“O Banco Central é refém do mercado financeiro”, afirma Luan Gomes

Economista analisa a resistência à redução dos juros, explica os limites impostos ao governo Lula e relaciona endividamento à percepção sobre o poder de compra

Da Redação

A lentidão na redução dos juros não pode ser explicada apenas pelas posições pessoais de quem preside o Banco Central. Para o economista Luan Gomes, a condução da política monetária brasileira está submetida a uma estrutura que concede ao mercado financeiro grande influência sobre as decisões do Comitê de Política Monetária, o Copom.

Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, Luan analisou a gestão de Gabriel Galípolo, a autonomia do Banco Central e os efeitos dos juros elevados sobre o crédito, o investimento, o consumo e o endividamento das famílias. O economista também contestou a classificação do governo Lula como neoliberal e discutiu por que a melhora de alguns indicadores econômicos nem sempre é percebida imediatamente pela população.

Nem Marx resolveria sozinho

A chegada de Galípolo à presidência do Banco Central criou expectativas entre setores da esquerda devido à trajetória intelectual do economista e à sua produção ao lado de Luiz Gonzaga Belluzzo. Luan Gomes, entretanto, afirmou que sempre manteve expectativas moderadas, inclusive porque Galípolo, quando diretor da instituição, acompanhou diversas decisões tomadas durante a gestão de Roberto Campos Neto.

Além disso, a taxa básica de juros não é definida individualmente pelo presidente do Banco Central. A decisão cabe ao Copom, composto pela presidência e pelos diretores da instituição. Para ilustrar os limites enfrentados por quem ocupa o cargo, Luan recorreu ao humor:

“Você podia ressuscitar Karl Marx e botar ele no Banco Central como presidente que não ia adiantar”

Segundo o economista, a composição do Copom e a pressão exercida por instituições financeiras nacionais e internacionais reduzem a margem para uma queda mais rápida da Selic.

“Pela configuração, pela estrutura que o Banco Central tem hoje, você não vai conseguir descer os juros do jeito que a gente gostaria. O Banco Central é muito refém do mercado financeiro. Muito refém mesmo”

O mercado como referência

Luan chamou atenção para a presença frequente do Boletim Focus nas atas e nos comunicados do Banco Central. Publicado semanalmente, o documento reúne projeções elaboradas por instituições do mercado financeiro para indicadores como inflação, crescimento, câmbio e taxa Selic.

Na avaliação do economista, as expectativas apresentadas no boletim acabam funcionando como referência para as decisões do Copom. Quando as projeções de inflação aumentam, cresce também a pressão para que os juros sejam mantidos ou elevados.

O problema, segundo ele, está no poder concedido aos próprios agentes interessados na rentabilidade proporcionada pelos juros altos. Instituições financeiras formulam projeções e, posteriormente, essas mesmas estimativas são consideradas pelo Banco Central na definição da política monetária.

A influência não se restringiria ao mercado interno. Luan citou o papel das agências de classificação de risco e de grandes investidores internacionais. Uma decisão que contrarie as expectativas desses grupos pode estimular a saída de capitais, pressionar o dólar e produzir instabilidade cambial.

“O que significaria o Banco Central perder credibilidade? É não estar fazendo o que o mercado quer”

O entrevistado relembrou a gestão de Alexandre Tombini durante o governo Dilma Rousseff. Naquele período, cortes de juros realizados contra as expectativas dominantes foram apresentados como sinais de interferência política no Banco Central. Para Luan, o episódio demonstrou como qualquer tentativa de subordinar a política monetária ao programa eleito nas urnas pode ser recebida com campanhas de desconfiança.

Lula não pode reduzir a Selic por decisão própria

Questionado sobre a possibilidade de o Presidente Lula determinar uma redução imediata dos juros, Luan foi categórico:

“Não, ele não pode. Literalmente, o Lula não tem o que fazer. Quem decide isso é o Copom”

O Presidente Lula pode criticar publicamente a taxa, indicar dirigentes dentro das regras vigentes e defender mudanças na política econômica, mas não possui autoridade para determinar sozinho o percentual da Selic. Mesmo com a maioria da diretoria indicada durante seu governo, as decisões continuam sendo tomadas coletivamente por uma instituição autônoma.

Para o economista, atribuir exclusivamente ao Presidente Lula a responsabilidade pelos juros significa ignorar como o Banco Central passou a funcionar após a aprovação de sua autonomia formal.

“Tem coisa que ele até quer, mas não tem como fazer. Nem tudo funciona como se fosse uma mágica: eu quero, eu posso, eu consigo”

Governo Lula não é neoliberal, diz economista

Luan também rejeitou a definição do terceiro governo Lula como neoliberal. Segundo ele, o neoliberalismo permanece como ideologia dominante entre setores com poder econômico, mas isso não significa que todas as administrações submetidas a esse ambiente adotem o mesmo projeto político.

O economista citou a recuperação do emprego, o aumento da renda média, a retomada da valorização real do salário mínimo e a retirada do Brasil do Mapa da Fome como políticas incompatíveis com uma classificação simples do governo como neoliberal.

“Eu não consigo entender como pode o governo Lula ser neoliberal. Que neoliberalismo é esse que tem a menor taxa de desemprego da história?”

Luan lembrou ainda que o governo interrompeu processos de privatização iniciados durante a gestão de Jair Bolsonaro. Entre as empresas retiradas dos planos de desestatização, mencionou a Ceitec, responsável pela produção de semicondutores, além de Correios, Serpro e Petrobras.

A situação da Eletrobras, segundo ele, é diferente porque a privatização já havia sido concluída. Nesse caso, uma reversão dependeria de recompra, negociação com acionistas ou outras medidas que envolvem recursos públicos e disputas jurídicas. Portanto, não poderia ser realizada apenas por decisão administrativa.

Galípolo é refém, não traidor

As críticas à condução dos juros também alimentaram acusações de que Galípolo teria abandonado as posições defendidas antes de chegar ao comando do Banco Central. Luan discordou desse diagnóstico.

“Eu não considero ele um traidor. Eu considero ele um refém do sistema”

Para o entrevistado, existe uma distância evidente entre a produção intelectual de Galípolo e algumas decisões tomadas pela instituição sob seu comando. Essa diferença, contudo, seria resultado das pressões exercidas sobre a presidência do Banco Central, e não uma prova suficiente de mudança ideológica pessoal.

Luan também apontou diferenças entre Galípolo e Campos Neto na fiscalização do sistema financeiro. Ele citou a atuação da atual gestão em casos envolvendo instituições bancárias e financeiras como exemplo de que os dois presidentes não podem ser tratados como equivalentes.

Nas atas do Copom, acrescentou, o Banco Central reconhece problemas concretos da economia, mas procura justificar cuidadosamente qualquer redução dos juros, demonstrando receio sobre a reação do mercado.

“Ele está cortando os juros, mas, na descrição da ata, só falta dizer: ‘Pelo amor de Deus, eu estou cortando por causa disso. Não pire’”

Juros altos chegam às famílias

A Selic elevada encarece empréstimos, financiamentos e dívidas no cartão, além de aumentar o custo do serviço da dívida pública. Para as empresas, o crédito mais caro pode adiar investimentos, reduzir contratações e limitar a expansão da produção.

Nas famílias, o efeito aparece na redução da renda disponível. Mesmo quando os salários avançam acima da inflação, parte desse ganho pode ser consumida pelo pagamento de juros e prestações acumuladas.

“Você pode ganhar 100 mil reais. Se você tiver uma dívida de 500 mil, vai olhar e dizer: ‘Caramba, eu não consigo comprar nada’. É por causa das dívidas”

Luan destacou que o Brasil voltou a registrar aumento real do salário mínimo a partir de 2023, depois de um período sem ganhos reais durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Ainda assim, o endividamento pode impedir que essa melhora seja sentida no cotidiano.

A percepção de perda do poder de compra, portanto, não decorre apenas dos preços encontrados no supermercado ou na farmácia. Também está relacionada à parcela da renda comprometida com cartões, empréstimos, cheque especial e outros tipos de crédito.

Desenrola precisa de continuidade

O programa Desenrola foi citado como uma medida importante para aliviar a situação de pessoas endividadas. Luan não considera a renegociação uma iniciativa inútil, mas alertou que ela precisa ser acompanhada por políticas de educação financeira e prevenção de novas dívidas.

“Eu não acho que seja enxugar gelo. Mas, se não tiver uma política de conscientização, aí me parece enxugar gelo”

Sem uma ação posterior, explicou, existe o risco de o beneficiário renegociar a dívida, voltar a consumir por meio de crédito caro e entrar novamente em inadimplência. A facilidade para abrir contas, obter cartões e parcelar compras ampliou o acesso ao consumo, mas também aumentou a exposição das famílias a ofertas pouco transparentes.

O economista defendeu que educação financeira e noções básicas de direito sejam incorporadas à formação dos brasileiros. O objetivo não seria condenar o consumo, mas oferecer condições para que as pessoas compreendam juros, contratos, parcelamentos e riscos associados ao crédito.

Bets aprofundam o problema

Durante a entrevista, o crescimento das apostas eletrônicas foi relacionado ao agravamento do endividamento. Luan elogiou o bloqueio do acesso às bets para pessoas atendidas por programas de renegociação de dívidas.

“Isso é sensacional, porque o que tem de gente adquirindo dívida por causa de bet é um absurdo”

A expansão das plataformas de apostas não foi tratada como uma falha moral individual. As propagandas apresentam a possibilidade de ganho rápido e mudança de vida, enquanto reduzem a visibilidade das perdas. Para trabalhadores submetidos a salários baixos e crédito caro, essa promessa pode encontrar um ambiente especialmente vulnerável.

O debate também abordou a dimensão social do endividamento. Dívidas persistentes afetam a saúde mental, as relações familiares e a capacidade de acesso a bens essenciais. Por isso, programas de renegociação precisam ser articulados a restrições sobre práticas financeiras abusivas e mecanismos de proteção contra apostas.

Emprego baixo muda a relação com as empresas

Luan relacionou a redução do desemprego à dificuldade relatada por alguns empresários para contratar trabalhadores. Segundo ele, o pleno emprego não significa ausência completa de desemprego, mas uma taxa suficientemente baixa para permitir que os trabalhadores comparem propostas e recusem condições ruins.

A recusa de empregos mal remunerados ou submetidos a jornadas excessivas não deveria ser interpretada como preguiça. Quando há mais oportunidades, empresas que oferecem melhores salários e condições de trabalho tendem a atrair os profissionais disponíveis.

O economista avaliou que muitos empresários defendem o capitalismo enquanto esperam proteção contra a própria concorrência por trabalhadores. Em um mercado de trabalho aquecido, a disputa também ocorre entre empregadores, que precisam tornar suas vagas mais atraentes.

O contraste da Coreia do Sul

A conversa terminou com uma discussão sobre a Coreia do Sul, frequentemente apresentada como modelo de desenvolvimento industrial e tecnológico. Luan reconheceu os avanços do país, mas ressaltou que a riqueza convive com forte concentração de renda, pobreza e dificuldades enfrentadas pela população idosa.

O filme Parasita, dirigido por Bong Joon-ho, apareceu como referência para compreender a proximidade física entre riqueza e pobreza nas grandes cidades sul-coreanas. A produção mostra famílias que vivem realidades profundamente diferentes, embora separadas por pequenas distâncias.

“Um sistema consegue produzir tanta riqueza e, ao mesmo tempo, tanta pobreza num mesmo lugar”

Para Luan, o desenvolvimento tecnológico e a presença de empresas globais como a Samsung não eliminam as contradições sociais do país. O êxito industrial pode oferecer experiências úteis ao Brasil, mas não deve ser confundido com a inexistência de desigualdade ou com um modelo que possa ser copiado integralmente.

Referências

Parasita, direção de Bong Joon-ho, 2019
Gangnam Style, Psy, 2012
The S-Classes That I Raised / My S-Rank Hunters, Geunseo, 2021
https://www.youtube.com/watch?v=jsVG0axVMVA

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