Professor da UFRJ afirma, em estreia do programa Trilhas da Soberania, que o país enfrenta riscos externos reais, carece de estratégia de defesa integrada e sofre com setores internos que atuam contra a própria soberania nacional
A estreia do programa Trilhas da Soberania, transmitido pela TV Código Aberto em parceria com a Rede Lawfare Nunca Mais e com retransmissão da Rádio TV Atitude Popular, abriu um debate direto sobre um tema decisivo para o futuro do país: a capacidade do Brasil de defender sua soberania em um mundo marcado por guerras, disputas geopolíticas e pressões crescentes sobre a América Latina. O entrevistado da edição foi o historiador e cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva, o professor Chico Teixeira, da UFRJ.
Na conversa, conduzida por Heitor Aragon, com comentários de Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, e Reynaldo Aragon, pesquisador da UFF e editor do Código Aberto, Chico Teixeira traçou um diagnóstico duro sobre a atual situação da defesa nacional. Para ele, o Brasil precisa abandonar ilusões antigas, reconhecer que corre riscos concretos e enfrentar tanto vulnerabilidades militares quanto fragilidades políticas internas.
A questão central da entrevista foi apresentada de forma direta: as Forças Armadas brasileiras estão, de fato, preparadas para defender a soberania territorial, comercial, industrial e mineral do país? Para Chico Teixeira, a resposta exige, antes de tudo, revisar o modo como o Brasil pensou historicamente suas ameaças.
Segundo o professor, durante a Guerra Fria o país praticamente não tinha papel estratégico relevante num eventual confronto entre superpotências, já que o horizonte dominante era o de uma guerra nuclear. Com o fim daquele período, porém, a pauta internacional mudou. Recursos naturais, água, biodiversidade, ecologia e controle territorial passaram a integrar o centro das tensões globais. Nesse novo cenário, afirmou, a Amazônia se tornou a principal área de atenção estratégica do Brasil.
Chico Teixeira lembrou que, ao longo das últimas décadas, o país deslocou parte importante de sua preocupação militar para o Norte, ao mesmo tempo em que reduziu tensões no Sul com a consolidação do Mercosul. “Enquanto desaparecia o cenário Sul, o cenário Amazônia se potencializava”, observou. Para ele, esse movimento teve lógica, mas não se converteu numa estratégia nacional de defesa realmente compatível com os riscos do presente.
Ao avaliar a estrutura militar brasileira, o professor destacou três agrupamentos que, em sua visão, apresentam algum grau de preparo específico: o Centro de Instrução de Guerra na Selva, os fuzileiros navais e o batalhão de paraquedistas do Exército. Ainda assim, advertiu que esse aparato não é suficiente para responder a formas contemporâneas de conflito, como as que vêm sendo observadas na Ucrânia, no Oriente Médio e nas disputas no entorno de Taiwan.
Ele foi ainda mais enfático ao tratar do batalhão de operações especiais, os chamados “kids pretos”, criticando sua formação e sua função histórica. Segundo Chico Teixeira, esse setor foi moldado sob forte influência da doutrina estadunidense, especialmente a partir de treinamento em Fort Benning, nos Estados Unidos, herdeira da antiga Escola das Américas. Em vez de serem orientados para o enfrentamento de ameaças externas, afirmou, esses quadros foram preparados prioritariamente em torno da lógica do “inimigo interno”.
Na leitura do historiador, essa formação produziu efeitos graves na vida política recente do país. Ele sustentou que esse setor se tornou peça decisiva na articulação golpista e defendeu abertamente sua extinção. “Eu defendo plenamente a extinção completa do batalhão de operações especiais como irrelevantes para a defesa do Brasil e como um perigo para a própria democracia no Brasil”, declarou.
Outro ponto central da entrevista foi a ausência de uma estratégia conjunta entre Exército, Marinha e Aeronáutica. Chico Teixeira afirmou que as três forças não compartilham um projeto integrado de defesa, nem uma visão comum sobre equipamentos, sistemas de armas, satélites, logística e capacidade dissuasória. Para ele, essa falta de convergência compromete a formulação de uma política soberana e realista.
Como exemplo, criticou a compra recente de mísseis de alcance limitado, argumentando que esse tipo de armamento pouco contribui para conter uma ameaça real ao Brasil, que, em sua avaliação, não viria por terra, mas por mar, através de uma força-tarefa aeronaval altamente equipada. O professor ressaltou que, diante de um eventual ataque de grande potência, o país precisaria de capacidade para manter forças hostis a grande distância de seu litoral, protegendo centros estratégicos e impedindo o controle de áreas-chave da Amazônia.
Para ele, o problema não é apenas técnico, mas político e doutrinário. “Mas a formação americanófila dos militares brasileiros não consegue ver um risco nas ações americanas”, afirmou. Essa observação serviu de base para uma das teses mais fortes da entrevista: a de que o Brasil enfrenta, ao mesmo tempo, ameaças externas potenciais e uma dificuldade interna de reconhecê-las, justamente por causa da histórica subordinação ideológica de setores militares aos interesses e à visão estratégica dos Estados Unidos.
No debate sobre recursos estratégicos, Reynaldo Aragon trouxe ao centro a questão das terras raras e dos minerais críticos, apontando que esses insumos ocupam hoje papel semelhante ao que o petróleo teve no século XX. Chico Teixeira concordou com a gravidade do tema e defendeu uma mudança urgente de postura por parte do Estado brasileiro.
Para ele, o país deveria ter criado, há muito tempo, uma estrutura nacional específica para gerir estrategicamente esses recursos. “Seria fundamental que o governo brasileiro imediatamente criasse uma espécie de empresa nacional, uma autarquia nacional de gestão dos recursos de terras raras”, disse. Segundo o professor, não se trata necessariamente de nacionalizar toda a produção, mas de garantir que a União reassuma protagonismo sobre um setor vital para o futuro econômico e geopolítico do país.
A entrevista também abordou os riscos associados à crescente presença política, militar e jurídica dos Estados Unidos na região. Chico Teixeira alertou para a importância de acordos militares firmados com países vizinhos, para a pressão sobre o Brasil em temas de segurança e para o uso de conceitos como “narcoterrorismo” como justificativa para possíveis intervenções externas.
Foi nesse trecho que ele fez uma das declarações mais duras de toda a conversa. “O Brasil está profundamente fragilizado por elementos internos brasileiros”, afirmou. Na avaliação do professor, o problema mais grave não é que autoridades estrangeiras pensem em intervir ou tutelar o país, mas que lideranças brasileiras forneçam discurso, documentação e sustentação política para esse tipo de movimento.
Chico Teixeira criticou, nesse contexto, a tentativa de classificar organizações criminosas brasileiras como entidades terroristas internacionais. Para ele, isso abre margem para que os Estados Unidos aleguem ameaça à sua própria segurança nacional e usem essa justificativa como pretexto para ações diretas no território brasileiro. “A intervenção estrangeira”, respondeu, ao ser questionado sobre a consequência dessa adesão à narrativa do narcoterrorismo.
Ele insistiu que a criminalidade organizada, por mais grave que seja, pertence ao campo da segurança pública e do trabalho policial, não ao da defesa militar e do terrorismo internacional. Misturar deliberadamente essas categorias, afirmou, interessa a quem busca produzir uma legitimação externa para interferências sobre a soberania brasileira.
O professor também se mostrou preocupado com a articulação de setores civis e militares brasileiros em favor desse tipo de agenda. Ao comentar o papel de figuras políticas alinhadas ao bolsonarismo, apontou para a existência de um campo que, em sua interpretação, atua diretamente contra os interesses nacionais. “São pessoas que estão trabalhando contra a nação, são pessoas que têm um perfil de alta traição”, declarou.
Ao longo da entrevista, Chico Teixeira ampliou essa crítica para o ambiente institucional e eleitoral brasileiro. Na visão dele, a disputa de 2026 já está cercada por tentativas de desestabilização, pressões sobre o Supremo Tribunal Federal, campanhas contra instrumentos nacionais como o Pix e ataques permanentes à ideia de regulação das plataformas digitais. Ele enxerga nesse processo uma ofensiva articulada para fragilizar o Estado brasileiro, enfraquecer sua autonomia e limitar sua capacidade de reação diante do poder das big techs e da ingerência estrangeira.
Nesse quadro, o historiador avaliou que a pressão sobre figuras como Alexandre de Moraes não pode ser lida isoladamente, mas sim como parte de uma tentativa mais ampla de deslocar o foco de responsabilidades estruturais e sabotar a defesa da democracia. “Isso é golpe”, resumiu, ao comentar a estratégia de enfraquecimento institucional em curso.
Apesar do diagnóstico severo, Chico Teixeira afirmou que existem, sim, quadros nacionalistas e comprometidos com o país dentro das Forças Armadas. Segundo ele, há oficiais em posições relevantes que não aceitam a transformação do Brasil em colônia dos Estados Unidos e que tiveram papel importante para conter a tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022.
“Temos sim e acho que são importantes e estão em pontos de comando importantes”, disse. Em seguida, lembrou que o nacionalismo não é monopólio da esquerda e que também há, entre militares de perfil conservador, posições sinceramente comprometidas com a defesa da soberania. Ao mencionar os generais que se opuseram ao golpismo, ressaltou que houve resistência real dentro das estruturas militares, inclusive com disposição de enfrentamento para impedir uma ruptura.
A fala final do professor deixou clara a gravidade do momento. Para ele, o Brasil não pode continuar tratando sua defesa como assunto periférico, nem ignorando que o cenário internacional se tornou mais agressivo, mais instável e mais hostil à autonomia dos países do Sul Global. A soberania, sugeriu, não será preservada por retórica vazia, nem por submissão doutrinária, mas por estratégia nacional, clareza de ameaças, reorganização institucional e compromisso político com o interesse brasileiro.
A estreia de Trilhas da Soberania terminou, assim, com uma advertência e um chamado. Em meio à reorganização do tabuleiro geopolítico, à pressão sobre recursos estratégicos e às disputas narrativas e jurídicas do presente, pensar defesa nacional deixou de ser tema de quartel para se tornar questão decisiva de democracia, desenvolvimento e independência.
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