Ao lado de Zuleide Queiroz, deputado discute disputa pelo Congresso, soberania nacional, direitos das mulheres e representação política da classe trabalhadora
Da Redação
As eleições de 2026 decidirão mais do que a ocupação de cargos nos governos e nos parlamentos. Para Renato Roseno e Zuleide Queiroz, o processo eleitoral colocará em confronto projetos opostos para o Brasil, com consequências sobre a democracia, a soberania nacional, a distribuição de renda, os direitos trabalhistas e a proteção ambiental.
Os dois participaram do programa Eleições 2026 em Debate, uma realização da Atitude Popular e do Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará, com apoio do Sindipetro CE/PI e apresentação de Sousa Júnior. Nesta edição, o programa discutiu o que defendem os candidatos e as candidatas comprometidos com os interesses dos trabalhadores.
Advogado e servidor público federal, Renato Roseno exerce seu terceiro mandato como deputado estadual pelo PSOL e disputa uma vaga na Câmara dos Deputados. Pedagoga, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará, Zuleide Queiroz é professora da Universidade Regional do Cariri e da Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte. Ex-secretária de Direitos Humanos do Crato, ela concorre a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Ceará.
Da militância à disputa institucional
Zuleide iniciou sua participação recuperando a trajetória construída nos movimentos estudantil, sindical, negro e de mulheres. Nascida em Fortaleza, ela vive há mais de 30 anos no Cariri, onde ingressou na Universidade Regional do Cariri por meio do primeiro concurso público da instituição e ajudou a organizar a categoria docente.
A decisão de disputar a Assembleia Legislativa, explicou, está vinculada à necessidade de levar para o Estado pautas desenvolvidas durante décadas de militância social e atuação acadêmica.
“Nós somos aqueles e aquelas militantes que nascem da luta e que compreendem que agora é hora de dar um passo, que é garantir a política pública”
Para Zuleide, a presença nos parlamentos permite colocar as reivindicações da classe trabalhadora na agenda institucional. Sua candidatura também procura ampliar a representação de mulheres negras e do interior do Ceará em espaços nos quais as decisões ainda são tomadas majoritariamente por homens.
“A gente compreende que precisa ocupar esses espaços, que são importantes para que a pauta da classe trabalhadora possa estar na ordem do dia”
Renato Roseno mira a Câmara dos Deputados
Renato relacionou sua candidatura a deputado federal à necessidade de modificar a composição do Congresso Nacional. Ele foi eleito deputado estadual em 2014, 2018 e 2022, depois de ter recebido 114 mil votos em uma disputa anterior pela Câmara Federal, em 2010.
Embora pudesse concorrer a mais um mandato na Assembleia Legislativa, Roseno afirmou que a conjuntura exigiu a aceitação de um novo desafio. O deputado vinculou sua decisão à defesa da democracia, ao fortalecimento do PSOL e à necessidade de garantir representação da esquerda cearense em Brasília.
“O que nos chama à batalha é a realidade”
O parlamentar recordou que o PSOL ainda não conseguiu eleger um deputado federal pelo Nordeste. Segundo ele, o Ceará pode contribuir para romper essa ausência e ajudar o partido a alcançar a votação nacional necessária para superar a cláusula de desempenho.
“O que eu tenho dito é o seguinte: 2026 não é hora de bater na trave”
Roseno ressaltou que sua candidatura não é resultado de uma decisão individual. O nome foi construído em debate com o partido e com os coletivos dos quais participa, dentro de uma estratégia que inclui candidaturas da Federação PSOL-Rede em diferentes regiões do Ceará.
Luizianne e a disputa pelo Senado
A candidatura de Luizianne Lins ao Senado também esteve no centro da entrevista. Para Renato, a decisão da ex-prefeita de Fortaleza de deixar uma posição mais segura na disputa pela Câmara Federal está relacionada à necessidade de impedir que a extrema direita conquiste maioria no Senado.
Ele destacou que o nome de Luizianne não nasceu apenas de negociações partidárias. Mais de mil mulheres assinaram um manifesto em defesa de sua candidatura, iniciativa que se somou à mobilização de jornalistas, comunicadores e integrantes de movimentos sociais.
“Luizianne é candidata porque, em especial, as mulheres do Ceará apresentaram um manifesto lançando Luizianne ao Senado Federal”
Renato também reconheceu o papel desempenhado por Zuleide Queiroz nessa mobilização. Segundo ele, a candidatura de Luizianne passou a representar uma construção coletiva que ultrapassou as direções partidárias e encontrou apoio entre mulheres, trabalhadores e militantes de diferentes organizações.
A Federação PSOL-Rede retirou candidaturas próprias ao Governo do Ceará e à segunda vaga para o Senado, apoiando a chapa formada em torno de Elmano de Freitas, Luizianne Lins e Cid Gomes. Roseno elogiou a posição dos professores Jari e Ana Karina, que aceitaram disputar vagas na Câmara Federal e ajudaram a viabilizar o novo arranjo.
“Se não fosse essa atitude, Luizianne poderia não ter a vaga”
Eleição terá dimensão internacional
Renato afirmou que a eleição brasileira será acompanhada por forças políticas e econômicas internacionais interessadas nos recursos naturais e na posição geopolítica do país. Entre os ativos mencionados estão minerais estratégicos, terras raras e biodiversidade.
O deputado citou a movimentação da extrema direita em diferentes países e declarou que o Brasil passou a ocupar uma posição central nessa disputa. Também mencionou ameaças de novas tarifas norte-americanas relacionadas ao Pix, sistema de pagamento utilizado principalmente por trabalhadores autônomos, microempreendedores e pequenos negócios.
“A extrema direita no planeta está de olho no Brasil. Está de olho nas riquezas estratégicas do Brasil, nos nossos minerais, nas nossas terras raras, na nossa biodiversidade e na nossa sociedade”
Na avaliação do parlamentar, as forças progressistas precisam tratar a defesa do Brasil como elemento central da campanha. Isso inclui preservar recursos estratégicos, impedir interferências externas e construir um projeto nacional capaz de reduzir a dependência econômica.
“O futuro do Brasil vai estar nas urnas em 2026”
Conservadorismo é um projeto político
Zuleide alertou que o bolsonarismo não deve ser compreendido apenas pela atuação de Jair Bolsonaro. Para ela, trata-se da manifestação brasileira de um projeto conservador que também avança em países da América Latina, da Europa e nos Estados Unidos.
“Quando a gente diz Bolsonaro, foi um projeto, não é uma pessoa”
A professora afirmou que o Ceará ocupa uma posição estratégica devido ao peso eleitoral do Nordeste e à importância econômica de seu território. Nas últimas eleições presidenciais, o apoio dos eleitores nordestinos teve papel decisivo na vitória do Presidente Lula. Em 2026, setores conservadores tentarão reduzir essa influência e ampliar sua presença no estado.
Zuleide relacionou a disputa eleitoral aos conflitos envolvendo mineração, grandes obras, recursos naturais e comunidades rurais. Citou situações observadas em Santa Quitéria e no Cariri, onde projetos apresentados como promotores do desenvolvimento afetam vegetação, moradias e modos tradicionais de produção.
“A gente não está discutindo o que vai acontecer no futuro. A gente está dizendo que esse projeto está em curso e precisa parar”
Segundo ela, agricultores perdem espaço para plantar e passam a depender temporariamente dos empregos gerados pelas obras. Quando os empreendimentos avançam para outras áreas, essas comunidades ficam sem trabalho e sem as condições anteriores de subsistência.
“Que emprego e renda é esse que vai passar e deixar os trabalhadores, principalmente do campo, sem perspectiva de futuro?”
Educação integral em disputa
Professora há três décadas, Zuleide também manifestou preocupação com os rumos da educação de tempo integral. Ela defendeu um modelo que incorpore cultura, esporte, lazer, conhecimento científico e saberes populares, em vez de limitar a escola à preparação imediata para o mercado de trabalho.
Embora o Ceará apresente resultados importantes nos indicadores educacionais, a professora considera necessário discutir qual formação está sendo oferecida aos estudantes. A ampliação do tempo na escola, sozinha, não garante uma educação capaz de desenvolver autonomia e consciência crítica.
Para Zuleide, o debate educacional faz parte da disputa sobre o próprio significado do desenvolvimento. Um modelo voltado exclusivamente às demandas empresariais pode formar trabalhadores para funções temporárias sem lhes dar condições de compreender e transformar a realidade em que vivem.
“Quando a gente fala de mulher, fala da possibilidade de a humanidade existir”
A violência contra as mulheres ocupou uma parte central da entrevista. Zuleide lembrou que os efeitos não se restringem à vítima direta, pois atingem crianças, idosos e outras pessoas que dependem do trabalho de cuidado realizado principalmente por mulheres.
“Quando a gente fala de mulher, a gente está falando da possibilidade de a humanidade existir”
A professora observou que o espaço doméstico, frequentemente apresentado como local de proteção, permanece como cenário de grande parte das agressões. Para ela, a legislação conquistada nas últimas décadas precisa ser acompanhada de orçamento, serviços públicos e maior participação das mulheres nas decisões políticas.
“A violência não está na casa de outra pessoa. A violência está dentro de cada casa. Toda família tem uma história para contar”
Zuleide também recordou que o direito feminino ao voto foi conquistado depois de longa mobilização. A participação eleitoral das mulheres, por isso, não pode ser tratada apenas como uma formalidade. Ela envolve o direito de decidir quem administrará o país e quais políticas serão adotadas para enfrentar violência, desigualdade e discriminação.
A professora relacionou a presença de mulheres negras nos parlamentos ao enfrentamento de estruturas herdadas do período escravista. Para ela, candidaturas desse campo colocam o próprio corpo e a própria trajetória a serviço de um projeto coletivo.
“Nós colocamos nossos corpos, nosso CPF, no contexto de um projeto”
Democracia contra o anti-humanismo
Ao analisar a disputa presidencial, Renato Roseno afirmou que críticas ao governo Lula são legítimas, mas alertou para o risco de serem instrumentalizadas pelo bolsonarismo. Segundo ele, as eleições terão caráter quase plebiscitário entre um projeto democrático e outro baseado na redução de direitos.
“O bolsonarismo reivindica o que há de pior na política: o racismo, a misoginia e o ódio às mulheres. Eles são contra a democracia e os direitos humanos”
O deputado apresentou a defesa da justiça social, do meio ambiente, das políticas educacionais e do respeito às diferentes formas de fé como parte de um projeto humanista. Também pediu diálogo com mulheres que se identificam com posições conservadoras, especialmente aquelas preocupadas com o futuro dos filhos.
“O nosso projeto é o que mais quer investir em universidade pública, o que quer mais investir em Instituto Federal e o que consegue gerar mais empregos”
Renato recordou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 para argumentar que a democracia brasileira continua sob ameaça. Ele questionou o que teria acontecido com organizações sociais, comunicadores e militantes caso os golpistas tivessem alcançado seus objetivos.
“Onde estaríamos agora se eles tivessem dado o golpe?”
Influenciadores e o sequestro da indignação
Roseno demonstrou preocupação com o apoio de parte da juventude a candidaturas conservadoras. Para ele, a extrema direita conseguiu capturar insatisfações reais e apresentar políticos profissionais como figuras contrárias ao sistema.
O crescimento do “político influenciador”, segundo o deputado, substitui frequentemente a formulação de propostas pela produção permanente de vídeos para as redes sociais. Nessa dinâmica, conflitos complexos são transformados em conteúdo de circulação rápida, com pouca discussão sobre políticas públicas.
“Eles basicamente vivem de fazer vídeo em rede social, despolitizando a política”
Para enfrentar esse fenômeno, Roseno defendeu que os jovens sejam chamados à organização em movimentos, coletivos e partidos. A participação não deve se restringir ao calendário eleitoral, mas incluir formação política e atuação continuada nas comunidades.
“A antipolítica só leva à violência. A luta por direitos e por democracia precisa ter aliados”
Trabalho por aplicativo e retirada de direitos
Na parte final do programa, Renato analisou as transformações no mercado de trabalho. Ele afirmou que o crescimento das plataformas digitais criou formas de ocupação sem assegurar aos trabalhadores direitos previdenciários e proteção diante de acidentes.
O parlamentar citou o caso dos entregadores por aplicativo, submetidos ao trânsito e a longas jornadas sem vínculo reconhecido com as empresas. Quando sofrem acidentes, o atendimento e os custos recaem sobre o Sistema Único de Saúde e, nos casos em que há contribuição, sobre a Previdência Social.
Para Roseno, as grandes empresas de tecnologia e as instituições financeiras digitais alcançaram uma influência comparável à exercida por petrolíferas e bancos tradicionais em períodos anteriores. O resultado é uma economia capaz de acumular riqueza enquanto transfere riscos para trabalhadores e serviços públicos.
“O grande problema dessa revolução é que ela está concentrando riqueza”
Fim da escala 6 por 1
Renato defendeu o fim da escala 6 por 1 como uma medida necessária para devolver tempo aos trabalhadores. A redução da jornada foi apresentada como parte de um projeto econômico comprometido com direitos sociais e qualidade de vida.
“A gente é a favor do fim da escala 6 por 1 para as pessoas terem mais tempo para viver”
O parlamentar destacou a atuação de Érika Hilton na apresentação da proposta e mencionou outras iniciativas da bancada do PSOL, como a lei de Duda Salabert para garantir água potável nas escolas.
Para Renato, esses exemplos demonstram que mulheres trans eleitas para o Parlamento não atuam exclusivamente em pautas relacionadas à população trans. Seus mandatos também apresentam propostas sobre educação, trabalho e serviços públicos.
Recursos naturais e dependência econômica
O deputado identificou na plataformização do trabalho, na financeirização e no extrativismo componentes do projeto ultraliberal. Segundo ele, setores econômicos internacionais querem explorar recursos como o lítio e as terras raras sem permitir que o Brasil domine as tecnologias necessárias para industrializá-los.
“Eles querem explorar os nossos recursos e nos manter como colônia dependente”
Em vez de apenas exportar matéria-prima, Renato defendeu um projeto de desenvolvimento autônomo, com investimento público, distribuição de riqueza e proteção da natureza. Essa proposta exige parlamentares capazes de relacionar debates ambientais, trabalhistas e econômicos.
“Nós defendemos distribuição da riqueza, do saber, do poder e respeito à natureza”
Ao encerrar sua participação, Roseno voltou a pedir atenção especial à juventude. Ele afirmou que os jovens precisam participar da política sem se deixar capturar pelo ressentimento ou por figuras que se apresentam como salvadores por produzirem conteúdo eficiente nas redes sociais.
“A gente precisa de uma juventude autoconsciente, auto-organizada e que reescreva o próprio futuro”
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