Das grandes avenidas às periferias, das praias às cidades do interior, manifestações reúnem estudantes, trabalhadores, artistas e diferentes gerações em uma mobilização nacional que chega à véspera do segundo turno com mais de 730 atividades programadas. O movimento transforma espaços públicos em lugares de encontro, expressão cultural e participação política.
Da Redação
O Brasil vive, nesta reta final das eleições presidenciais de 2026, uma intensa onda de mobilização popular. Em diferentes regiões do país, bandeiras vermelhas e verde-amarelas, manifestações culturais, caminhadas e encontros de gerações tomaram as ruas em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De Copacabana à Avenida Paulista, de Salvador a Porto Alegre, de Brasília a Curitiba, milhares de pessoas participaram de manifestações que combinam engajamento político, música e reivindicações sociais. A poucos dias da decisão nas urnas, os atos revelam uma dimensão importante da vida democrática brasileira: a capacidade de cidadãos, movimentos sociais e organizações populares de ocupar o espaço público e participar diretamente do debate sobre os rumos do país.
A dimensão nacional dessa mobilização ganhou especial expressão neste sábado, 24 de outubro, último dia permitido para caminhadas, carreatas e outras atividades de campanha antes do segundo turno. Segundo levantamento divulgado pelos organizadores, mais de 730 atividades foram programadas entre sexta-feira e sábado na plataforma Bora Lula. Somente a Central Única dos Trabalhadores anunciou 242 caminhadas distribuídas por 202 municípios. A programação inclui grandes manifestações nas capitais, encontros culturais, bandeiraços, pedaladas, carreatas e pequenas atividades em bairros e cidades do interior. Os números representam eventos anunciados, e não um balanço de comparecimento já confirmado, mas oferecem uma medida da extensão territorial alcançada pela organização da campanha.
No Rio de Janeiro, a força simbólica dessas manifestações apareceu de maneira particularmente expressiva no ato realizado em Copacabana em 12 de outubro. Milhares de pessoas ocuparam trechos da orla, reunindo gerações que chegaram ao mesmo espaço público por experiências e motivações distintas. Entre elas estava a professora aposentada Clara Davidorch, de 87 anos, acompanhada de duas amigas de 85 e 82 anos. Ao explicar à Agência Brasil por que havia decidido participar, Clara recordou a luta histórica das mulheres pelo direito ao voto e falou sobre sua preocupação com o futuro dos filhos e netos. Na mesma manifestação, Suelen Geovana, estudante de 25 anos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, relatou como o acesso à universidade pública por meio das cotas transformou sua trajetória. Histórias como essas conferem uma dimensão humana aos acontecimentos: para além dos partidos e das disputas eleitorais, os participantes relacionam suas escolhas políticas à educação, à memória, às oportunidades sociais e às expectativas que alimentam para as próximas gerações.
A Avenida Paulista, em São Paulo, tornou-se outro cenário importante dessa sequência de manifestações. No dia 11 de outubro, a principal avenida da capital recebeu uma concentração de apoiadores que reuniu estudantes, movimentos populares, integrantes de torcidas organizadas e comunidades de fãs de artistas. Lula participou do encontro, que ocupou uma extensa área da avenida. Embora a campanha tenha divulgado estimativas elevadas de público, não houve uma contagem independente consensual que permitisse confirmar o número exato de participantes. A relevância do episódio, contudo, não depende de uma cifra específica: a presença de grupos sociais distintos, reunidos em uma manifestação pública de grande porte, mostrou como a campanha passou a combinar estruturas políticas tradicionais com formas de organização nascidas nas redes sociais e em coletivos juvenis.
A música e a cultura brasileira também ganharam protagonismo nesse processo. Em 18 de outubro, o Rio de Janeiro recebeu uma série de atos, incluindo uma manifestação na região da Candelária, organizada pela União Nacional dos Estudantes, com participação de Chico Buarque e Marisa Monte. Naquele mesmo domingo, Caetano Veloso convocou um encontro musical em Copacabana, reunindo artistas e apoiadores em torno da defesa da democracia. Em Salvador, a mobilização ganhou os sons e a linguagem dos trios elétricos, com presença de Gilberto Gil e Daniela Mercury e uma programação cultural que envolveu artistas de diferentes gerações. O encontro entre expressão artística e participação política não constitui novidade na história brasileira, mas adquiriu renovada visibilidade nessas jornadas. Em vez de restringir as manifestações aos discursos das lideranças partidárias, os organizadores deram espaço a linguagens populares e artísticas capazes de reunir públicos diversos.
No Recife, essa relação entre cultura e mobilização assumiu características próprias. Estudantes, trabalhadores da cultura e movimentos populares organizaram atividades para este sábado no Derby e no Bairro do Recife. Uma das convocações, denominada “Tsunami da Esperança”, retomou a mobilização estudantil que já havia ocupado áreas centrais da cidade no início do segundo turno. Outra, intitulada “Cultura com Lula”, anunciou a participação de representantes do movimento Manguebeat, do Som na Rural e de nações de maracatu, com concentração na região da Rua da Moeda, nas proximidades da estátua de Chico Science. A presença dessas manifestações culturais evidencia como diferentes tradições locais são incorporadas à participação política, aproximando o debate eleitoral da história social e das expressões artísticas de cada território.
A mobilização também atravessou a capital federal. Em Brasília, manifestações reuniram estudantes e integrantes de movimentos sociais na Esplanada dos Ministérios, incluindo uma caminhada realizada em 18 de outubro na direção do Congresso Nacional. Na mesma data, Curitiba registrou um ato que partiu da Praça 19 de Dezembro e percorreu a Avenida Cândido de Abreu, enquanto Porto Alegre recebeu apoiadores no Parque da Redenção, em uma programação acompanhada por apresentações artísticas. Em São Paulo, além das grandes concentrações na Paulista, coletivos e organizações locais levaram atividades aos bairros periféricos, incluindo Grajaú, Itaquera, Vila Nova Cachoeirinha e Barra Funda. Essa descentralização representa uma característica relevante do movimento: a participação não ficou restrita aos espaços tradicionalmente associados às grandes manifestações políticas ou à presença física do presidente.
No Norte do país, Belém também entrou na programação de encerramento da campanha. Organizações ligadas à candidatura de Lula anunciaram para este sábado uma concentração na Aldeia Cabana, no bairro da Pedreira, além de uma caminhada de representantes de movimentos culturais com saída da Praça do Operário, em São Brás. No Paraná, o alcance da mobilização aparece na variedade de municípios envolvidos. Além de Curitiba, foram anunciadas atividades em Cascavel, Londrina, Maringá, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Pato Branco e cidades de diferentes regiões do estado. Em Mato Grosso do Sul, Campo Grande e Dourados também receberam convocações para manifestações. Essa distribuição mostra a estratégia de combinar eventos de grande visibilidade com iniciativas menores, organizadas por lideranças locais, sindicatos e comitês populares.
O crescimento das manifestações ocorreu depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, tornando mais intensa a disputa presidencial. A reorganização dos apoiadores do petista nas semanas seguintes envolveu estudantes, sindicatos, organizações culturais e grupos que passaram a coordenar ações por aplicativos de mensagens e plataformas digitais. Essa articulação ajuda a explicar a velocidade com que convocações locais se multiplicaram pelo país. Ao mesmo tempo, as grandes concentrações não permitem, isoladamente, medir o apoio eleitoral de toda a população ou antecipar o resultado da votação. As ruas tornam visível a capacidade de mobilização de uma candidatura, mas a disputa nas urnas envolve um eleitorado muito mais amplo, inclusive cidadãos que não participam de manifestações.
A reta final reservou ainda uma agenda de grande significado político para o próprio presidente. Neste sábado, Lula programou uma caminhada pela manhã em Copacabana, no Rio de Janeiro, e uma participação à tarde na Avenida Paulista, em São Paulo. São duas localidades que já haviam concentrado manifestações expressivas ao longo de outubro e que voltam a figurar como cenários importantes do encerramento da campanha. Paralelamente, apoiadores das duas candidaturas presidenciais realizam atividades em diversas cidades do país, numa demonstração de que a disputa política permanece intensa até a véspera da votação. Pelo calendário do Tribunal Superior Eleitoral, caminhadas, carreatas e passeatas podem ocorrer até as 22 horas deste sábado; no domingo, a manifestação eleitoral permitida ao cidadão deve ser individual e silenciosa.
Há, entretanto, uma dimensão dessa sequência de atos que ultrapassa a agenda imediata dos candidatos. As imagens das manifestações registram pessoas idosas caminhando ao lado de estudantes, famílias participando de encontros públicos, músicos dividindo espaço com trabalhadores e grupos organizados em torno de diferentes causas sociais. Os relatos dos participantes revelam preocupações concretas com a educação, os direitos trabalhistas, o acesso às políticas públicas, a democracia e o futuro econômico do país. São experiências distintas, por vezes reunidas numa mesma avenida, que ajudam a compreender por que a política brasileira continua sendo disputada também fora dos espaços institucionais, nas praças, nas ruas e nos lugares onde a população constrói sua vida cotidiana.
Quando o segundo turno for decidido neste domingo, 25 de outubro, a apuração estabelecerá o resultado eleitoral. Já a história dessas semanas de outubro será lembrada também pelos encontros, pelas manifestações culturais e pelas milhares de pessoas que decidiram tornar públicas suas posições políticas. Independentemente do desfecho das urnas, os atos em apoio a Lula deixam registrado um capítulo de intensa participação popular, marcado pela presença da juventude, pela memória das gerações mais velhas e pela diversidade cultural de um país que continua a expressar seus conflitos, suas esperanças e seus projetos coletivos nas ruas.


