Feicoop chega à 32ª edição em Santa Maria com mais de 550 empreendimentos e transforma cooperação, autogestão e trabalho coletivo em uma experiência econômica concreta
Da Redação
Durante três dias, Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul, tornou-se o ponto de encontro de uma extensa rede de agricultores familiares, cooperativas, associações, artesãos, movimentos sociais e empreendimentos populares que há décadas procura responder a uma pergunta elementar, embora quase sempre ausente do debate econômico convencional: para que e para quem uma economia deve funcionar?
A resposta apareceu já na abertura da 32ª Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária, a Feicoop. “Economia, economia, a nossa vida não é mercadoria”, repetiam os participantes durante o cortejo que atravessou o Centro de Referência de Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter. O lema poderia ser tomado apenas como palavra de ordem, não fosse a dimensão alcançada pelo encontro. A edição de 2026 reuniu mais de 550 empreendimentos e recebeu cerca de 100 mil pessoas, com representantes de diferentes estados brasileiros e delegações de países latino-americanos.
A escala atual contrasta com a origem da feira. Em 1994, a primeira edição reuniu 27 empreendimentos, promoveu duas atividades e recebeu aproximadamente 4 mil visitantes. Mais de três décadas depois, a Feicoop tornou-se uma das maiores experiências de articulação da economia solidária na América Latina. Seu crescimento não ocorreu pela transformação em uma feira empresarial convencional, mas pela expansão das redes que conectam produtores, trabalhadores, consumidores, universidades, movimentos e organizações comunitárias.
É justamente essa trajetória que torna a experiência de Santa Maria politicamente relevante. A Feicoop não apresenta a economia solidária como uma abstração acadêmica ou uma promessa para um futuro distante. Nos corredores ocupados por alimentos, produtos agroecológicos, roupas, artesanato e mercadorias produzidas coletivamente, está materializada uma forma de organização econômica que procura deslocar o lucro da posição de finalidade absoluta e recolocar o trabalho e a reprodução da vida no centro das relações produtivas.
Economia solidária não é caridade nem empreendedorismo de sobrevivência
Existe uma tendência recorrente de tratar a economia solidária como uma espécie de setor menor da atividade econômica, associado à informalidade, ao artesanato ou a iniciativas destinadas exclusivamente às populações de baixa renda. Essa leitura reduz experiências complexas de organização produtiva a uma imagem assistencialista que pouco explica sobre sua verdadeira natureza.
Cooperativas, associações e empreendimentos autogestionários produzem, comercializam, administram recursos e precisam garantir sua sustentabilidade econômica. Não estão fora da economia. A diferença está na maneira como procuram organizar a propriedade, o trabalho e os processos de decisão.
Na empresa capitalista tradicional, o poder econômico deriva fundamentalmente da propriedade do capital. Quem controla a empresa determina os rumos da produção, organiza o trabalho e define a destinação dos resultados. A economia solidária parte de outro princípio. A associação entre trabalhadores e produtores constitui a base da atividade, e a gestão coletiva procura distribuir entre seus integrantes a responsabilidade pelas decisões.
Não existe nisso qualquer idealização de uma convivência sem conflitos. A autogestão exige organização, formação, capacidade administrativa e mecanismos permanentes de negociação. Cooperativas também enfrentam problemas de financiamento, acesso à tecnologia, logística e comercialização. Muitas disputam espaço em mercados dominados por empresas com capacidade financeira incomparavelmente maior.
A importância dessas experiências está precisamente no fato de enfrentarem essas dificuldades tentando preservar outra relação entre economia e trabalho. A pessoa que produz não aparece apenas como um custo numa planilha empresarial. Ela participa, em diferentes graus e formatos, da estrutura responsável por organizar a própria atividade produtiva.
Por isso, quando milhares de participantes da Feicoop afirmam que “a nossa vida não é mercadoria”, não estão recusando o comércio. Os produtos expostos em Santa Maria são vendidos e a renda obtida sustenta trabalhadores e famílias. O que está sendo questionado é a submissão de todas as dimensões da existência humana à lógica da rentabilidade.
Uma feira construída “de mão em mão”
A história da Feicoop está diretamente ligada ao Projeto Esperança/Cooesperança e à articulação desenvolvida em Santa Maria em torno da economia popular, da agricultura familiar e do cooperativismo. Ao longo de 32 anos, o encontro atravessou mudanças de governo, crises econômicas, conflitos políticos e emergências sanitárias sem abandonar seu caráter de espaço de comercialização e formação.
Durante a abertura da edição deste ano, Paola Mattos, integrante da organização, definiu a Feicoop como um movimento histórico de resistência construído de maneira coletiva e autogestionária. O coordenador-geral do encontro, José Carlos Peranconi, o Zeca, levou ao palco parte da equipe responsável pela organização para mostrar, segundo suas próprias palavras, como a feira é feita “de mão em mão”.
A expressão descreve mais do que o trabalho necessário para montar um evento dessa dimensão. Ela revela a própria concepção que sustenta a Feicoop. Ao contrário das grandes exposições comerciais organizadas em torno da visibilidade de marcas e patrocinadores, a feira procura apresentar como protagonista a rede de pessoas e organizações que permite sua realização.
Essa memória coletiva também esteve presente na mensagem enviada de Moçambique por irmã Lourdes Dill. A religiosa coordenou 27 edições da Feicoop e participou diretamente da consolidação de Santa Maria como referência da economia solidária. Em sua carta, lembrou que nem a pandemia de Covid-19, nem a gripe H1N1, nem as forças políticas contrárias à proposta foram capazes de interromper definitivamente a experiência.
Irmã Lourdes recuperou ainda o legado de personagens fundamentais dessa trajetória. Dom Ivo Lorscheiter, cuja atuação ajudou a fortalecer iniciativas populares e comunitárias, foi lembrado como “profeta da esperança”. Paul Singer apareceu como uma das grandes referências intelectuais e políticas da economia solidária brasileira. Frei Sérgio Görgen foi homenageado por sua relação com a agroecologia e as lutas da agricultura camponesa.
A carta terminou com um provérbio africano repetido por irmã Lourdes ao longo dos anos: “Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudando a face da Terra”.
Há uma síntese da economia solidária nessa imagem. Isoladamente, uma pequena cooperativa rural possui pouca capacidade de enfrentar grandes grupos econômicos que controlam cadeias de produção, distribuição e comercialização. O mesmo ocorre com uma associação de artesãos, um grupo de mulheres produtoras ou um empreendimento administrado por trabalhadores. A correlação de forças começa a mudar quando essas experiências constroem redes, compartilham estruturas e criam mecanismos próprios de circulação econômica.
No Rio Grande do Sul, a crise climática deixou de ser uma discussão abstrata
A 32ª edição da Feicoop adotou como tema “Construindo Ecologia Integral de Frente às Emergências Climáticas”. No Rio Grande do Sul, a escolha está diretamente relacionada à experiência recente de um estado profundamente atingido por eventos extremos.
As enchentes de 2024 devastaram cidades, interromperam estradas, destruíram equipamentos produtivos e atingiram milhares de pequenos produtores e empreendimentos familiares. A tragédia demonstrou que os efeitos de uma emergência climática atravessam toda a sociedade, mas não são distribuídos de maneira igual.
Grandes grupos empresariais possuem maior acesso a crédito, seguros, estruturas jurídicas e capacidade de absorver prejuízos. Para um agricultor familiar ou um pequeno empreendimento coletivo, a destruição de máquinas, estoques ou áreas produtivas pode significar o desaparecimento, em poucos dias, de uma estrutura construída durante décadas.
O impacto também não termina na propriedade atingida. Quando uma unidade produtiva desaparece, trabalhadores perdem renda, o comércio local perde consumidores e parte do dinheiro deixa de circular dentro do município. A crise climática converte-se rapidamente em crise econômica e social.
Foi nesse contexto que representantes da economia solidária cobraram políticas públicas permanentes para o setor. A presidente do Conselho Estadual de Economia Solidária, Maribel Kaufmann, chamou atenção para a situação dos empreendimentos atingidos pelas enchentes e para a necessidade de incorporá-los efetivamente às estratégias de reconstrução.
A cobrança toca em uma contradição antiga. Cooperativas, agricultores familiares e organizações comunitárias são frequentemente celebrados em discursos oficiais por sua capacidade de resistência. Entretanto, o reconhecimento simbólico nem sempre é acompanhado por crédito, assistência técnica, infraestrutura, tecnologia e políticas de comercialização capazes de garantir sua continuidade.
Não basta admirar a capacidade de uma comunidade de reconstruir aquilo que perdeu. Uma política econômica comprometida com a resiliência dos territórios precisa impedir que os pequenos produtores sejam permanentemente obrigados a começar do zero depois de cada catástrofe.
Paul Singer e a democracia que não deveria terminar na porta do trabalho
A memória de Paul Singer, recuperada durante a Feicoop, permanece central para compreender o significado político da economia solidária. O economista foi um dos principais formuladores e articuladores desse campo no Brasil e enxergava nos empreendimentos autogestionários uma possibilidade concreta de aprendizado democrático.
A questão colocada por Singer permanece profundamente atual. As sociedades contemporâneas reconhecem, ao menos formalmente, que os cidadãos devem participar das decisões políticas. Elegem representantes, organizam partidos, criam associações e disputam os rumos do Estado. No entanto, grande parte da vida cotidiana transcorre em organizações econômicas estruturadas por relações profundamente hierárquicas.
Para milhões de pessoas, a democracia termina quando começa a jornada de trabalho.
A economia solidária não elimina automaticamente essa contradição, mas cria espaços onde ela pode ser enfrentada. Quando trabalhadores participam da gestão de um empreendimento, discutem coletivamente a produção e decidem sobre a utilização dos resultados, a democracia deixa de existir apenas como princípio político abstrato e entra na organização material do trabalho.
É um processo difícil. Decidir coletivamente demanda tempo. Divergências precisam ser administradas. A gestão precisa conciliar participação e eficiência. Não há garantias automáticas de sucesso. Mas justamente por isso as experiências autogestionárias possuem uma dimensão formativa que ultrapassa o resultado econômico imediato.
Elas obrigam pessoas acostumadas a receber ordens a construir decisões.
Quem é o “mercado”?
A dimensão alcançada pela Feicoop também permite questionar uma deformação recorrente do debate público brasileiro. Na linguagem predominante dos grandes meios de comunicação, a palavra “mercado” tornou-se praticamente sinônimo de bancos, fundos de investimento, corretoras e grandes agentes financeiros.
Quando “o mercado reage”, raramente alguém está falando sobre trabalhadores, agricultores familiares, cooperativas ou pequenos comerciantes. Quando “o mercado está preocupado”, quase sempre a preocupação pertence a uma parcela extremamente concentrada dos agentes econômicos.
Essa escolha de linguagem não é neutra. Ela produz a impressão de que a economia pertence aos detentores do capital financeiro e que o restante da sociedade existe apenas como objeto das decisões tomadas por eles.
Os milhares de produtores reunidos em Santa Maria também são economia. Os consumidores que circularam pela Feicoop também participam do mercado. O dinheiro obtido por uma agricultora e gasto no comércio de sua cidade também movimenta atividade econômica. A renda distribuída entre trabalhadores também gera demanda, produção e arrecadação.
A economia real é muito maior do que o painel de cotações apresentado diariamente nos telejornais.
A Feicoop torna visível uma parte dessa economia normalmente empurrada para as margens do debate nacional. Não porque seja insignificante, mas porque sua existência confronta uma narrativa segundo a qual apenas grandes empresas e investidores seriam capazes de produzir desenvolvimento.
A vida transformada em matéria-prima
O lema da feira ganha ainda outra dimensão no capitalismo digital contemporâneo. A mercantilização já não se limita ao trabalho realizado dentro das fábricas ou à exploração tradicional dos recursos naturais. O avanço das plataformas digitais abriu novas fronteiras de acumulação sobre dimensões da vida que anteriormente não estavam submetidas de forma tão direta à captura econômica.
A atenção tornou-se um ativo. Dados pessoais alimentam sistemas de inteligência artificial e publicidade. Relações sociais produzem informações economicamente valiosas. O tempo livre é disputado por plataformas construídas para prolongar permanentemente a permanência dos usuários diante das telas.
A própria experiência humana passou a produzir matéria-prima.
Nesse contexto, afirmar que a vida não é mercadoria deixa de ser uma formulação associada apenas ao cooperativismo ou à agricultura familiar. A frase atinge o centro de uma disputa contemporânea sobre os limites da apropriação econômica.
Se tudo aquilo que uma pessoa faz, sente, observa e comunica pode ser transformado em dado, previsão e produto, a mercantilização alcança um grau historicamente novo. A economia solidária não possui, sozinha, instrumentos para enfrentar o poder das grandes plataformas tecnológicas. Mas a concepção que sustenta essas experiências recupera uma pergunta que o discurso econômico dominante procura evitar: a economia deve organizar a vida ou a vida deve ser permanentemente reorganizada para atender às necessidades da acumulação?
Outra economia não chegará pronta
Seria ingênuo apresentar os 550 empreendimentos reunidos em Santa Maria como uma alternativa pronta e acabada ao capitalismo global. A economia solidária enfrenta problemas concretos de escala, crédito, inovação e inserção em cadeias produtivas. Muitas cooperativas sobrevivem em condições adversas e dependem de políticas públicas que mudam conforme os governos.
Mas a relevância histórica dessas experiências nunca esteve na promessa de substituir, de um dia para o outro, toda a estrutura econômica existente.
Seu valor está na capacidade de demonstrar que determinadas relações apresentadas como naturais são, na realidade, escolhas históricas.
Empresas não precisam necessariamente ser organizadas sem qualquer participação dos trabalhadores. A produção não precisa estar inteiramente subordinada à maximização do lucro. Comunidades podem criar mecanismos próprios de comercialização. Pequenos produtores podem compartilhar estruturas. Redes econômicas podem fortalecer territórios em vez de simplesmente extrair deles recursos e renda.
Nenhuma dessas experiências resolve isoladamente as grandes contradições da economia mundial. Juntas, entretanto, produzem conhecimento social sobre outras possibilidades de organização.
A Feicoop nasceu com 27 empreendimentos e cerca de 4 mil visitantes. Trinta e dois anos depois, mais de 550 iniciativas ocuparam Santa Maria e aproximadamente 100 mil pessoas passaram pelo encontro.
Não foi uma grande corporação que construiu essa trajetória. Não houve um bilionário fundador, uma rodada de investimentos ou um fundo internacional de capital de risco por trás da experiência. Houve agricultores, trabalhadores, religiosas, intelectuais, cooperativas, movimentos e comunidades construindo uma rede ao longo de três décadas.
É talvez por isso que o lema repetido na abertura da Feicoop possua tanta força. “Nossa vida não é mercadoria” não é a negação da economia. É uma disputa sobre seu sentido.
Afinal, produzir, distribuir e comercializar são atividades humanas anteriores aos grandes conglomerados financeiros e sobreviverão a eles. A questão decisiva é saber quais relações sociais serão construídas em torno dessas atividades e quem terá o poder de decidir sobre seus resultados.
Em Santa Maria, durante três dias, milhares de pessoas mostraram que essa discussão não pertence apenas aos livros de economia. Ela já está acontecendo no campo, nas cidades, nas cooperativas e nos territórios onde trabalhadores descobriram que cooperar também é uma forma de produzir poder.









