Atitude Popular

O dia que a classe média vaiou o ITA deles!

Por Sérgio Farias
Coordenador do MTST-CE e um dos idealizadores das iniciativas Cozinha Solidária, Agência de Correios Comunitária e Zona Viva, Sérgio Farias vive a luta por direitos

Na inauguração do ITA no Ceará, a cena era emblemática. O espaço estava tomado por aqueles para quem, em grande medida, a obra foi pensada: os filhos da classe média cearense, historicamente acostumados a sair do estado em busca de formação de excelência. Agora, com instituições como Farias Brito, Ari de Sá terão o ITA mais próximo dos CLIENTES QUE PAGAM CARO PELA EDUCAÇÃO passa a ter O ITA, “no quintal de sua CASA GRANDE”.

A organização do evento refletia isso. Ônibus trouxeram estudantes de escolas privadas, fardados, curiosos, ocupando o espaço que simboliza uma nova etapa da educação de alto nível no estado. Era, à primeira vista, uma celebração do acesso ampliado e da interiorização de oportunidades.

Mas um detalhe chamou atenção: em determinados momentos, surgiram vaias. Diferente de manifestações tradicionais de protesto, como as históricas vaias da Praça do Ferreira, ali o gesto parecia carregar outra camada de significado. Vaiava-se não a ausência, mas algo que, paradoxalmente, beneficiava diretamente aquele público.

Esse episódio levanta uma reflexão importante sobre o comportamento político e social da classe média. Mesmo diante de conquistas concretas, a adesão simbólica nem sempre acompanha o benefício material. Há um distanciamento entre o que se recebe e o reconhecimento disso, mediado por valores, disputas narrativas e identidade de classe.

Para gestores públicos, a lição é estratégica. Investimentos em educação e infraestrutura são fundamentais, mas a forma como diferentes grupos sociais percebem e respondem a esses avanços varia significativamente. A classe média, em muitos casos, já consolidou suas referências e escolhas políticas, exigindo outras formas de diálogo e disputa.

Por outro lado, permanece central o papel de políticas voltadas às camadas populares. São esses grupos que mais dependem da ação do Estado e onde o impacto das transformações tende a ser mais profundo e reconhecido. No fim, o episódio do ITA revela menos sobre um evento isolado e mais sobre as tensões e contradições que atravessam a sociedade brasileira contemporânea.

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