“Vamos criar o Ministério da Economia Solidária”, defende João Roberto em debate sobre o capitalismo brasileiro

Pesquisadores analisam financeirização, captura do Estado e desafios da Economia Solidária diante da nova configuração do capitalismo no Brasil

Em debate promovido pelo programa “Bancos da Democracia”, da TV Atitude Popular, o pesquisador e professor de Ciência Política da UNIRio, João Roberto Lopes Pinto, afirmou que o campo popular precisa voltar a disputar os centros estratégicos do Estado brasileiro e defendeu a criação de um Ministério da Economia Solidária. A edição foi apresentada por Sara Goes e contou também com a participação de Aline Mendonça.

Transmitido pela TV Atitude Popular e pela Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento, o programa discutiu as transformações recentes do capitalismo brasileiro, marcadas pela financeirização, pela expansão dos fundos de investimento e pela precarização do trabalho. O debate também abordou os impactos desse cenário sobre as experiências de Economia Solidária, autogestão e organização popular.

Durante a conversa, João Roberto avaliou que parte do campo progressista deixou de acompanhar as transformações do capital brasileiro ao longo das últimas décadas, sobretudo após as privatizações dos anos 1990.

“O capitalismo hoje está muito organizado. Não estamos mais lidando com firmas isoladas, mas com grupos econômicos profundamente interligados”, afirmou.

Segundo ele, o Brasil passou por um processo acelerado de oligopolização, no qual grandes grupos privados se fortaleceram a partir da aquisição de patrimônio público subvalorizado. O pesquisador destacou ainda a crescente influência dos fundos financeiros sobre setores estratégicos da economia.

“Hoje esses fundos avançam sobre infraestrutura pública, saúde, educação, saneamento, transporte e energia. Não é mais investimento produtivo. Muitas vezes é apenas aplicação financeira esquentando dinheiro”, disse.

Ao comentar o chamado “caso Master”, mencionado durante a entrevista como exemplo dessa nova dinâmica financeira, João Roberto observou que a falta de regulação dos fundos de investimento abriu espaço para uma profunda opacidade no sistema econômico brasileiro.

“Nem o Banco Central nem a Comissão de Valores Mobiliários estão instrumentalizados suficientemente para controlar isso”, declarou.

Aline Mendonça afirmou que o avanço do capital financeiro não pode ser analisado apenas pela clássica contradição entre capital e trabalho. Para ela, colonialismo e patriarcado também estruturam as formas contemporâneas de exploração.

“O capitalismo se reinventa toda vez que é confrontado. E é exatamente por isso que a resistência é tão importante”, afirmou.

A especialista destacou que a Economia Solidária representa uma alternativa concreta à lógica dominante, baseada em cooperação, democracia econômica, solidariedade e organização territorial.

“Os direitos sociais nunca foram concessão do Estado. Eles são conquistas da luta dos trabalhadores”, ressaltou.

Ao longo do programa, Sara Goes relacionou o debate à atual conjuntura brasileira, marcada pela financeirização extrema da economia, pela concentração de riqueza e pela captura de estruturas públicas pelo mercado financeiro. A jornalista também chamou atenção para os riscos envolvendo a soberania digital brasileira e o controle de dados públicos por grandes empresas de tecnologia.

A discussão dialoga diretamente com a campanha nacional em defesa da Soberania Nacional e por um Congresso Amigo do Povo, proposta pela Atitude Popular em articulação com movimentos sociais, sindicatos, coletivos e intelectuais. O manifesto da campanha está sendo elaborado por um grupo de pensadores cearenses que debate formas de intervenção popular no processo eleitoral deste ano.

Entre os temas centrais da mobilização está o fim da escala 6×1, apontado como uma das expressões contemporâneas da precarização do trabalho e da deterioração das condições de vida da classe trabalhadora brasileira.

Os organizadores defendem que a Economia Solidária, os bancos comunitários e as experiências de autogestão precisam deixar de ocupar um espaço periférico no debate público e passar a integrar um projeto nacional de desenvolvimento popular e soberano.

Foi nesse contexto que João Roberto lançou uma das principais provocações do encontro:

“Vamos criar o Ministério da Economia Solidária. A economia solidária é espaço de organização da classe trabalhadora e também de emancipação.”

Aline Mendonça reforçou que o campo popular precisa avançar não apenas na resistência cotidiana, mas também na formulação de estratégias estruturais capazes de disputar o Estado em seus níveis decisórios mais elevados.

“A gente precisa pensar a economia solidária não como política compensatória, mas como projeto de sociedade”, afirmou.

O programa também destacou a importância das rádios comunitárias, da comunicação popular e das redes territoriais de solidariedade como ferramentas fundamentais para enfrentar a concentração econômica e política do país.

Protocolarmente, a produção informou que o programa possui apoio do Ministério do Trabalho e Emprego, por meio do Termo de Fomento MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO nº 00111/2025 // TRANSFEREGOV.BR Nº 991217-2025.

📺 Programa Bancos da Democracia
📅 Toda segunda-feira
🕙 Das 8h30 às 9h30
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