Para Adalberto Alencar, conferência avança no financiamento climático, mas deixa o planeta no rumo de mais secas, enchentes e injustiça social
A COP 30, conferência do clima da ONU realizada em Belém do Pará, terminou com um misto de avanços parciais e frustrações profundas. Na avaliação do economista Adalberto Alencar, presidente da Fundação Cepema, houve sinalizações importantes no financiamento para adaptação climática, mas o encontro fracassou justamente no ponto mais urgente: um plano concreto para reduzir o uso de combustíveis fósseis nos próximos anos.
As declarações foram dadas em entrevista ao Programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, que discutiu com o convidado os principais resultados da conferência e seus impactos para o Brasil, em especial para o semiárido nordestino.
“O fracasso da COP 30 é que ela não amarrou os compromissos de redução de carbono para os próximos anos”, resume Adalberto.
Financiamento climático: avanço no papel, atraso na vida real
Um dos pontos considerados positivos por Adalberto foi o acordo em torno de um aumento do volume de recursos internacionais destinados à transição climática e à adaptação dos países em desenvolvimento. Segundo ele, foi estabelecida a meta de 120 bilhões de dólares por ano, com vigência até 2035.
Mas o avanço vem com dois asteriscos: o atraso e a incerteza.
Adalberto lembra que, segundo cientistas e ambientalistas, o dinheiro deveria estar chegando “ontem” aos países mais vulneráveis.
Ele aponta três problemas centrais:
os recursos chegam tarde, estendidos até 2035
não há garantias sobre o que será realmente implementado
falta clareza sobre quem paga mais, quem paga menos e como o dinheiro chegará “na ponta”, até agricultores, comunidades tradicionais e cidades mais vulneráveis
“Em termos de contas a gastar, nós já temos uma boa métrica há muitos anos. A dificuldade é a liberação desses recursos e a forma como eles serão liberados”, critica.
Brasil: potência ambiental em risco, com a Caatinga na linha de frente
No caso brasileiro, Adalberto destaca a contradição entre o papel estratégico dos biomas nacionais e a falta de políticas robustas. Ele lembra que 92% do território do Ceará é Caatinga e chama atenção para o papel desse bioma no equilíbrio climático:
“Entre 2016 e 2023, a Caatinga sequestrou 50% de todo o carbono do Brasil”, afirma.
Mesmo assim, o bioma sofre com desmatamento, queimadas e ausência de investimentos em ciência, tecnologia e políticas de transição energética e produtiva para o semiárido.
Segundo ele, a Caatinga é um dos biomas mais eficientes do planeta em sequestro de carbono, mas continua tratada como periferia do debate ambiental e climático.
Transporte, tarifa zero e injustiça climática nas cidades
Ao comentar o desafio das grandes emissões urbanas, Adalberto cita o exemplo de Fortaleza, onde a maior parte das emissões vem do transporte público a diesel e da frota de carros e motos particulares.
Ele defende uma estratégia que conecte transição energética, tarifa zero no transporte público e justiça social:
migração para ônibus elétricos e energias renováveis
financiamento público que permita tarifa zero nas grandes cidades
incentivo para que as pessoas deixem o carro e a moto e passem a usar transporte coletivo de qualidade
Hoje, argumenta, o modelo empurra o trabalhador pobre para a moto:
“É uma transição que não é justa. A pessoa é obrigada a financiar uma moto porque o transporte público é caro, ruim, demorado e inseguro. A moto polui mais e coloca em risco a vida desse trabalhador e de outras pessoas”, analisa.
“A crise climática é sintoma de um problema maior: o consumo excessivo”
Num dos momentos mais didáticos da entrevista, Adalberto lembra o pensamento de Nicholas Georgescu-Roegen, economista que, nos anos 1970, já alertava para a impossibilidade de crescimento econômico infinito em um planeta finito.
Adalberto aproxima essa crítica da leitura marxista sobre a circulação de mercadorias e sintetiza o nó central:
“A crise climática é apenas um sintoma de um problema maior: o consumo excessivo.”
Camisas, óculos, celulares, embalagens, modas rápidas: cada produto é transformação de matéria e energia, com impacto cumulativo nos recursos naturais. Não se trata de uma necessidade real da sociedade, mas da lógica de acumulação do capitalismo, que exige vender cada vez mais, produzir cada vez mais e, portanto, esgotar cada vez mais o planeta.
“Essa conta literalmente não fecha. O planeta é finito”, adverte.
O exemplo do Uruguai e os limites da transição “tecnocrática”
Questionado sobre reportagens que apontam o Uruguai como exemplo de transição energética sustentável — com mais de 99% da eletricidade gerada por fontes renováveis —, Adalberto reconhece a importância do modelo, mas faz alertas.
Ele lembra que o país é pequeno, tem características demográficas específicas e enfrenta problemas internos de desemprego, concentração de renda e aumento da fome. Para ele, o Uruguai é uma inspiração, não um modelo pronto para ser copiado.
A chave, repete, é combinar transição energética com justiça social e ambiental, de forma a beneficiar a maioria da população, e não apenas uma camada de renda mais alta.
Semiárido e água: a bomba-relógio invisível
Quando o assunto é o Nordeste, Adalberto não hesita: a crise hídrica é o ponto mais grave e subestimado.
Ele lembra que:
há municípios cearenses que há décadas dependem de carro-pipa
ligações clandestinas e desigualdades de acesso à água são regra nas periferias urbanas
a irrigação consome cerca de 70% da água em regiões como Iguatu
nascentes seguem sendo destruídas sem uma política de recuperação em escala
Ao mesmo tempo, o estado aposta na expansão da agricultura irrigada e atrai empreendimentos altamente intensivos em água, como o data center do TikTok, sem avaliar com seriedade a capacidade hídrica do território.
“Estamos exportando água que nos falta”, alerta, ao lembrar que o Ceará é o maior exportador de água de coco do país e que um pé de coqueiro pode consumir cerca de 200 litros de água por dia.
Transição energética: quem ganha e quem perde?
No debate sobre energias renováveis, Adalberto destaca as contradições da transição em curso: parques eólicos e usinas solares se multiplicam em territórios de comunidades tradicionais, pescadores, quilombolas e indígenas, mas os maiores beneficiados são grandes grupos econômicos.
Essa transição, avisa, não pode ser apenas tecnológica. Precisa ser justa, garantindo:
participação das comunidades na tomada de decisão
repartição dos benefícios
proteção contra impactos ambientais e sociais, como escassez de água e perda de território
Daí a importância do mecanismo de transição justa global discutido na COP, que deveria garantir que a mudança na matriz energética não reproduza, em novo formato, as mesmas injustiças de sempre.
Mobilização social: o grande saldo político da COP 30
Apesar das críticas ao resultado final, Adalberto vê um ponto altamente positivo na COP 30: a força da mobilização social.
Ele destaca a presença massiva de povos indígenas, comunidades tradicionais, camponeses, mulheres e jovens, que enfrentaram custos altos de hospedagem, passagens e logística para participar das atividades oficiais e paralelas em Belém.
Para o presidente da Fundação Cepema, essa presença é decisiva para pressionar governos e empresas, manter viva a agenda da justiça climática e recolocar no centro do debate as pessoas que mais sofrem os impactos da crise ambiental.
“Nós ainda temos comunidades rurais que não têm uma torneira em casa para abrir. A prioridade de qualquer política climática séria deveria ser garantir água, moradia, alimentação e dignidade para quem mais precisa”, pontua.
COP 30: avanço tímido, relógio climático correndo
Ao final da conversa, Adalberto faz um balanço duro da conferência:
houve avanço nas promessas de financiamento
houve construção de mecanismos conceituais de transição justa
mas os países ricos bloquearam o principal passo: um calendário concreto de redução do uso de combustíveis fósseis
A recusa de potências como Estados Unidos e China em assumir metas vinculantes significa, na visão dele, que o planeta continuará aquecendo, com ciclos cada vez mais extremos de secas e enchentes, como já se vê em Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e no Nordeste.
“Depois de uma destruição como a do Rio Grande do Sul, a conta é impagável. Leva décadas para se recuperar. E o pior: custa vidas humanas”, alerta.
Entre financiamento atrasado, promessas vagas e interesses econômicos resistentes, a COP 30 saiu de Belém deixando uma mensagem contraditória. Há caminhos possíveis, conhecimento acumulado e propostas viáveis. Falta, como insiste Adalberto, algo que não se resolve com tecnologia nem com retórica diplomática: vontade política para enfrentar o consumo excessivo, o poder dos fósseis e a desigualdade estrutural que marca o planeta.
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