Professor analisa o início da campanha, prevê disputa decidida no primeiro turno e aponta contradição de Ciro Gomes ao buscar o eleitor de Lula enquanto mantém aliança com o bolsonarismo
Da Redação
Os primeiros atos da campanha eleitoral de 2026 já apresentaram ao eleitor duas propostas muito distintas para o país. De um lado, o Presidente Lula iniciou sua caminhada com um retorno simbólico à Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, associado à sua trajetória sindical e política. Do outro, Flávio Bolsonaro escolheu a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para reforçar a ligação com o eleitorado mobilizado por seu pai nos últimos anos.
A avaliação foi feita pelo professor Osmar de Sá Ponte durante o programa Democracia no Ar, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular na quarta-feira (19). Apresentada por Sara Goes, a edição examinou as primeiras atividades oficiais das candidaturas, a capacidade de mobilização nas ruas, os discursos adotados e os sinais iniciais da disputa presidencial e das eleições estaduais.
Para Osmar, a campanha começou com um ritmo intenso e com as principais narrativas já delimitadas. O Presidente Lula procura associar sua candidatura à defesa da soberania brasileira, à reconstrução de políticas sociais e à necessidade de uma atuação internacional independente. Flávio Bolsonaro, por sua vez, concentra seu discurso na segurança pública, na condição de candidato antissistema e na tentativa de se apresentar como vítima de ameaças.
“A campanha começou num alto nível, praticamente com o ritmo de como se estivesse do meio para o fim, muito organizada e com as narrativas muito definidas”, afirmou.
O professor considera que Lula chega à campanha com uma dimensão internacional maior do que a observada em eleições anteriores. A postura adotada diante dos Estados Unidos e a defesa de relações soberanas com outros países teriam ampliado sua projeção para além do eleitorado brasileiro.
“O Lula cresceu nesta campanha. Hoje ele se tornou uma referência para além do Brasil”, declarou.
Na avaliação de Osmar, essa posição pode ganhar força quando começar a propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A exposição das políticas implementadas pelo governo e a comparação entre os projetos presidenciais devem alcançar uma parcela do eleitorado que ainda não acompanha diariamente o debate político.
Esperança contra a política do medo
Osmar identificou na segurança pública o principal tema das candidaturas de direita. Segundo ele, a insistência na violência permite construir uma campanha baseada no medo e na angústia, sem que os candidatos precisem apresentar propostas mais amplas para o desenvolvimento do país.
“A oposição ao Presidente Lula é formada por figuras absolutamente monotemáticas, sem autoridade moral para criticar. O tema da extrema direita é a segurança porque remete ao medo, à angústia e à negatividade”, disse.
Para enfrentar esse discurso, o campo governista precisará apresentar uma perspectiva concreta de futuro. O professor defendeu uma mensagem capaz de relacionar soberania, geração de trabalho, redução das desigualdades e recuperação da confiança nas instituições públicas.
O desafio, em sua avaliação, é renovar a esperança em um período marcado por conflitos internacionais, juros elevados e insegurança econômica. Osmar reconheceu que essa responsabilidade recai com maior intensidade sobre a esquerda, pois é dela que uma parte significativa da população espera políticas de proteção social e melhoria das condições de vida.
“É necessário gerar e renovar as esperanças. Esse ônus da esquerda no Brasil é muito pesado, principalmente numa época de crise como esta”, observou.
O professor acredita que a apresentação dos resultados do governo pode ajudar o eleitor a identificar os interesses representados por cada candidatura. A campanha, contudo, não deve depender apenas de um balanço administrativo. Ela precisa oferecer uma proposta compreensível para os próximos anos.
Flávio Bolsonaro reforça imagem de vítima e candidato antissistema
O ato de Flávio Bolsonaro em Copacabana foi marcado por uma participação inferior à demonstrada em manifestações anteriores organizadas por seu pai no mesmo local. Durante a atividade, o candidato usou um colete à prova de balas e reforçou a narrativa de que estaria ameaçado.
Flávio também recebeu um cachorro e afirmou que pretende subir a rampa do Palácio do Planalto acompanhado do animal. O gesto procura reproduzir uma das imagens da posse de Lula em janeiro de 2023, quando a cadela Resistência participou da cerimônia.
A estratégia permite que o candidato bolsonarista se apresente como alvo de perseguição e como alguém enfrentando sozinho as instituições e os partidos tradicionais. A distância mantida por dirigentes do Centrão, em vez de ser tratada apenas como uma dificuldade política, passa a integrar essa narrativa.
Para Osmar, a direita trabalha com a fabricação de inimigos e com uma ideia particular de patriotismo, restrita àqueles que compartilham suas posições políticas e religiosas. O recurso produz uma divisão permanente entre brasileiros e transforma divergências em ameaças existenciais.
“A ideia de que eu estou com a verdade gera intolerância. Se eu estou com Deus, com a família e com a pátria, todos os outros que não forem iguais a mim precisam ser eliminados”, explicou.
O professor ressaltou que família, religião e patriotismo não pertencem a um único campo político. Quando esses valores são apropriados por uma candidatura como certificados exclusivos de superioridade moral, passam a ser utilizados para excluir brasileiros que professam outras religiões, possuem diferentes formações familiares ou divergem politicamente.
“Arvorar-se como único dono da verdade é, pela própria democracia, um ato contra a nação e contra a unidade nacional”, afirmou.
Ceará terá eleição com caráter plebiscitário
Na disputa pelo Governo do Ceará, Osmar avalia que o eleitor será chamado a escolher entre a continuidade do projeto iniciado durante os governos de Cid Gomes e aprofundado pelas gestões seguintes ou o retorno de Ciro Gomes ao comando estadual.
A candidatura à reeleição de Elmano de Freitas reúne uma frente formada pelo Presidente Lula, pelo ministro Camilo Santana, por Cid Gomes, Luizianne Lins e pela candidata a vice-governadora Gabriella Aguiar. Para o professor, essa composição representa uma das alianças mais amplas já construídas pelo grupo no estado.
“Eu acho que o Elmano vai ganhar a eleição e tudo indica que ela será definida no primeiro turno. Os outros candidatos são inexpressivos e esta eleição é um plebiscito”, declarou.
Osmar considera que a oposição começou a campanha com maior visibilidade porque Ciro Gomes está em movimentação eleitoral há vários meses. O ex-governador possui elevado conhecimento entre os cearenses, já disputou a Presidência da República e conserva uma base eleitoral consolidada.
Essa vantagem inicial, entretanto, não representaria necessariamente o resultado final. À medida que a campanha oficial avançar, o governador poderá apresentar as realizações de sua gestão, consolidar sua identificação com Lula e mobilizar a estrutura política formada em torno da candidatura.
A contradição de Ciro entre Lula e o bolsonarismo
Para Osmar, uma das principais fragilidades de Ciro Gomes é a tentativa de se apresentar como eleitor de Lula ao mesmo tempo em que reúne, no Ceará, partidos e lideranças ligados ao bolsonarismo.
O movimento procura alcançar uma parcela dos eleitores que vota em Lula para a Presidência, mas ainda não definiu a escolha para o governo estadual. A imagem publicada por Ivo Gomes, produzida com inteligência artificial, na qual Lula aparece ao lado de Ciro, foi interpretada no programa como parte dessa tentativa de associação.
“O candidato da oposição já está dizendo que é Ciro e Lula. Isso mostra uma fraqueza imensa, porque o lado dele não é esse lado”, afirmou Osmar.
O professor reconheceu que críticas ao governo federal podem existir dentro de uma frente democrática. A contradição apontada não estaria na divergência pontual com Lula, mas na aliança de Ciro com representantes de um campo que trabalha pela derrota do presidente.
“Ele está numa situação muito difícil porque precisa ser monotemático e ainda dizer que vai votar no Lula, estando Bolsonaro do seu lado. Que lugar inconveniente”, avaliou.
Na leitura do professor, o núcleo da campanha de Ciro permanece concentrado na segurança pública. A violência é apresentada como demonstração de fracasso generalizado do governo estadual, enquanto áreas como educação, saúde, infraestrutura e geração de empregos recebem menor atenção.
Osmar classificou essa abordagem como insuficiente para uma candidatura que pretende reassumir o comando do Ceará. Embora reconheça a trajetória e a capacidade política de Ciro, afirmou que sua campanha está limitada pela composição das alianças e pela necessidade de disputar o eleitorado bolsonarista.
Educação e saúde como patrimônio dos cearenses
O professor defendeu que a campanha de Elmano apresente os avanços obtidos nas políticas públicas sem abandonar o reconhecimento dos problemas que permanecem. Educação e saúde devem ocupar lugar central nesse balanço.
Osmar lembrou que, durante muitos anos, moradores do interior dependiam de ambulâncias para buscar atendimento de maior complexidade em Fortaleza. A interiorização dos serviços, a implantação de hospitais regionais e a ampliação da rede pública mudaram parte dessa realidade.
Na educação, ele destacou a cooperação entre o Governo do Ceará, as prefeituras, os profissionais das escolas, as famílias e as universidades. Essa pactuação contribuiu para melhorar a alfabetização e os indicadores educacionais do estado.
“O Ceará é hoje um modelo de educação pública. Isso faz parte do patrimônio do Ceará”, afirmou.
O professor mencionou a contribuição de Ivo Gomes para a formulação da política educacional, particularmente na construção do programa de alfabetização na idade certa. Por isso, considera que o apoio de Ivo a Lula, mesmo mantendo a preferência por Ciro no Ceará, revela a permanência de vínculos com políticas desenvolvidas pelo grupo governista.
Osmar advertiu, porém, que os resultados alcançados não encerram o debate. A expansão das escolas de tempo integral precisa ser acompanhada por uma discussão sobre qualidade, currículo e formação dos estudantes. Também será necessário ampliar as oportunidades profissionais para quem conclui o ensino médio, a universidade ou os cursos dos institutos federais.
“Nós temos que fazer com que esses alunos que terminam a universidade ou o Instituto Federal tenham trabalho aqui”, disse.
Para o professor, educação e saúde também funcionam como formas indiretas de complementação da renda. Famílias com baixos salários dependem de escolas e serviços médicos públicos para garantir direitos que não poderiam adquirir no mercado privado.
“Colocar os filhos em boas escolas públicas e ter atendimento de saúde universalizado é uma revolução muito importante na complementação da renda dos cearenses”, afirmou.
Pesquisas ainda captam um eleitorado indefinido
Osmar recomendou cautela na interpretação das pesquisas eleitorais divulgadas no começo da campanha. Levantamentos que apresentam Ciro Gomes à frente de Elmano ainda registram uma parcela muito elevada de entrevistados sem candidato definido.
Se aproximadamente metade do eleitorado permanece indecisa, explicou, os percentuais atribuídos aos candidatos representam escolhas feitas dentro de apenas uma parte da amostra. Ciro pode aparecer com vantagem entre os eleitores já posicionados, mas o cenário tende a mudar quando a campanha alcançar quem ainda não decidiu.
“Quando os lados se posicionarem, muda tudo”, resumiu.
O professor recordou que Elmano começou a eleição de 2022 com aproximadamente 3% das intenções de voto e terminou eleito no primeiro turno. Para ele, o caso demonstra a importância da campanha de rádio e televisão, das alianças e da identificação partidária no Ceará.
Osmar afirmou ainda que as pesquisas realizadas no início da disputa costumam ter uma capacidade menor de antecipar o resultado. O quadro fica mais consistente depois de alguns dias de propaganda eleitoral e da realização dos primeiros debates.
“Depois de dez ou 15 dias de programa de rádio e televisão, nós vamos ter uma medida mais clara do posicionamento da população”, projetou.
Em sua avaliação, começar a campanha em primeiro lugar não assegura a vitória. Candidatos muito conhecidos também possuem maior dificuldade para crescer, pois já foram avaliados por uma parcela considerável do eleitorado. Uma trajetória de crescimento contínuo pode ser mais importante do que uma liderança inicial sustentada principalmente pelo conhecimento do nome.
“O bom vitorioso começa com pouco e vai crescendo. Nunca recua. Isso significa que está construindo aceitação popular”, disse.
Pernambuco terá disputa mais difícil
Ao comentar a eleição de Pernambuco, Osmar avaliou que a governadora Raquel Lyra não deve ser subestimada na disputa com João Campos. Embora o prefeito do Recife tenha iniciado o processo como uma liderança popular e nacionalmente conhecida, a governadora conseguiu ampliar sua presença no interior e atrair votos da direita.
O professor destacou que Raquel conhece a tradição política do PSB, partido ao qual já foi filiada, e construiu uma imagem de gestora ativa. Sua história pessoal, a condição de mulher jovem e a perda do marido durante a campanha de 2022 também contribuem para a identificação de parte do eleitorado.
“A governadora é muito competente, conhece a política e tem uma capacidade de somar impressionante. Não vai ser uma eleição fácil”, analisou.
Como os dois candidatos apoiam Lula, a disputa pernambucana não reproduz integralmente a polarização nacional. A capacidade de Raquel de reunir setores conservadores sem adotar toda a retórica da extrema direita pode equilibrar a corrida contra João Campos.
Uma campanha rápida e decisiva
Osmar encerrou a entrevista manifestando confiança na vitória de Elmano, mas advertiu que o resultado dependerá da participação política e da capacidade de apresentar um projeto estadual para além da administração cotidiana.
A campanha governista deverá reconhecer limitações, propor avanços e mostrar os riscos de uma mudança conduzida por uma coalizão que inclui forças bolsonaristas. O discurso, segundo ele, não deve afirmar que todos os problemas estão resolvidos, mas sustentar que as políticas em curso precisam ser aperfeiçoadas.
“Mudamos, não o suficiente. Precisamos continuar mudando, mas retorno e regresso jamais. O Ceará não pode voltar a ser governado por quem não tem compromisso com a população”, declarou.
Na avaliação do professor, as próximas semanas definirão a disputa. A propaganda eleitoral, a presença dos candidatos nas ruas e a capacidade de mobilizar os indecisos serão determinantes para confirmar ou alterar o cenário apresentado pelas primeiras pesquisas.
“Eu estou muito esperançoso com o Ceará porque esta será uma campanha rápida. Acredito que ela será decidida no primeiro turno, durante as semanas que se avizinham”, concluiu.
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