Roseli Fígaro alerta que plataformas digitais capturam o saber produzido no trabalho, transformam conhecimento coletivo em propriedade privada e ampliam a dependência tecnológica do Brasil
A captura de dados pelas grandes plataformas digitais vai muito além de informações pessoais, hábitos de consumo ou preferências nas redes sociais. Para a professora e pesquisadora Roseli Fígaro, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, o principal recurso em disputa é o conhecimento produzido diariamente por quem trabalha: os gestos, métodos, decisões, adaptações e soluções desenvolvidas durante a atividade profissional.
A análise foi apresentada por Roseli Fígaro no programa Trilhas da Soberania, transmitido pelos canais parceiros Código Aberto, Atitude Popular, Rede Lawfare Nunca Mais, TV Travessia, Satélite de Ideias e Visão Caleidoscópica. O debate contou com comentários de Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais; Reynaldo Aragon, pesquisador da UFF e editor do Código Aberto; Luís Delcides, jornalista e advogado; e Ricardo Silveira, jornalista da TV Travessia.
Professora titular da ECA-USP, pesquisadora do CNPq e coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, Roseli desenvolve há décadas estudos sobre comunicação, relações de trabalho e transformações tecnológicas. No programa, ela explicou que a digitalização introduziu uma mudança decisiva na forma como o conhecimento produzido durante o trabalho é apropriado pelas empresas.
No modelo industrial do século XX, engenheiros e gestores observavam os trabalhadores, estudavam movimentos, mediam tempos e reorganizavam a produção. Esse processo exigia observação, elaboração e posterior aplicação dos resultados. Na economia digital, explicou Roseli, a coleta e o processamento ocorrem continuamente.
“Quando a gente fala de captura, não é a captura do meu CPF, gente, não é a captura da minha conta bancária. Isso é o de menos”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, plataformas e sistemas digitais conseguem registrar diferentes aspectos da atividade humana, incluindo movimentos, formas de interação com equipamentos, ritmo de trabalho e modos de execução de determinadas tarefas. Essas informações alimentam bancos de dados utilizados para desenvolver produtos, ferramentas de controle, sistemas automatizados e aplicações de inteligência artificial.
“Os dados são capturados e esses dados são dados da atividade humana de trabalho, do saber fazer de todos nós que trabalhamos.”
O conhecimento produzido no trabalho
Roseli argumentou que o trabalho não pode ser reduzido à execução de uma tarefa prescrita por uma empresa ou descrita em um manual. Toda atividade profissional envolve decisões diante de situações concretas.
Um médico adapta seu conhecimento às condições e necessidades de cada paciente. Um pedreiro modifica procedimentos conforme o espaço, o material disponível e os problemas encontrados durante uma obra. Um trabalhador da coleta de resíduos desenvolve conhecimentos sobre peso, movimento, sincronização corporal, percurso e ritmo. Um professor reorganiza sua exposição conforme a turma, o conteúdo e as condições de ensino.
“O trabalho é uma atividade inédita da maior riqueza do ser humano. É onde tem sabedoria. E captar, coletar isso, roubar isso das pessoas e processar isso, originando uma nova técnica que eu vou patentear e vou privatizar, é a questão que nós estamos vivendo.”
A pesquisadora criticou a divisão rígida entre trabalho intelectual e trabalho manual. Para ela, essa separação contribui para ocultar o conhecimento existente em atividades socialmente desvalorizadas.
“A separação trabalho intelectual e trabalho braçal é uma categorização errônea que mostra uma característica superficial de algumas ocupações.”
Como exemplo da busca pelo conhecimento contido nos gestos, Roseli mencionou experiências de registro minucioso de trabalhadores executando tarefas manuais. Movimentos aparentemente simples, como dobrar uma peça de roupa, podem fornecer informações para sistemas de automação e desenvolvimento de máquinas.
A questão central, para a pesquisadora, é quem se apropria desse conhecimento e quem controla os produtos desenvolvidos a partir dele.
Dados públicos e soberania
A discussão também abordou os riscos relacionados aos bancos de dados mantidos pelo Estado brasileiro. Instituições públicas acumulam informações estratégicas sobre população, saúde, educação, moradia, renda e políticas sociais.
Ao comentar as preocupações de servidores do IBGE com a transformação digital e a possibilidade de perda do conhecimento técnico acumulado pela instituição, Roseli afirmou que a disputa pelo controle desses dados precisa ser compreendida como uma questão de soberania.
“Esses bancos de dados públicos, do Estado, que são informações fundamentais para as políticas públicas, para a soberania nacional, eles são disputadíssimos.”
A pesquisadora criticou a ideia de que a contratação de infraestrutura oferecida por grandes empresas estrangeiras seria uma escolha meramente técnica ou administrativa. Segundo ela, a transferência da operação dos dados para sistemas controlados por companhias privadas cria dependência e amplia a vulnerabilidade do país.
Roseli também questionou a expressão “nuvem”, frequentemente utilizada para apresentar serviços digitais como estruturas abstratas e sem localização física. Na prática, lembrou, os serviços dependem de grandes centros de processamento, máquinas, energia elétrica, água, sistemas de refrigeração e infraestrutura de transmissão.
“As pessoas estão acostumadas a chamar de inteligência artificial o que não é inteligência, de chamar de nuvem o que é data center em uma indústria muito pesada.”
Para a professora, essa linguagem dificulta a compreensão pública sobre o funcionamento material da economia digital.
“Existe uma mitificação que impede as pessoas de se mobilizarem em defesa da nossa soberania.”
“Nós estamos sendo invadidos virtualmente”
Roseli demonstrou preocupação particular com a contratação de serviços digitais estrangeiros por órgãos públicos e instituições educacionais. Segundo ela, a ausência de infraestrutura tecnológica nacional coloca o Brasil em uma posição de forte dependência.
A pesquisadora afirmou que o país possui recursos naturais, produção científica e trabalhadores capazes de participar de um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico, mas reconheceu que o Brasil não dispõe atualmente de autonomia em setores fundamentais.
“Nós não temos plena capacidade de tudo. Porque, se nós tivéssemos plena capacidade, certamente nós estaríamos fazendo.”
Para ela, a recuperação da capacidade tecnológica exige planejamento de longo prazo, investimento público e uma política que atravesse diferentes governos.
“Não é um resultado que vai se obter em dois anos, em quatro anos, numa gestão presidencial. É um projeto que tem que ser feito, um projeto de nação, um projeto de soberania nacional popular.”
Roseli criticou ainda a presença crescente de empresas estrangeiras em áreas sensíveis do Estado e afirmou que a dependência não se limita à infraestrutura física. Ela envolve sistemas que processam dados e conhecimento produzidos pela sociedade brasileira.
“Nós estamos sendo invadidos virtualmente, digitalmente, todos os momentos. Isso é muito sério, é muito grave.”
Legislação protege o indivíduo, mas ignora o trabalho
Outro ponto central da entrevista foi a crítica às limitações das leis brasileiras sobre dados e ambiente digital. Na avaliação da professora, normas como a Lei Geral de Proteção de Dados e o Marco Civil da Internet avançaram na proteção individual, mas não enfrentaram adequadamente a captura de dados produzidos durante o trabalho.
“As legislações que nós conseguimos aprovar até agora são legislações no âmbito de um espectro de valores do liberalismo, que tratam o cidadão como indivíduo e não como um cidadão membro de uma coletividade.”
Roseli defendeu que trabalhadores tenham direitos sobre os dados produzidos a partir de suas atividades profissionais. Para ela, a autorização formal presente nos termos de uso das plataformas não resolve o problema, especialmente quando o trabalhador não possui uma alternativa real para continuar exercendo sua atividade.
“Não é esses termos de uso furados, não. Isso que é a verdadeira lei hoje. O que nós temos de lei no Brasil são os termos de uso dessas empresas.”
A pesquisadora defendeu uma campanha nacional de esclarecimento sobre o funcionamento da indústria de dados. Sindicatos e organizações de trabalhadores, segundo ela, precisam compreender como a informação gerada pela atividade laboral se transforma em riqueza.
“O trabalhador lá no começo do século XX entendia como a tecelagem funcionava e como ele era explorado. O metalúrgico dos anos 70 e 80 entendia como as grandes montadoras funcionavam e como ele era explorado. Hoje nós não entendemos como essa maquinaria funciona.”
Para Roseli, esse desconhecimento limita a atuação sindical. A negociação sobre remuneração e condições de trabalho precisa incorporar a discussão sobre dados, automação e sistemas de gestão algorítmica.
“A maquinaria digital precisa ser entendida pelos trabalhadores para que eles possam se organizar, os sindicatos fazerem as suas convenções coletivas e negociarem isto: quanto que eu vou ganhar pelos dados que vocês estão roubando de nós?”
Inteligência artificial depende do conhecimento coletivo
A pesquisadora também relacionou diretamente a expansão da inteligência artificial à captura de conhecimento produzido socialmente.
“Para a IA, a IA não existe sem os dados do trabalho. Simples assim. Não existe.”
Roseli explicou que sistemas de inteligência artificial dependem do conhecimento produzido em diferentes áreas profissionais. Textos, pesquisas científicas, trabalhos artísticos, decisões jurídicas, produção jornalística e experiências acumuladas em inúmeras atividades alimentam sistemas privados capazes de gerar novos produtos e serviços.
Diante desse cenário, a professora propõe que os trabalhadores participem da governança dos dados gerados por suas atividades. Também defende transparência sobre os mecanismos de coleta, análise e transformação desses dados em riqueza privada, além do acesso das organizações sindicais às informações necessárias para negociar direitos.
“Tem solução. A coisa é difícil politicamente, enfrentar o império. Tecnicamente dá para fazer e legalmente dá para fazer.”
Trabalho e soberania
Na parte final do programa, Roseli defendeu uma aproximação entre a pauta dos direitos trabalhistas e o debate sobre soberania tecnológica.
“Vincular soberania aos dados do trabalho seria um ganho para essa luta, um ganho organizativo, um ganho de compreensão e de dar materialidade à ideia de soberania, que é muito abstrata.”
Segundo ela, a defesa dos dados do trabalho pode ajudar movimentos sociais e sindicatos a compreender que a discussão tecnológica está diretamente relacionada às condições de vida e à capacidade de decisão do país.
A pesquisadora também chamou atenção para o uso comercial da própria palavra soberania por empresas que vendem pacotes tecnológicos apresentados como “soluções soberanas”, embora a infraestrutura e a operação permaneçam sob controle privado.
“Se a gente conseguir grudar as duas palavrinhas, trabalho e soberania, a gente vai fazer um serviço muito bom para que todas essas entidades possam ser engajadas nessa luta.”
Ao responder a uma pergunta sobre quando as novas gerações desenvolveriam consciência política sobre essas questões, Roseli rejeitou a ideia de esperar por uma mudança geracional.
“A consciência política se constrói no dia a dia. Não há tempo a perder. É hoje.”
A formulação sintetiza o sentido de sua intervenção no Trilhas da Soberania. Para Roseli Fígaro, compreender a economia digital exige olhar para aquilo que as plataformas tentam tornar invisível: o conhecimento produzido durante o trabalho, convertido em dados e apropriado como propriedade privada.
Referências
O olho do mestre, de Matteo Pasquinelli. Citado por Roseli Fígaro durante a entrevista como referência para compreender a relação histórica entre o conhecimento dos trabalhadores, a organização do trabalho e o desenvolvimento das tecnologias de automação.
A riqueza das nações, de Adam Smith. A obra foi mencionada no debate ao tratar da relação entre trabalho e produção de riqueza.
Tempos modernos, de Charles Chaplin. A produção cinematográfica foi lembrada como referência para compreender a divisão industrial do trabalho e o controle dos movimentos dos trabalhadores.
Roseli Fígaro também mencionou as contribuições de Lev Vigotski, Alexei Leontiev e Alexander Luria para a teoria da atividade, além do pensamento do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto sobre desenvolvimento nacional e tecnologia.
📺 Código Aberto
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/@TVCodigoAberto
📲 Pix: codigoaberto.net@gmail.com
🌐 https://www.codigoaberto.net/
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O


