“O Brasil não é um regime fascista”

Fábio Gentile lança “Ecos do Fascismo no Brasil de Getúlio Vargas (1930 a 1945)”, reabre o debate sobre a Era Vargas e sustenta que o Estado Novo foi autoritário, mas não fascista; heranças trabalhistas seguem moldando o país

O sociólogo Fábio Gentile, coordenador do PPGS/UFC, apresentou seu novo livro, Ecos do Fascismo no Brasil de Getúlio Vargas (1930 a 1945), em entrevista ao Café com Democracia (06/11), conduzido por Luiz Regadas. A conversa — base desta reportagem — percorreu da Revolução de 1930 ao pós-Estado Novo, examinando como o varguismo apropriou elementos do corporativismo italiano, ao mesmo tempo em que forjou um projeto nacional próprio.

Logo na abertura, Gentile situou o percurso editorial: a obra saiu primeiro em italiano, ganhou neste ano edição em espanhol e “a expectativa é de traduzir para português em breve”. O objetivo, diz, é iluminar continuidades e paradoxos: “É na Era Vargas que você tem a formação do Estado brasileiro contemporâneo”, sobretudo no que toca às instituições trabalhistas e à arquitetura do Estado.

Entre ecos e desvios: o que foi (e o que não foi) o varguismo

O argumento central de Gentile recusa simplificações. Para ele, o Estado Novo combinou traços autoritários e referências corporativas inspiradas na Itália, mas não se enquadra como fascismo stricto sensu:

“No caso brasileiro, é um regime autoritário do Estado Novo, mas não é um regime fascista.”

A distinção, explica, se observa na própria engenharia política: ausência de partido único, a mediação de forças regionais e uma industrialização ainda incipiente — fatores que moldaram a apropriação “à brasileira” do ideário corporativo. Essa mediação também atravessou a Constituinte de 1933-34, quando o pacto varguista enfrentou resistências de empresários liberais paulistas e juristas de São Paulo, ao lado de correntes católicas e socialistas: um laboratório de conciliações e conflitos que marcaria toda a Era Vargas.

Ditador, populista ou ambos? A construção do “pai dos trabalhadores”

Gentile sustenta que a imagem de Vargas oscila entre a figura do ditador do Estado Novo e a do líder populista que se aproximou da classe trabalhadora, sobretudo no final dos anos 1930 e início dos 1940. Foi também estratégia geopolítica: ao final da Segunda Guerra, Vargas alinha-se aos Estados Unidos e prepara a transição. A propaganda — como o programa radiofônico “Trabalhadores do Brasil”, sob o ministro Alexandre Marcondes Filho — ajudou a forjar a narrativa do “pai do povo”:

“Ele cria a própria imagem, a imagem de um Vargas pai do povo brasileiro.”

O paradoxo trabalhista: instituições de origem autoritária que protegem direitos

Um dos capítulos mais instigantes do livro é o paradoxo das instituições trabalhistas. Nascidas num regime autoritário, elas atravessaram redemocratizações e permanecem estruturantes. Gentile destaca a Justiça do Trabalho e seu histórico de decisões favoráveis ao assalariado:

“Os processos trabalhistas, na maioria dos casos, sempre deram certo para o trabalhador.”

Ao mesmo tempo, reconhece elementos anacrônicos oriundos da arquitetura corporativa — como a unicidade sindical — e comenta idas e vindas na contribuição sindical. O conjunto revela o coração do dilema brasileiro:

“É uma tensão entre um modelo de Estado autoritário centralizador e o liberalismo — uma tensão que marca a própria história do Brasil contemporâneo.”

A transição de 1945 e o retorno pelas urnas

A reportagem também recupera a leitura do autor sobre a transição de 1945-1950: com os militares à frente do processo, Vargas recolhe-se, observa a cena e retorna eleito em 1950, impulsionado pelo “queremismo” urbano e pelo apoio de classes trabalhadoras (inclusive um apoio anti-imperialista do PCB à sua candidatura). O conflito com setores das Forças Armadas — alguns abertamente simpáticos ao fascismo nos anos 1930 — volta à superfície e desemboca na crise que antecede o suicídio de 1954.

Por que reler a Era Vargas agora

Gentile defende que revisitar a Era Vargas ajuda a entender a persistência institucional e os paradoxos políticos do Brasil de hoje: o Estado social continua a ser disputado entre impulsos autoritários e pressões liberalizantes, enquanto direitos trabalhistas e mediações sindicais seguem em reconfiguração. O livro, diz, combina bibliografia, documentos e periódicos da época — entre eles a Revista do Trabalho — para recompor uma história complexa, conflitiva e ainda viva.


https://www.youtube.com/watch?v=sUCgGeyABQQ

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