Pesquisador analisa a construção da soberania digital chinesa, defende transferência de tecnologia nas parcerias com o Brasil e alerta para a dependência de plataformas e sistemas estrangeiros
Da Redação
A soberania digital deixou de ser um debate restrito à tecnologia. Para o pesquisador Marcello Azevedo, o controle sobre dados, infraestrutura computacional, sistemas financeiros e capacidade industrial tornou-se uma condição para que um país preserve sua autonomia política e econômica. No caso da China, esse domínio resulta de décadas de planejamento estatal, financiamento público e formação de profissionais qualificados.
A avaliação foi apresentada durante o programa Trilhas da Soberania, produzido em parceria pelos canais TV Código Aberto, Rede Lawfare Nunca Mais, Rádio e TV Atitude Popular, Satélite de Ideias, Canal do Jorge Folena, Pensando o Brasil e o Mundo e TV Travessia. A edição contou com comentários de Ludmila Cindra, Reynaldo Aragon, Luís Delcides e Ricardo Silveira.
Geógrafo, doutor em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pós-doutorando em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Azevedo pesquisa o desenvolvimento chinês e o sistema financeiro do país. Ele é autor de As finanças do dragão: o sistema financeiro chinês, lançado em 2024, e Águas de China: a modernização chinesa, publicado em 2026.
Segundo o pesquisador, o primeiro livro acompanha a transformação do sistema financeiro chinês desde o início da política de reforma e abertura. Em cerca de quatro décadas, a China construiu instituições que passaram a ocupar as primeiras posições mundiais em ativos.
“Os quatro maiores bancos do mundo por ativos totais são bancos chineses hoje. Bancos que não existiam há 45 anos”, afirmou.
O segundo livro examina o atual modelo de desenvolvimento chinês, relacionando financiamento público, modernização produtiva e transição ecológica. O título parte da associação entre água e finanças no pensamento chinês, segundo a qual os recursos precisam alcançar diferentes regiões para permitir que a prosperidade se espalhe.
“A China não é só economia e política. A China é uma sociedade que merece ser estudada”, disse Azevedo.
Tecnologia como instrumento de soberania
Durante a entrevista, o pesquisador destacou o lançamento da inteligência artificial DeepSeek como um marco da expansão tecnológica chinesa. Entre as características ressaltadas estão o código aberto e a possibilidade de funcionamento em equipamentos menos avançados, o que amplia o acesso à tecnologia em países da África, da América Latina e do Oriente Médio.
Para Azevedo, esse modelo desafia a tentativa de concentração da inteligência artificial em poucas corporações ocidentais. Também permite que países com menor capacidade financeira utilizem sistemas avançados sem depender integralmente das principais empresas dos Estados Unidos.
“O domínio da tecnologia é estratégico no mundo de hoje. Os chineses têm muito a nos oferecer e nós temos muito a aprender com eles”, afirmou.
Ele relacionou esse avanço ao volume de financiamento destinado à pesquisa, à indústria e à formação científica. A política chinesa, segundo o pesquisador, envolve desde a produção de chips até o desenvolvimento das máquinas utilizadas para fabricá-los, reduzindo a exposição do país a bloqueios comerciais e restrições de patentes.
A China também investe na expansão internacional de sua capacidade tecnológica por meio da Iniciativa Cinturão e Rota. Conforme Azevedo, o programa financiou aproximadamente 3 mil projetos em cerca de 150 países ao longo dos últimos anos, com investimentos que alcançam diferentes setores.
O Brasil, na avaliação dele, pode aproveitar a cooperação com empresas e instituições chinesas para diversificar fornecedores, absorver conhecimento e reduzir sua dependência dos Estados Unidos. Essa aproximação, porém, precisa incluir condições que favoreçam a indústria e os trabalhadores brasileiros.
“Nós queremos os trens chineses, queremos os trilhos chineses. Legal. Mas eu quero transferência de tecnologia. Eu quero que os empregados sejam brasileiros”, declarou.
Dados e plataformas estrangeiras
A dependência brasileira das plataformas digitais estadunidenses também foi discutida no programa. Serviços de comunicação, armazenamento, publicidade, edição de imagens e circulação de conteúdos são controlados majoritariamente por empresas estrangeiras, que coletam informações produzidas pelos usuários brasileiros e as transformam em ativos comerciais.
Azevedo argumentou que a política chinesa de controle das plataformas deve ser compreendida como uma estratégia de proteção dos dados nacionais. O país desenvolveu redes próprias, impôs restrições a determinados serviços e estabeleceu regras para a atuação de empresas digitais.
“Regular a rede social não é censura, é proteção da sociedade”, afirmou.
Na avaliação do pesquisador, o Estado brasileiro ainda não possui capacidade tecnológica semelhante à chinesa, mas precisa estabelecer limites para a utilização de dados e para a atuação de plataformas estrangeiras. Ele chamou atenção, em especial, para a influência desses sistemas sobre processos eleitorais e disputas políticas.
A circulação de desinformação, a interferência algorítmica e a concentração dos canais de comunicação representam riscos adicionais em períodos eleitorais. Para Azevedo, o país deve avançar na regulação das empresas e no desenvolvimento de tecnologias nacionais de proteção.
Terras raras exigem política de Estado
A exploração de terras raras, minerais fundamentais para a indústria tecnológica, foi outro ponto abordado. China e Estados Unidos disputam reservas e contratos internacionais para garantir o fornecimento desses materiais, utilizados em equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa, veículos elétricos e tecnologias de energia renovável.
Azevedo reconheceu que essa competição faz parte da disputa internacional por influência econômica e tecnológica. No caso brasileiro, defendeu que a exploração dos minerais não seja conduzida apenas segundo os interesses das empresas privadas.
“O Brasil tem que ter claro que é um recurso estratégico. Não pode ficar na mão da empresa privada. Tem que ser política de Estado”, afirmou.
O pesquisador lembrou que a China passou a adotar, a partir de 2021, restrições e critérios ambientais mais rigorosos para diversos setores. Os bancos e órgãos públicos chineses também estabeleceram períodos de adaptação para atividades consideradas poluentes.
Nos investimentos realizados em outros países, entretanto, as exigências podem variar de acordo com as leis locais. A proteção dos recursos brasileiros, portanto, não pode ser transferida ao investidor estrangeiro. Depende de regulamentação nacional, fiscalização pública e definição das condições de transferência de conhecimento.
Sistemas financeiros fora do dólar
A soberania digital chinesa também alcança o setor financeiro. Azevedo explicou que o predomínio internacional do dólar permitiu aos Estados Unidos controlar parte significativa das transações comerciais e das reservas mantidas por outros países.
Esse poder passou a ser questionado quando sanções, bloqueios e confiscos começaram a ser utilizados contra governos adversários de Washington. China, Rússia e outros países intensificaram acordos para realizar pagamentos diretamente em suas moedas nacionais.
Um dos instrumentos dessa mudança é o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China, conhecido pela sigla CIPS. A plataforma oferece uma alternativa ao Swift, utilizado durante décadas como principal sistema para operações financeiras internacionais.
Segundo Azevedo, a ampliação de transações em renminbi, euro e outras moedas reduz a necessidade de converter pagamentos para o dólar. O pesquisador citou acordos entre bancos centrais e a possibilidade de integração entre sistemas nacionais de pagamento como sinais de uma transformação gradual.
“A tecnologia financeira chinesa vai suplantar a tecnologia financeira estadunidense. Cada vez mais os países vão poder transacionar em suas moedas nacionais”, avaliou.
Ele ponderou que os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica, tecnológica e militar. Por isso, a substituição do dólar não ocorreria de maneira imediata. O cenário indicado é de perda progressiva da exclusividade norte-americana e aumento da participação de outras moedas.
Planejamento e segurança energética
A expansão tecnológica chinesa foi acompanhada por uma estratégia de segurança energética iniciada há quase duas décadas. A China ampliou investimentos em energia renovável, eletrificou parte de seus sistemas de transporte e diversificou os países fornecedores de petróleo e gás.
Ao mesmo tempo, o governo acumulou reservas e fortaleceu as relações comerciais com Rússia, países africanos, produtores do Oriente Médio e Brasil. Essa combinação permite reduzir os efeitos de interrupções provocadas por guerras, sanções ou bloqueios de rotas comerciais.
“A China está se preparando para o cenário mais adverso possível”, afirmou Azevedo.
O pesquisador explicou que a transição energética chinesa não nasceu apenas de preocupações ambientais. A dependência de petróleo importado também representa uma vulnerabilidade estratégica. A ampliação das ferrovias, dos veículos elétricos e de outras formas de transporte movidas a eletricidade contribui para diminuir essa exposição.
Para Azevedo, o resultado atual decorre de decisões tomadas em sucessivos planos quinquenais. A estabilidade do planejamento permite que o país mantenha investimentos mesmo em períodos de crise internacional.
O desafio brasileiro
Questionado sobre a possibilidade de o Brasil adotar uma política semelhante, Azevedo afirmou que o país precisa recuperar a capacidade de planejar seu desenvolvimento. Isso exige uma maioria política capaz de definir prioridades nacionais e sustentar investimentos de longo prazo.
O pesquisador observou que o planejamento econômico não é uma experiência estranha ao Brasil. Os planos nacionais de desenvolvimento adotados no século XX contribuíram para a ampliação da indústria e da infraestrutura, embora tenham ocorrido durante a ditadura militar e sob condições políticas autoritárias.
Atualmente, a concentração de recursos no setor financeiro, o peso dos interesses exportadores e as dificuldades de articulação no Congresso limitam projetos de maior alcance. Para Azevedo, o país precisa decidir se pretende permanecer dependente da exportação de produtos primários ou recuperar sua capacidade industrial.
“Nenhum país do mundo se desenvolve a partir do agronegócio. A gente tem que ter capacidade de construir um projeto nacional de desenvolvimento”, declarou.
Nesse projeto, a cooperação com a China pode ter papel relevante, desde que o Brasil estabeleça suas próprias condições. A compra de equipamentos, sistemas digitais, veículos e componentes não seria suficiente para assegurar autonomia. O objetivo precisa incluir pesquisa nacional, produção local, formação profissional e transferência de tecnologia.
Ao encerrar a participação, Azevedo defendeu que o conhecimento produzido nas universidades chegue a espaços mais amplos da sociedade.
“Acho que a gente tem uma falta de debate de ideias neste país. Quero debater ideias. Concorda, não concorda, mas debata”, afirmou.
Referências citadas
As finanças do dragão: o sistema financeiro chinês, de Marcello Azevedo
Águas de China: a modernização chinesa, de Marcello Azevedo
Dicionário do socialismo com características chinesas, obra coletiva com participação de Marcello Azevedo
Obra sobre revoluções coloridas e guerras híbridas, de Andrew Korybko
Paulo Freire
Antonio Gramsci
John Maynard Keynes
Inácio Rangel
Celso Furtado
Caio Prado Júnior
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