Atitude Popular

O brasileiro mudou. E a política ainda não percebeu

Da Redação

Há uma explicação que se tornou quase consensual para a aparente contradição da vida brasileira. A economia cresce, o desemprego permanece em níveis historicamente baixos, a renda aumenta em diversas faixas sociais, mas pesquisas registram insatisfação, sensação de aperto e uma persistente impressão de que a realidade não corresponde às expectativas.

À direita, a resposta costuma ser simples. Os indicadores oficiais seriam uma ficção produzida por um governo desconectado da vida real. À esquerda, uma parcela relevante atribui o problema à comunicação do governo. A economia estaria funcionando, mas o Planalto não conseguiria contar sua própria história. As duas interpretações ajudam a explicar parte do fenômeno, mas compartilham uma premissa semelhante: a de que os brasileiros continuam avaliando sua vida econômica pelos mesmos critérios que orientavam suas escolhas há dez ou quinze anos.

Nos últimos meses, os vídeos do empresário e consultor Leonardo Leão, fundador da Brave Corp, passaram a circular amplamente nas redes sociais ao apresentar uma interpretação diferente. Sua hipótese central é que o consumidor brasileiro mudou mais rapidamente do que a capacidade de governos, empresas e analistas de compreender essa mudança.

A discussão ganhou força após um discurso do Presidente Lula durante a reinauguração do parque fabril da Caoa, em Anápolis (GO), no dia 26 de março de 2026. Na ocasião, o presidente chamou atenção para um fenômeno que, segundo ele, tem pesado no orçamento das famílias: a multiplicação de pequenos gastos digitais, compras impulsivas e assinaturas contratadas diretamente pelo celular.

“Esse bichinho é esperto”, disse Lula enquanto segurava um telefone celular. “A gente pede comida pelo celular, a gente paga conta pelo celular, a gente faz compra pelo celular.”

A declaração foi recebida com ironia por parte da imprensa corporativa e da oposição. Muitos interpretaram a fala como uma tentativa de responsabilizar os consumidores pelo endividamento das famílias. A reação acabou reduzindo a discussão a uma disputa política imediata. O que Lula descrevia não era apenas um problema de renda. Sua observação tratava também da transformação dos hábitos de consumo e da maneira como novas tecnologias passaram a disputar espaço permanente no orçamento doméstico.

A fala de Lula em Anápolis não se limitou aos gastos digitais. Ao discutir o endividamento das famílias, o presidente apontou mudanças profundas nos hábitos de consumo dos brasileiros. Entre os exemplos citados estava a relação com os animais de estimação. Lula lembrou que, no passado, cachorros eram alimentados com restos de comida e raramente recebiam cuidados especializados. Hoje, despesas com ração, banho, vacinação, consultas veterinárias, medicamentos e outros serviços passaram a ocupar espaço permanente no orçamento de milhões de famílias.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. O Brasil consolidou-se como o terceiro maior mercado pet do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China, movimentando cerca de R$ 77,96 bilhões por ano. Os gastos variam de acordo com a renda, mas alcançam todas as camadas sociais. Para milhões de famílias, o animal de estimação deixou de ser apenas um companheiro doméstico e passou a integrar um conjunto crescente de despesas consideradas indispensáveis.

Há poucos anos, grande parte das famílias concentrava seus gastos em categorias relativamente previsíveis. Alimentação, transporte, moradia, energia, água e alguns bens de consumo respondiam pela maior parte das despesas. Hoje, o orçamento precisa acomodar aplicativos de entrega, plataformas de streaming, marketplaces, assinaturas digitais, serviços financeiros online e uma sucessão de pequenas cobranças recorrentes que simplesmente não existiam para gerações anteriores.

A observação do presidente encontra um ponto de contato com as análises de Leonardo Leão. Em seus vídeos, o consultor argumenta que muitos empresários estão interpretando de forma equivocada as mudanças ocorridas no comportamento dos consumidores.

“O cliente que sumiu do teu bar não tá em casa passando aperto. Ele tá no supermercado comprando frango, comprando ovo, comprando sardinha enlatada e garrafa de água e tá indo na academia que abriu na esquina.”

A provocação resume uma tese mais ampla. Parte dos consumidores não desapareceu do mercado por falta de dinheiro. O que ocorreu foi uma reorganização das prioridades. Certos segmentos perderam participação no orçamento familiar enquanto outros passaram a absorver parcelas crescentes dos gastos.

Ao contrário do que se imagina, Leonardo Leão não baseia essa percepção apenas em impressões pessoais. Em seus vídeos, ele recorre a levantamentos de instituições de pesquisa e inteligência de mercado para sustentar a hipótese de que o Brasil atravessa uma transformação nos padrões de consumo.

Entre as referências utilizadas pelo consultor está um estudo da Scanntech, empresa especializada em inteligência de mercado do varejo alimentar, divulgado pela Folha de S.Paulo. O levantamento identificou mudanças significativas no carrinho de compras dos brasileiros entre 2022 e 2025. No período, o consumo de massa instantânea caiu 16%, o de açúcar recuou 14%, hambúrgueres tiveram queda de 11%, sucos prontos diminuíram 11%, margarinas registraram retração de 10%, biscoitos também caíram 10% e a cerveja apresentou redução entre 6% e 7%.

Na direção oposta, cresceram as vendas de água mineral, com avanço de 60%, frutas in natura, que aumentaram 33%, ovos, com crescimento de 24%, sardinha enlatada, que avançou 19%, queijos, com alta de 17%, e frango in natura, que registrou crescimento de 15%.

Para Leonardo Leão, os números revelam uma mudança que vai além das oscilações econômicas tradicionais. O consumidor continua preocupado com renda, inflação e emprego, mas uma parcela crescente da população passou a direcionar recursos para escolhas associadas à saúde, ao condicionamento físico e à qualidade de vida.

“Não é uma economia em queda, é um país em rearranjo.”

A formulação resume um aspecto importante do debate. Tanto setores da direita quanto parcelas da esquerda costumam interpretar a insatisfação social a partir de categorias construídas em décadas anteriores. Uns concluem que os indicadores econômicos não refletem a realidade. Outros atribuem a percepção negativa a falhas de comunicação governamental. Ambas as leituras tendem a pressupor que a população continua perseguindo exatamente os mesmos símbolos de prosperidade observados em outros períodos.

Durante muito tempo, ascensão social significava ampliar continuamente o consumo de bens. Mais carne, mais refeições fora de casa, mais produtos industrializados e mais itens associados ao conforto material. Esses fatores continuam importantes, mas já não ocupam sozinhos o centro das aspirações de parcelas significativas da sociedade.

O consumidor que emerge em 2026 permanece atento ao preço dos produtos, ao poder de compra e à estabilidade do emprego. Ao mesmo tempo, destina uma parcela crescente da renda para academias, alimentação proteica, prevenção de doenças, saúde mental, estética, suplementação alimentar e atividades relacionadas ao bem-estar.

Essa transformação ajuda a compreender por que o crescimento da renda nem sempre produz uma sensação proporcional de prosperidade. O universo de possibilidades de consumo tornou-se muito mais amplo. O mesmo orçamento familiar que antes era distribuído entre um número relativamente limitado de despesas passou a ser disputado por uma quantidade muito maior de produtos, serviços e experiências.

Outro conjunto de dados utilizado por Leonardo Leão vem do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O levantamento de março de 2026 apontou aumento do custo da cesta básica nas 27 capitais pesquisadas. O mesmo estudo calculou que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria alcançar R$ 7.425,99, valor equivalente a 4,58 vezes o salário mínimo vigente.

Os números ajudam a compreender uma das nuances mais interessantes da análise. A mudança dos hábitos de consumo não elimina a pressão inflacionária nem as dificuldades enfrentadas pelas famílias. O aumento do custo de vida continua sendo uma realidade. A questão levantada por Leonardo Leão é que essa pressão ocorre simultaneamente a uma reorganização das prioridades individuais, criando uma realidade mais complexa do que aquela sugerida pelas interpretações tradicionais.

Outra tese defendida pelo consultor envolve os medicamentos para perda de peso da classe GLP-1, como Ozempic e Mounjaro. Em suas análises, ele cita projeções da Bloomberg Intelligence para argumentar que esses produtos caminham para uma popularização crescente, deixando de ser um mercado restrito às faixas de renda mais elevadas.

Na avaliação de Leonardo Leão, os efeitos econômicos dessa transformação vão muito além da indústria farmacêutica. Academias, clínicas especializadas, nutricionistas, fabricantes de suplementos alimentares e marcas de vestuário poderiam ser diretamente beneficiados por esse movimento. “Quem usa perde peso, mas perde músculo junto.” O argumento encontra respaldo em reportagens e análises especializadas que apontam a necessidade de treinamento de força e suplementação proteica para parte dos usuários desses medicamentos.

“Caneta não mata a fome. Mata modelos de negócios inteiros.”

A frase ilustra a lógica presente em toda a sua análise. Mudanças de comportamento frequentemente produzem impactos econômicos mais profundos do que alterações conjunturais de curto prazo. Quando milhões de pessoas alteram simultaneamente seus hábitos de alimentação, lazer, saúde ou consumo, cadeias produtivas inteiras precisam se adaptar.

O interesse das análises de Leonardo Leão não está apenas em suas previsões sobre mercados específicos. Seu principal mérito consiste em chamar atenção para uma transformação mais ampla. Parte do debate público continua concentrada na pergunta sobre por que tantas pessoas permanecem insatisfeitas em um cenário de melhora de diversos indicadores econômicos.

A hipótese apresentada pelo consultor sugere que a resposta exige observar também as mudanças culturais que atravessam a sociedade brasileira. Renda, inflação, emprego e comunicação política continuam sendo variáveis fundamentais para compreender o país. Nenhuma delas perdeu importância.

O que parece estar em transformação é a forma como os indivíduos definem bem-estar, qualidade de vida e realização pessoal. Saúde, longevidade, aparência física, conveniência digital, cuidados com os animais de estimação e experiências passaram a ocupar um espaço que antes era preenchido quase exclusivamente pela aquisição de bens materiais.

O Brasil descrito por Lula em Anápolis e o Brasil observado por Leonardo Leão apontam para a mesma direção. Trata-se de uma sociedade em que o consumo se tornou mais fragmentado, mais digital, mais diversificado e mais difícil de interpretar por meio das categorias tradicionais. Muitos dos instrumentos utilizados para explicar o comportamento do consumidor foram construídos para um país que já não existe exatamente da mesma forma. Compreender essa transição pode ser uma das chaves para entender por que tantos brasileiros afirmam sentir dificuldades mesmo em um período de crescimento econômico e expansão da renda.