangeiras e questionou o fato de universidades públicas utilizarem sistemas controlados por corporações estadunidenses.

“Quando universidades brasileiras entregam toda a organização dos seus dados para corporações estrangeiras, isso é o suprassumo da consciência ingênua”, disse.

A entrevista abordou ainda o crescimento da influência política das plataformas digitais e seus impactos sobre os processos democráticos na América Latina. Jader relatou experiências recentes de controle algorítmico durante eleições na Colômbia e mencionou episódios de restrição de alcance contra perfis progressistas nas redes sociais brasileiras.

“Hoje a democracia do teu país pode depender diretamente de plataformas privadas estrangeiras”, alertou.

O pesquisador defendeu a criação de uma soberania digital territorializada, baseada em tecnologias livres, estruturas federadas e organização comunitária dos dados.

“Nós necessitamos cultivar os nossos próprios territórios digitais”, afirmou.

Entre as iniciativas destacadas durante o programa está a Terra Preta Digital, ecossistema amazônico voltado à construção de infraestruturas digitais livres e autônomas. Segundo Jader, o projeto reúne povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e organizações populares em torno da construção de plataformas próprias de comunicação e armazenamento de dados.

Outro exemplo citado foi o programa Norte Conectado, que utiliza cabos subfluviais de fibra óptica nos rios amazônicos para ampliar a conectividade da região.

“Esse talvez seja hoje o principal projeto de soberania digital da América Latina”, avaliou.

Jader argumentou que o Brasil possui capacidade técnica, intelectual e criativa para desenvolver caminhos próprios no setor tecnológico, mas sofre pressão permanente das grandes corporações internacionais.

“O principal problema hoje é o lobby das corporações estadunidenses e a permanência dessa alienação técnica”, afirmou.

O debate também abordou os impactos ambientais dos grandes data centers e da expansão da inteligência artificial. Segundo o pesquisador, a discussão sobre soberania digital precisa necessariamente considerar o consumo energético, os danos ambientais e a exploração de territórios periféricos.

“A inteligência artificial está sendo apresentada como solução para tudo, mas esquecendo completamente os impactos ambientais e sociais desse modelo”, disse.

O 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital reúne representantes de movimentos populares, sindicatos, coletivos de software livre, pesquisadores, organizações indígenas, quilombolas, agroecológicas e redes tecnopolíticas. Entre os temas debatidos estão plataformas livres, redes sociais federadas, governança digital, colonialismo de dados, inteligência artificial e autonomia tecnológica.
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A discussão dialoga diretamente com a campanha nacional em defesa da Soberania Nacional e por um Congresso Amigo do Povo, proposta pela Atitude Popular em articulação com movimentos sociais e entidades populares. Um manifesto está sendo elaborado por intelectuais cearenses com o objetivo de fortalecer pautas estratégicas para o processo eleitoral deste ano, incluindo soberania tecnológica, comunicação popular e o fim da escala 6×1.

Os organizadores defendem que a luta pela soberania digital não pode ser separada da disputa política sobre trabalho, infraestrutura, democracia e controle nacional das tecnologias.

Referências
Gilbert Simondon
Antônio Bispo dos Santos
Álvaro Vieira Pinto
Terra Preta Digital
Rede pela Soberania Digital

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