Atitude Popular

“A autonomia econômica das mulheres é fundamental para reduzir as desigualdades”

Como a economia solidária enfrenta a desigualdade de gênero, disputa recursos com o capitalismo verde e tenta manter de pé experiências que preservam o território e garantem renda digna

Os Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) nasceram da tentativa de produzir e comercializar sem repetir a lógica predatória do capitalismo tradicional. São cooperativas, associações, grupos de base que insistem em combinar renda, preservação ambiental, democracia interna e fortalecimento comunitário. Na prática, porém, manter essas experiências vivas significa enfrentar burocracia, falta de crédito, ausência de políticas públicas e um mercado desenhado para premiar quem concentra riqueza.

Foi para falar desses desafios que o programa Bancos da Democracia, da TV e Rádio Atitude Popular, apresentado por Sara Goes, recebeu nesta segunda-feira (8) três mulheres que vivem a economia solidária no cotidiano: Josiane Amorim, presidenta da Cooperativa Grande Sertão (MG), Luciene Rodrigues, economista e conselheira do Conselho Estadual de Economia Solidária de Minas Gerais, e Gercina Araújo, coordenadora estadual do Programa de Formação Paul Singer, em Belém (PA). Ao longo de quase uma hora, elas costuraram um mapa do que significa sustentar outra economia em um país que ainda organiza sua prioridade em torno do lucro.

Logo na abertura, Sara lembrou que o discurso da sustentabilidade foi capturado pelo marketing das grandes corporações. Contou que assistia a um desenho em que o vilão defendia “a economia verde” e completava: “quando eu digo verde, é verde de dinheiro”. A provocação serviu de gancho para situar a economia solidária como um contraponto: “Eu sempre falo, economia solidária é talvez o movimento mais revolucionário que a gente tenha visto aqui nesse país nos últimos anos”, avaliou a apresentadora, reforçando o caráter estratégico desse campo para enfrentar desigualdades, especialmente de gênero.

Do sonho coletivo à cooperativa que preserva o cerrado

Ao falar da experiência do norte de Minas, Luciene Rodrigues lembrou que, muito antes de aparecer nos discursos oficiais, a ideia de “economia e vida” já animava experiências de base. Ainda em 2010, na esteira da Campanha da Fraternidade sobre “Economia e Vida”, pesquisadores e militantes começaram a mapear empreendimentos de economia solidária, suas tipologias e dificuldades. Desse ambiente, articulado ao trabalho do Centro de Agricultura Alternativa (CAA), nasceu a Cooperativa Grande Sertão.

“Foi um sonho coletivo iniciado em 1995, que se concretiza em 2003 com a criação da cooperativa”, explicou Luciene. O CAA trabalhava com agricultores familiares e agroextrativistas do cerrado, incentivando a preservação do bioma e a substituição da queima para carvão por práticas sustentáveis. Faltava, porém, um elo: o espaço para comercializar os produtos com valor agregado e garantir renda para as famílias.

Esse vazio foi preenchido pela Grande Sertão, que organiza a venda de frutas nativas, óleos, polpas e derivados, além de articular o Empório do Sertão, um espaço no centro da cidade, em um casarão antigo, pensado para unir cultura, alimentação saudável e comercialização de produtos da sociobiodiversidade. “A base do princípio é comida de verdade, a preço justo, saudável e ligada a uma rede social de agricultores familiares”, resumiu Luciene.

A cooperativa é, como define Josiane Amorim, “filha do CAA” e fruto direto da luta contra a lógica do desmatamento: “Diante do trabalho do CAA, os pequenos agricultores tinham os produtos do cerrado, mas a cultura era fazer carvão, desmatar. Com a conscientização, era preciso ter um local de venda. A cooperativa vem para fomentar esses produtos, agregar valor para os agricultores familiares e conservar o meio ambiente, que é o bem viver na casa comum”.

Burocracia, impostos e o jogo desigual com as grandes empresas

Se o discurso dominante fala em “empreendedorismo” e “economia verde”, a realidade da economia solidária expõe o abismo entre slogan e prática. Josiane relatou que, mesmo após 22 anos de atuação, a cooperativa segue enfrentando uma estrutura tributária que a trata como se fosse uma empresa qualquer:

“Hoje a gente tá no Distrito Industrial, em Montes Claros, onde tem várias empresas grandes. Todas tiveram incentivo do governo, ganharam terreno, isenção por um tempo. A cooperativa é o único empreendimento que não tem nenhum incentivo. A gente faz malabarismo para fechar as contas no final do mês”, contou.

Ela explicou que, embora seja uma cooperativa, a Grande Sertão precisa lidar com a mesma burocracia sanitária, com custos elevados, e com regimes tributários desenhados para outro tipo de negócio. A sobrevivência depende de políticas públicas específicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que permite comercializar sem pagar impostos e se tornou fundamental para manter as contas em dia.

Mas mesmo quando existe ferramenta no papel, a implementação emperra na porta do banco ou na mesa do gerente. Josiane citou o exemplo dos “canteiros produtivos”, política conquistada na Marcha das Margaridas para que mulheres acessem crédito rural com juros diferenciados e subsídio. Na hora de executar, esbarra na ignorância institucional: “Quando a gente chega no gerente do banco, ele não conhece a política. A cooperativa é cliente há mais de 20 anos e só conseguiu um capital de giro em condições melhores há cerca de dois anos, porque o banco não entendia que produtos da biodiversidade geram renda”.

O resultado é um cenário em que agricultores, em especial agricultoras, precisam provar cotidianamente que extrativismo, agroecologia e pequenos “terreiros produtivos” são, sim, economia que sustenta famílias e preserva o território.

Pará: leis no papel, resistência na prática

Enquanto Josiane falava do norte de Minas, Gercina Araújo traçava um quadro parecido na Amazônia. Coordenadora do Programa de Formação Paul Singer em Belém e integrante da executiva do Fórum Paraense de Economia Solidária, ela lembrou que o Pará acumula conquistas formais, como leis estadual e municipal, e um histórico de mobilização desde 2005.

Na prática, porém, essas leis seguem engavetadas. “A gente conseguiu viabilizar lei estadual, lei municipal, mas não foi implementado. Isso causa transtorno para os empreendimentos. Falta reconhecimento do governo e da sociedade”, criticou.

Gercina descreveu uma realidade de grupos de catadores, redes de mulheres, hortas urbanas, quintais produtivos e experiências de agricultura urbana invisibilizadas. Muitas mulheres trabalham em empreendimentos precarizados, com maquinário próprio ou doado, sem acesso a linhas de crédito que permitam ampliar a produção.

“Eu sempre digo que a gente faz o dever de casa enquanto movimento, mas não há sensibilidade dos governos locais”, resumiu. Ela lembrou que o governo federal já homologou uma lei nacional, ainda pendente de implementação plena, e que a expectativa é de que isso pressione estados e municípios a criarem conselhos, reconhecerem cadastros e abrirem caminhos para que a economia solidária deixe de ser tolerada apenas como resistência e passe a ser tratada como política estruturante.

Sustentabilidade econômica é mais que fechar a conta

No debate, Luciene procurou também sistematizar o que significa “sustentabilidade” quando se fala de empreendimentos solidários. Não basta olhar para planilhas de lucro, mas também não é possível ignorar a dimensão econômica em nome apenas do discurso social.

Ela propôs perguntas que podem orientar diagnósticos: o empreendimento conseguiu investir em infraestrutura, equipamentos, matéria-prima ou qualidade do produto nos últimos 12 meses? Tem acesso a crédito ou depende exclusivamente de recursos dos próprios associados? A renda gerada é principal ou complementar? As sobras são usadas para reinvestimento, assistência técnica, apoio a outros grupos ou simplesmente repartidas?

Esse olhar é fundamental, segundo a economista, para medir grau de autonomia e dependência em relação ao Estado, às agências de financiamento ou a projetos pontuais. E para evitar um desequilíbrio frequente: “Alguns empreendimentos tendem a dedicar muito ao social e deixam de lado a parte econômica. Outros fazem o inverso, concentram tudo na eficiência econômica e se descuidam da dinâmica social. Conseguir equilíbrio entre o social e o desempenho econômico é realmente um desafio, assim como manter a união do grupo, a consciência política e ambiental”.

Economia solidária, feminismo e a luta contra o feminicídio

Em vários momentos da conversa, a agenda de gênero entrou no centro do debate. Desde as primeiras mensagens no chat, ouvintes lembravam que a economia solidária é fortemente protagonizada por mulheres. Sara conectou a pauta ao noticiário recente de feminicídios brutais e à marcha nacional contra a violência, que levou multidões às ruas no fim de semana.

Para ela, qualquer política que fortaleça a economia solidária é também uma ferramenta de enfrentamento ao feminicídio: a renda própria ajuda a construir uma “porta de saída” para relações abusivas, ainda que a violência não se resuma à dependência econômica.

Luciene aprofundou essa conexão ao aproximar a economia solidária da economia feminista. “As bases, os princípios são os mesmos, é uma economia substantiva, baseada nas necessidades das pessoas, na vida, na reprodução ampliada da vida”, explicou. E foi categórica ao dizer que “a autonomia econômica das mulheres é fundamental para reduzir as desigualdades, porque o feminicídio, a violência de gênero, é o extremo das desigualdades”.

Ela insistiu que autonomia econômica vai além do dinheiro no bolso: envolve propriedade, poder de decisão sobre os recursos, capacidade de definir prioridades. “É ter os recursos e o poder de decisão sobre eles, ter a posse e a propriedade”, reforçou.

Gercina, por sua vez, lembrou que integra a Rede de Economia Solidária e Feminista, presente em 17 estados, e que, na prática, muitas mulheres chegam à economia popular e solidária porque não têm outra porta de entrada no mundo do trabalho. São mães solo, chefes de família, que puxam carrinho, criança e mercadoria ao mesmo tempo para “ganhar o pão do dia a dia”.

“A economia feminista vem qualificando a economia solidária”, disse ela, ao mostrar como a pauta de gênero tensiona o próprio movimento a olhar para quem cuida, quem trabalha sem remuneração, quem acumula jornada doméstica, comunitária e produtiva.

Empoderamento, saúde mental e pertencimento

Ao falar das cooperadas da Grande Sertão, Josiane trouxe outro ponto de atenção: não basta garantir acesso a crédito ou formalizar grupos, é preciso cuidar da saúde mental e do reconhecimento simbólico das mulheres.

Ela contou que muitas agricultoras do cerrado desempenham inúmeras funções produtivas, mas não se veem como trabalhadoras com renda própria. “Às vezes você chega em uma casa onde a mulher desempenha várias funções, mas ela não entende que aquilo é uma renda. A gente precisa trabalhar esse psicológico do pertencimento. Se ela contribui para que o marido saia de casa e trabalhe, essa renda também é dela, ela tem direito de opinar e decidir”, explicou.

Ao mesmo tempo, Josiane alertou para o risco de sobrecarga: em um mundo em que as tarefas domésticas e de cuidado seguem concentradas nas mulheres, ampliar responsabilidades produtivas sem divisão de trabalho pode adoecer. “A gente precisa ter o cuidado de trabalhar o financeiro sem sobrecarregar essas mulheres, para que elas não se tornem adoecidas, estressadas e sem conseguir viver bem”, resumiu.

Entre o capital verde e a outra economia possível

Do norte de Minas ao Pará, passando pelas periferias urbanas e pelos territórios rurais, a fotografia apresentada no Bancos da Democracia é dura: falta assistência técnica, falta crédito adequado, sobram barreiras burocráticas e resistência política na hora de implementar leis conquistadas com muita luta.

Ao mesmo tempo, as experiências relatadas por Josiane, Luciene e Gercina mostram que a economia solidária segue inventando caminhos: cria cooperativas que conservam o cerrado, redes de artesanato que sustentam mães solo, hortas urbanas em quintais produtivos, empórios que servem “comida de verdade” e conectam campo e cidade.

Enquanto o capitalismo pinta de verde seus lucros, esses empreendimentos insistem em colorir de vida a economia. Para que sigam de pé, não basta celebrar sua capacidade de “dar olé” no sistema: é preciso que políticas públicas, marcos legais e instituições financeiras reconheçam que, ali, não se trata de um nicho assistencial, mas de um projeto consistente de desenvolvimento com justiça social, igualdade de gênero e cuidado com o território.

Como resumiu Gercina, ao falar da longa batalha por reconhecimento no Pará, a luta é “por outra economia”. E, como lembrou Luciene, essa luta só será completa quando a autonomia econômica das mulheres deixar de ser exceção heroica e se tornar regra em um país que ainda naturaliza tantas violências.


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