Jurista relaciona a reeleição do Presidente Lula ao enfrentamento da extrema direita, celebra mobilização popular em Bangu e defende pressão democrática sobre as instituições
Da Redação
O jurista e cientista político Jorge Folena afirmou que a eleição presidencial de 2026 terá importância decisiva para a defesa da democracia brasileira e para o enfrentamento do neofascismo dentro e fora do país. Ao comentar um ato político com a presença do Presidente Lula no Estádio Moça Bonita, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Folena disse ter encontrado uma militância mobilizada, confiante e disposta a participar da campanha.
A análise foi apresentada no programa Pensando o Brasil e o Mundo, exibido pelo Código Aberto, em conversa com o jornalista Rey Aragon. A edição abordou o lançamento do livro “A luta contra o fascismo”, de Folena, a mobilização popular em torno de Lula, a disputa presidencial de 2026 e a atuação do ministro André Mendonça no caso Banco Master.
“O Brasil não pode cair para o fascismo. Não pode cair, e o Brasil não vai cair para o fascismo”, declarou Folena.
Para o jurista, a eleição de 2026 não deve ser interpretada apenas como uma disputa entre candidaturas ou partidos. Ela colocará em confronto projetos com posições distintas sobre democracia, soberania, distribuição de renda, relações internacionais e participação da classe trabalhadora nas decisões nacionais.
Um livro para a disputa de 2026
No início do programa, Folena comentou a repercussão do lançamento de “A luta contra o fascismo”. Realizado no Sindicato dos Engenheiros, no Rio de Janeiro, o evento lotou o plenário e registrou, segundo o jurista, a maior audiência alcançada pelo canal da entidade em uma transmissão do programa SOS Brasil Soberano.
Folena atribuiu o alcance do lançamento à mobilização de leitores, amigos e pessoas que acompanham seu trabalho nos meios de comunicação. Mais do que apresentar uma nova publicação, ele afirmou que o encontro se transformou em espaço de organização política.
“Esse livro nasceu para a campanha eleitoral de 2026, porque ela é a campanha das nossas vidas”, afirmou.
O jurista explicou que não utiliza essa expressão por considerar a eleição a última oportunidade de participação política de uma geração. Para ele, a importância do pleito está na possibilidade de confrontar forças autoritárias brasileiras e a pressão exercida por setores internacionais.
“É a eleição em que estamos tendo a oportunidade de fazer um enfrentamento efetivo ao fascismo interno e externo e ver o que vai sair disso”, declarou.
Folena apontou situações vividas na Argentina, na Colômbia e em outros países latino-americanos como parte de uma disputa regional. Também criticou a política externa e as ações internas de Donald Trump, que, segundo sua análise, mantém confrontos frequentes com instituições e limites constitucionais dos Estados Unidos.
Fascismo e concentração econômica
Ao desenvolver sua interpretação, Folena definiu o fascismo como uma ideologia ligada à preservação dos interesses econômicos das classes dominantes. No século XX, argumentou, sua expansão esteve associada à reação contra a Revolução Russa e à necessidade de impedir que organizações de trabalhadores apresentassem outros modelos de sociedade.
“O fascismo é uma ideologia liberal burguesa a serviço dos muito ricos dentro dos países e, no mundo globalizado, a serviço dos muito ricos em escala mundial”, afirmou.
O jurista relacionou o avanço contemporâneo da extrema direita à concentração de riqueza, ao ressentimento social e à ausência de perspectivas para a classe trabalhadora. Na sua avaliação, o capitalismo não conseguiu distribuir bem-estar de maneira suficiente e converteu frustrações econômicas em hostilidade contra grupos igualmente vulneráveis.
Em vez de identificar os interesses responsáveis pela desigualdade, trabalhadores podem ser incentivados a direcionar a própria insatisfação contra outros trabalhadores, imigrantes, mulheres, minorias e adversários políticos. Esse deslocamento, segundo Folena, protege os setores beneficiados pela concentração econômica.
“A frustração que o capitalismo gera para a classe trabalhadora faz com que ela absorva ações contra si mesma. Em vez de se insurgir contra a classe dominante que a explora, coloca a frustração no seu semelhante, em outro trabalhador”, analisou.
Freud e a ausência de felicidade
Para explicar essa relação entre frustração e autoritarismo, Folena recorreu às reflexões de Sigmund Freud em “O mal-estar na civilização”. O jurista associou o mal-estar descrito pelo psicanalista à ausência de felicidade e às limitações impostas à maioria da população por uma sociedade economicamente desigual.
“A ausência de felicidade causa agonia, incentiva o ressentimento e incentiva o ódio”, disse.
Folena também mencionou a correspondência entre Albert Einstein e Freud, publicada sob o título “Por que a guerra?”. Em sua leitura, os conflitos podem ser provocados pela tentativa de apropriação, domínio e destruição, mas também podem envolver a reação de povos que buscam proteger a própria existência.
O jurista usou essa reflexão para criticar governos que utilizam o medo como instrumento permanente de organização política. Para ele, o discurso da extrema direita depende da apresentação contínua de inimigos e ameaças, enquanto políticas de bem-estar diminuem a insegurança e fortalecem relações de cooperação.
“Se você tem bem-estar, encontra felicidade. Se encontra felicidade, encontra a paz. A paz é a ausência de medo”, declarou.
China como referência de desenvolvimento
Na avaliação de Folena, a China se tornou um dos principais alvos dos Estados Unidos porque apresenta um modelo de desenvolvimento conduzido pelo Partido Comunista e assentado na capacidade produtiva de sua população.
O jurista sustentou que os avanços científicos, tecnológicos e sociais chineses contestam a ideia de que somente as elites econômicas seriam capazes de conduzir processos de inovação. Ele também destacou a cooperação internacional como um elemento da atuação chinesa.
“A China promove um processo de desenvolvimento de baixo para cima. É feito pelo Partido Comunista e pela classe trabalhadora. Isso é um choque profundo para setores que se colocam em uma posição de superioridade”, afirmou.
Folena caracterizou a política chinesa como uma experiência socialista própria, distinta de modelos anteriores e orientada pela cooperação entre países. Ele contrapôs essa atuação à utilização das guerras e das intervenções militares como instrumentos de política externa.
“A China é outra coisa. É um socialismo diferente, que busca uma proposta boa para ela e também para os outros. A cooperação entre os povos é um princípio do socialismo”, declarou.
As considerações foram apresentadas como a interpretação política do jurista sobre a posição ocupada pela China na disputa internacional. Ao longo do programa, Folena relacionou essa mudança geopolítica ao fortalecimento do Sul Global e à busca de maior autonomia por países que historicamente enfrentaram o colonialismo.
O papel internacional de Lula
Folena colocou o Presidente Lula dentro desse processo de reorganização internacional. Na sua avaliação, Lula desperta resistência entre as elites porque sua trajetória demonstra a possibilidade de uma liderança oriunda da classe trabalhadora governar um país de dimensão continental.
“O Lula mostra para a classe dominante brasileira que um homem vindo das bases populares é capaz de governar e consertar o Brasil”, afirmou.
O jurista considera que a importância de Lula ultrapassa as fronteiras brasileiras. Citou como exemplo a aproximação do presidente da Coreia do Sul e afirmou que outras lideranças reconhecem no brasileiro uma referência de resistência democrática e diálogo internacional.
“O Lula dá esperança para outras lideranças do mundo, dá esperança para a América Latina e dá exemplo”, declarou.
Folena afirmou que a disputa de 2026 apresenta dois caminhos políticos. De um lado, colocou as candidaturas da direita e da extrema direita, associadas por ele a discursos de medo, repressão e violência. Do outro, situou Lula como representante de uma política voltada à reconstrução social e à esperança.
“O Lula leva essa esperança e essa expectativa para nós, no Brasil. Daí o título do programa ser ‘Lula abraçado pelo povo’”, explicou.
Mobilização popular em Bangu
O ato no Estádio Moça Bonita foi apresentado por Folena como uma demonstração dessa relação entre Lula e seus apoiadores. Ele disse ter chegado a Bangu pela manhã e permanecido no local durante várias horas, acompanhando a movimentação nas arquibancadas e no campo.
Segundo seu relato, muitos participantes saíram de casa ainda de madrugada, utilizaram ônibus e trens ou fizeram parte do trajeto a pé. Folena também contou que organizou uma carona para levar outras pessoas ao evento.
“Vi uma militância em Bangu. A maioria era de gente simples, que acordou às cinco horas da manhã, pegou trem, ônibus ou foi a pé. Era gente que acredita no Lula e para quem Lula dá esperança”, afirmou.
A escolha da Zona Oeste foi considerada politicamente importante pelos participantes do programa. A região possui forte presença de grupos milicianos e registrou votação expressiva no bolsonarismo em eleições anteriores. Levar a campanha para Bangu representaria uma tentativa de disputar esse território e dialogar diretamente com trabalhadores que vivem longe das áreas centrais.
Rey Aragon avaliou positivamente a realização de atividades em bairros periféricos. Para o jornalista, a campanha precisa se aproximar dos trabalhadores e mostrar os resultados obtidos pelo atual governo.
“Eu estou gostando dessa proposta de ir até onde está o trabalhador, que historicamente votou em projetos de desenvolvimento e em governos com identidade social”, afirmou.
Uma militância mais leve
O ambiente encontrado no estádio chamou a atenção de Folena. Ele comparou a atividade com atos de campanhas anteriores, marcados pela tensão e pelo temor de episódios de violência.
“Há muito tempo eu não via a militância tão feliz. Quando a militância está animada, é porque acredita no projeto”, disse.
O jurista mencionou o momento em que “Superfantástico”, canção da Turma do Balão Mágico com participação de Djavan, foi tocada antes da chegada de Lula. O público acompanhou a música e transformou a espera em uma celebração.
“Foi uma grande brincadeira, todo mundo cantando e se divertindo. O clima estava leve. Ao contrário do que vimos nas eleições anteriores, não havia medo”, relatou.
Folena afirmou que a militância petista desempenhou papel decisivo na sobrevivência política do partido após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e durante a prisão de Lula. Ressaltou que muitos apoiadores não são formalmente filiados, mas participam das mobilizações por identificação com o projeto político.
“Quem garantiu a sobrevivência do PT depois do golpe de 2016 foi essa militância. A maioria sequer é filiada ao partido. Foi essa militância que fez com que Lula saísse da cadeia e que o elegeu”, afirmou.
Mulheres de diferentes idades tiveram presença destacada no ato, segundo Folena. Ele mencionou donas de casa, trabalhadoras, jovens e idosas entre as participantes que permaneceram durante horas no estádio.
A disputa na Zona Oeste
Folena considerou acertada a escolha de Bangu porque a extrema direita ganhou espaço político e eleitoral na Zona Oeste. Na sua leitura, disputar a região exige presença física, organização comunitária e diálogo com seus moradores.
O jurista também comentou a participação do prefeito Eduardo Paes. Embora tenha divergências com as políticas econômicas adotadas pelo gestor municipal, Folena afirmou que Paes compreendeu a necessidade de se posicionar ao lado de Lula e da democracia.
“Eduardo Paes não é fascista. Tem muitos equívocos e defende políticas neoliberais das quais discordamos, mas compreendeu que precisa estar ao lado do Lula e da democracia”, declarou.
Folena citou Geraldo Alckmin e Simone Tebet como exemplos de lideranças que passaram a integrar uma coalizão mais ampla contra a extrema direita. Para ele, as alianças precisam ser analisadas a partir das condições históricas e do risco representado pelo retorno do bolsonarismo ao governo.
“Quem sabe Eduardo Paes compreenda esse processo e dê passos mais largos”, acrescentou.
Comparação entre os governos
Rey Aragon afirmou que a eleição de 2026 permitirá uma comparação direta entre a administração de Jair Bolsonaro e o terceiro governo Lula. Ao contrário de 2022, quando uma parcela dos jovens não tinha vivido conscientemente os dois primeiros mandatos petistas, o eleitorado agora possui experiências recentes dos dois projetos.
“Está tudo muito recente. Tivemos quatro anos do governo Bolsonaro e agora quase quatro anos do governo Lula. É a hora de fazer a comparação”, afirmou.
O jornalista avaliou que Lula consolidou uma parcela expressiva do eleitorado, apesar das acusações e campanhas negativas disseminadas contra sua família. Para Aragon, a movimentação nas periferias pode aproximar o governo de setores que ainda não definiram o voto.
Ele também advertiu que grupos bolsonaristas continuam politicamente ativos. Embora os atos atuais pareçam menores do que os registrados em 2018 e 2022, parte desses apoiadores apresenta comportamento mais hostil.
“Eles estão vindo para a campanha com um clima pesado de ódio. Parecem em número menor, mas estão mais raivosos”, analisou.
Folena relatou ter encontrado, durante a saída do estádio, um homem que gritava ofensas contra Lula. Em vez de responder no mesmo tom, defendeu que militantes democráticos mantenham tranquilidade e tentem compreender como o ressentimento político influencia essas pessoas.
“Ele estava tomado pelo ódio e não sabia nem o que estava falando. Temos que mostrar, com calma, que existe uma proposta diferente e que um mundo melhor é possível”, afirmou.
Pressão sobre André Mendonça
O programa também abordou um abaixo-assinado que circulava em grupos de esquerda pedindo o impeachment do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Rey Aragon considerou a iniciativa inadequada e defendeu que as críticas à atuação do magistrado sejam feitas dentro dos limites institucionais.
Folena concordou que o documento não produziria a destituição do ministro. Para ele, a sociedade deve exercer pressão democrática para exigir uma atuação correta, mas sem reproduzir ataques pessoais ou ameaças utilizadas por movimentos autoritários contra integrantes do Judiciário.
“Não é para xingar nem para mandar matar, como os fascistas fazem. Todo homem público se submete ao escrutínio da sociedade”, afirmou.
O jurista citou críticas feitas pelo ministro Gilmar Mendes à condução de André Mendonça em questões relacionadas ao caso Banco Master. Segundo Folena, a cobrança institucional feita dentro do próprio Supremo mostra que decisões judiciais podem e devem ser debatidas publicamente.
“O que precisa ser feito é uma mobilização para exigir correção do André Mendonça, porque ele não está atuando corretamente. Isso não foi dito apenas por mim. Foi dito pelo ministro Gilmar Mendes”, declarou.
Esperança como enfrentamento político
Ao relacionar o ato em Bangu ao lançamento de seu livro, Folena sustentou que o enfrentamento ao fascismo não pode ficar restrito às denúncias contra a extrema direita. O campo democrático precisa apresentar uma perspectiva concreta de melhoria da vida.
Para ele, a força política de Lula se encontra na capacidade de falar sobre emprego, renda, direitos e reconstrução nacional em uma linguagem compreendida por trabalhadores de diferentes regiões.
“O Lula professa palavras de esperança e de construção. O Lula é felicidade”, afirmou.
Folena ressaltou que essa esperança não deve ser entendida como confiança passiva. Ela depende de organização, presença nos territórios e defesa de um programa capaz de alcançar as necessidades materiais da população.
“Enquanto tivermos saúde física, mental e condições materiais, vamos lutar para ter um Brasil melhor”, declarou.
Na avaliação do jurista, a mobilização vista no Rio de Janeiro indica que setores populares começam a se preparar para a disputa eleitoral. A campanha, contudo, precisará alcançar eleitores fora dos círculos já organizados e responder aos discursos que transformam insegurança econômica em ressentimento político.
“Temos que fazer essa esperança chegar ao coração de todos. Nesta etapa da história do Brasil, um mundo melhor passa pela reeleição de Lula”, concluiu.
Referências
- A luta contra o fascismo, Jorge Folena, 2026
- O mal-estar na civilização, Sigmund Freud, 1930
- Por que a guerra?, Albert Einstein e Sigmund Freud, 1933
- Superfantástico, Turma do Balão Mágico com participação de Djavan, 1983
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