“O artista nasceu da saudade do meu Cariri”, conta Josilson Lobo

Cantor, compositor e professor relembra a trajetória entre o Ceará e Brasília, homenageia Luiz Gonzaga e defende mais espaço para artistas independentes e para a cultura popular nordestina em entrevista ao Café com Democracia, da Atitude Popular

A saudade da terra natal, as memórias familiares e a riqueza da cultura popular do Cariri são algumas das principais fontes de inspiração do cantor e compositor Josilson Lobo. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, exibida na sexta-feira, 9 de outubro, o artista contou como a experiência de viver por três décadas em Brasília influenciou sua produção musical, relembrou passagens de sua trajetória como professor e apresentou canções autorais dedicadas à cultura nordestina.

Conduzida pelo cientista político, mestre em Políticas Públicas e radialista Luiz Regadas, a conversa percorreu as referências musicais de Josilson, sua relação com Luiz Gonzaga e as histórias que ouviu desde a infância no Crato, no Ceará. O compositor também abordou as dificuldades enfrentadas por artistas independentes para divulgar suas obras e defendeu mais oportunidades nos meios de comunicação públicos para músicos que estão começando ou não dispõem de recursos para custear apresentações e gravações.

Da sala de aula à composição musical

Natural do Crato, na região do Cariri cearense, Josilson Lobo construiu uma trajetória profissional ligada à educação antes de ampliar sua dedicação à música. Sua relação com as artes começou ainda na adolescência, quando participou de atividades teatrais no município, em um grupo ligado ao Serviço Social da Indústria (SESI), sob orientação de Francisco Correia Lima.

O interesse pela expressão artística acompanhou o compositor ao longo dos anos, embora a carreira docente tenha ocupado grande parte de sua vida profissional. Depois de concluir a formação em Letras, em 1989, Josilson mudou-se para Brasília em 1992, após ser aprovado em concurso da Secretaria de Educação do Distrito Federal.

Foram cerca de 30 anos na capital federal, período em que trabalhou como professor em 18 escolas e teve mais de 15 mil alunos. A experiência na educação, somada às lembranças da infância no interior cearense, contribuiu para a formação de seu repertório e de sua maneira de compreender a cultura.

Durante a entrevista, o artista explicou que a distância do Ceará foi decisiva para o nascimento de suas composições. A adaptação à vida em Brasília trouxe a percepção das diferenças culturais entre a cidade onde passou a morar e a região em que havia crescido, marcada pelas tradições musicais nordestinas.

“O poeta nasceu, o artista nasceu da saudade do meu Cariri”, afirmou.

A declaração sintetiza uma característica importante de sua obra. Em vez de abandonar as referências da terra natal, Josilson transformou a memória em matéria-prima para suas canções, recuperando paisagens, festas, costumes e personagens que marcaram sua formação.

Luiz Gonzaga e a memória musical do Nordeste

Entre as principais referências de Josilson Lobo está Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. O compositor contou que teve a oportunidade de assistir a apresentações do músico ainda jovem, durante eventos no Crato, experiência que marcou sua relação com a música nordestina.

Essa admiração deu origem à canção “Meu primeiro ídolo”, homenagem ao artista pernambucano que levou o baião e outros ritmos nordestinos a públicos de diferentes regiões do país. Na entrevista, Josilson apresentou a composição e relembrou as festas juninas, as quadrilhas e as tradições musicais associadas à trajetória de Gonzaga.

A letra recupera referências à infância do compositor no Cariri e às apresentações que acompanhou na juventude. Ao homenagear seu primeiro ídolo, ele também valoriza uma tradição musical que permanece presente em seu trabalho.

Além de Luiz Gonzaga, Josilson citou o cantor e compositor Zé Ramalho e outros nomes da música nordestina entre suas influências. Seu repertório procura preservar elementos do baião e do forró pé de serra, com atenção às expressões culturais que conheceu desde cedo.

A relação com a música, para ele, está associada à preservação de práticas que fazem parte da vida comunitária. As festas de São João, as danças tradicionais e as manifestações populares aparecem como referências recorrentes em sua produção.

“Ai que saudade” transforma a distância em canção

A experiência de morar longe do Ceará também inspirou a composição “Ai que saudade”. Josilson contou que a canção nasceu nos primeiros meses em Brasília, quando a ausência da paisagem e dos costumes do Cariri começou a pesar de maneira mais intensa.

Segundo o artista, o primeiro mês na nova cidade teve a sensação de férias. No segundo, a adaptação ainda parecia possível. No terceiro, porém, a saudade se tornou mais difícil de suportar e passou a alimentar a criação musical.

A composição menciona o pé de serra, os festejos juninos, a sanfona, as quadrilhas e os alimentos associados à região. O cotidiano do interior aparece como parte de uma memória coletiva que inclui hábitos familiares e celebrações populares.

A canção também revela como a experiência migratória pode modificar a relação de uma pessoa com seu lugar de origem. Para quem deixa o Nordeste em busca de trabalho ou oportunidades, a distância pode reforçar o vínculo com a cultura da região onde nasceu.

Josilson relacionou essa experiência à trajetória de muitos nordestinos que migraram para outras partes do Brasil em busca de condições de vida e trabalho. Na conversa, ele observou que a região passou por mudanças importantes durante as últimas décadas, especialmente na infraestrutura e na expansão do ensino superior.

Ao recordar suas viagens frequentes entre Brasília e o Ceará, o compositor mencionou melhorias nas estradas e o crescimento das cidades que conheceu desde a juventude. Também destacou a ampliação da oferta de cursos universitários no Crato e em outros municípios nordestinos.

Para ele, a imagem de um Nordeste marcado exclusivamente pela pobreza não corresponde à diversidade e às transformações que observou ao longo dos anos. A região reúne centros universitários, atividades industriais e uma produção cultural que ocupa diferentes espaços da vida brasileira.

Histórias de família e a relação com o Cariri

A inspiração de Josilson não vem apenas da música. Durante a entrevista, ele explicou que cresceu ouvindo histórias contadas por tias, avós e outros familiares, narrativas que ajudaram a formar sua memória sobre o Cariri e suas tradições.

O compositor relatou que, quando era adolescente, costumava ouvir parentes mais velhos reunidos aos domingos. As conversas recuperavam episódios da história regional, lembranças de pessoas conhecidas e relatos transmitidos entre gerações.

Entre as histórias mencionadas, Josilson falou sobre seu bisavô, José Bezerra de Menezes, conhecido como Juca Bezerra de Menezes, e sobre a relação da família com Padre Cícero. Segundo o relato apresentado no programa, seu bisavô teria doado uma área na Serra do Catolé para a construção de um local de devoção ligado ao sacerdote, região associada posteriormente à estátua de Padre Cícero.

O artista também contou que sua família mantinha vínculos com a história de Luiz Gonzaga. De acordo com a narrativa que ouviu dos parentes, a fazenda Caiçara, na região de Exu, onde nasceu o Rei do Baião, teria pertencido a seu bisavô. Sua avó, Maria Leopoldina, conhecida como Dona Maroca, teria confeccionado a primeira roupa do músico quando ele nasceu.

Essas informações foram compartilhadas por Josilson a partir das histórias familiares que marcaram sua infância. Para o compositor, recuperar essas memórias é uma maneira de preservar relatos que ajudam a compreender as relações sociais e culturais construídas no interior nordestino.

O interesse pelas narrativas também explica o nome que pretende dar a um projeto artístico: “Josilson Lobo cantando histórias”. A proposta, apresentada durante o programa, é reunir canções e relatos sobre a cultura regional, com a possibilidade de percorrer diferentes municípios do Ceará.

Artista independente enfrenta dificuldades para divulgar o próprio trabalho

Ao discutir os obstáculos de sua carreira musical, Josilson destacou a dificuldade de conseguir espaço nos meios de comunicação, especialmente para quem produz repertório autoral sem contar com uma estrutura profissional de grande porte.

O compositor chamou a atenção para o papel que a televisão pública estadual poderia desempenhar na divulgação de artistas cearenses. Em sua avaliação, seria importante ampliar a programação voltada à música regional e criar oportunidades para profissionais que ainda não possuem banda própria ou recursos para custear apresentações.

Josilson reconheceu que manter estúdios e programas de televisão envolve despesas, mas defendeu formatos que permitam a participação de músicos em diferentes estágios da carreira.

Sua crítica se dirige às condições de acesso aos espaços de divulgação. Quando a participação em determinados programas depende de pagamentos ou da disponibilidade de uma banda, artistas com menos recursos podem encontrar dificuldades adicionais para apresentar suas composições ao público.

A questão também envolve a distribuição de música nas emissoras e nos grandes canais de entretenimento. Durante a conversa, o artista afirmou que o mercado tem peso significativo na definição do repertório que recebe maior exposição e que produções autorais de menor alcance comercial enfrentam barreiras para chegar a novos ouvintes.

Para Josilson, a comunicação pública poderia contribuir para reduzir parte dessas dificuldades, oferecendo espaço a diferentes expressões musicais e valorizando a diversidade da produção cultural cearense.

A entrevista do Café com Democracia também se insere no trabalho da Atitude Popular de divulgar artistas, escritores e outros produtores culturais que nem sempre encontram espaço nos circuitos tradicionais de comunicação.

Música popular, responsabilidade e preservação cultural

Josilson Lobo afirmou que procura manter coerência entre suas composições e os valores que considera importantes para a cultura popular. Embora reconheça que o mercado pode favorecer músicas construídas para obter retorno comercial rápido, ele prefere desenvolver um repertório voltado às tradições nordestinas e à preservação de referências culturais.

O compositor disse que não pretende recorrer a letras que considera depreciativas para as mulheres ou que façam da violência um recurso de entretenimento. Também criticou canções que, em sua avaliação, priorizam a exploração comercial sem contribuir para a formação cultural dos ouvintes.

“Eu gosto da cultura popular”, afirmou ao falar das referências que orientam seu trabalho.

Essa escolha se manifesta na valorização de ritmos, danças e celebrações tradicionais. Entre as expressões mencionadas durante o programa estão o reisado, a dança do coco, o maneiro-pau, o bumba meu boi e as quadrilhas juninas.

Josilson citou ainda Patativa do Assaré, poeta cearense cuja obra está profundamente ligada à linguagem e às experiências do sertão. Também lembrou o trabalho de Mestre Eloi, radialista que, segundo seu relato, teve papel importante na preservação e divulgação de manifestações populares no Crato.

O compositor destacou a continuidade dessas tradições por meio de pessoas que mantêm as atividades culturais e transmitem seus conhecimentos às novas gerações. A permanência dessas manifestações depende da participação das comunidades, do trabalho de artistas e mestres populares e da existência de espaços para apresentações.

Sua produção musical procura contribuir para esse processo ao registrar referências que fazem parte da identidade cultural do Cariri. As canções funcionam como formas de expressão artística e como registros de experiências que podem ser compartilhadas com públicos de outras regiões.

“Bacia do Araripe” celebra a riqueza natural do Cariri

A entrevista terminou com a apresentação de “Bacia do Araripe”, composição que aborda as riquezas ambientais e culturais da região. Josilson explicou que a música funciona como um convite para conhecer melhor a Chapada do Araripe, suas fontes de água, a vegetação e os registros fósseis encontrados no território.

O compositor chamou a atenção para a presença de áreas verdes na região e para a importância dos recursos naturais do Cariri. A canção associa a paisagem à memória dos povos que habitaram o território e às tradições culturais que continuam presentes nas comunidades locais.

Ao mencionar a Chapada do Araripe, Josilson questionou a representação do Nordeste como uma região inteiramente seca e sem diversidade ambiental. Sua descrição destacou a vegetação, as fontes naturais e as características geográficas que tornam o Cariri uma região singular.

A música também relaciona a paisagem à história dos povos indígenas e à formação cultural do território. A referência à natureza aparece acompanhada de uma celebração da população que vive na região e das expressões artísticas construídas ao longo das gerações.

Com “Bacia do Araripe”, o compositor reafirma uma característica de seu repertório: a intenção de transformar as experiências locais em canções que possam ser compartilhadas para além do Ceará.

Onde ouvir as músicas de Josilson Lobo

Durante o programa, o artista informou que suas composições podem ser encontradas nas principais plataformas digitais e nas redes sociais, por meio de uma busca por seu nome, Josilson Lobo. Segundo ele, seu catálogo reúne mais de 140 canções autorais.

A entrevista apresentou três composições que ajudam a compreender as principais referências de seu trabalho: “Meu primeiro ídolo”, dedicada a Luiz Gonzaga; “Ai que saudade”, inspirada na distância do Cariri; e “Bacia do Araripe”, voltada à valorização do patrimônio natural e cultural da região.

Ao longo da conversa, Josilson apresentou a música como um caminho para preservar lembranças familiares, divulgar tradições populares e ampliar o reconhecimento da produção cultural nordestina. Sua trajetória reúne décadas de experiência na educação e uma dedicação crescente à composição, com um repertório que mantém o Cariri como referência central.

A participação no Café com Democracia integra a programação cultural da Atitude Popular, que abre espaço para artistas e produtores independentes compartilharem seus trabalhos e conversarem com o público.

Assista à entrevista completa de Josilson Lobo no Café com Democracia:

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
👥 Torne-se membro do nosso canal no YouTube: https://www.youtube.com/tvatitudepopular/join
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal Atitude Popular no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O