Especialista alerta para riscos à soberania nacional diante de mudanças na gestão dos dados públicos, do avanço da inteligência artificial e da crescente dependência tecnológica de grandes plataformas
Da Redação
Os desafios da soberania digital brasileira e o futuro do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística foram o centro do debate da edição do programa Trilhas da Soberania, promovido em parceria entre a TV Código Aberto, TV Travessia, Rede Lawfare Nunca Mais, Rádio e TV Atitude Popular e outros canais de comunicação independente. A entrevistada foi a servidora do IBGE Gisela Colares, que analisou as recentes mudanças na gestão da infraestrutura tecnológica do instituto e seus impactos sobre a produção das estatísticas oficiais do país.
Ao lado dos comentaristas Ludmila Cindra, Reynaldo Aragon, Ricardo Silveira e Luiz Del City, Gisela afirmou que o debate ultrapassa questões administrativas e envolve diretamente a capacidade do Estado brasileiro de manter o controle sobre informações estratégicas para o planejamento nacional.
“O IBGE precisa continuar sendo um órgão de Estado.”
Dados públicos e soberania nacional
Segundo Gisela Colares, a incorporação de novas tecnologias é necessária, mas vem sendo conduzida de forma acelerada e sem as salvaguardas técnicas e institucionais indispensáveis.
Ela criticou especialmente a adoção de soluções de computação em nuvem intermediadas pelo Serviço Federal de Processamento de Dados, que utilizam infraestrutura de grandes empresas internacionais.
Na avaliação da pesquisadora, embora os dados permaneçam fisicamente em território nacional, continuam submetidos às legislações dos países onde estão sediadas essas empresas.
“A gente acaba tendo os nossos dados circulando em infraestrutura de grandes transnacionais.”
Ela lembrou que legislações estrangeiras podem permitir o acesso a essas informações em determinadas circunstâncias, comprometendo a autonomia do Estado brasileiro.
O valor estratégico dos dados do IBGE
Durante a conversa, Reynaldo Aragon destacou que os dados produzidos pelo IBGE não apenas descrevem o Brasil, mas permitem antecipar tendências econômicas, sociais e territoriais.
Segundo ele, na era da inteligência artificial, quem controla esse tipo de informação obtém vantagens comerciais, tecnológicas e geopolíticas.
Gisela concordou com a avaliação e observou que as estatísticas oficiais possuem enorme valor justamente porque são produzidas segundo metodologias públicas e reconhecidas internacionalmente.
Ela alertou que empresas privadas necessitam dos dados do IBGE para dar significado aos grandes volumes de informações coletadas pelas plataformas digitais.
“Eles precisam muito mais dos nossos dados do que a gente precisa da tecnologia deles.”
Inteligência artificial exige conhecimento técnico
Ao longo da entrevista, Gisela rejeitou a ideia de que servidores do instituto sejam contrários à inovação tecnológica.
Segundo ela, o próprio IBGE foi pioneiro em diversas tecnologias de coleta de dados e exportou conhecimento para outros países.
O problema, afirmou, é substituir o conhecimento acumulado dos servidores por soluções desenvolvidas externamente, sem participação efetiva do corpo técnico.
“Quem vai fazer a integração das bases de dados não é a tecnologia. É preciso conhecimento sobre como esses dados foram produzidos.”
Ela explicou que produzir estatísticas oficiais envolve procedimentos metodológicos complexos, impossíveis de serem reproduzidos apenas por especialistas em programação ou ciência de dados sem experiência na realidade do instituto.
Infraestrutura própria como condição de soberania
Outro ponto enfatizado pela convidada foi a necessidade de o Estado investir em infraestrutura tecnológica própria.
Na avaliação da pesquisadora, depender permanentemente da contratação de serviços privados cria vulnerabilidades operacionais e reduz a autonomia nacional.
“O Estado, para ser soberano, precisa investir na sua própria infraestrutura física.”
Ela observou que a tecnologia deve servir como instrumento de apoio ao trabalho técnico, e não substituir a capacidade institucional construída ao longo de décadas.
Orçamento e autonomia
Gisela também defendeu que o IBGE receba tratamento semelhante ao concedido a outras instituições estratégicas do Estado brasileiro.
Segundo ela, o instituto precisa ser protegido dos sucessivos cortes orçamentários, pois sua atividade influencia praticamente todas as políticas públicas nacionais.
“Mesmo no Estado mínimo, o IBGE precisa ser máximo.”
Ela argumentou que dados de baixa qualidade comprometem desde programas sociais até decisões econômicas, investimentos públicos e planejamento governamental.
A importância da educação estatística
Questionada sobre como aproximar a população do trabalho realizado pelo instituto, Gisela propôs ampliar a educação estatística no país.
Uma das sugestões apresentadas foi incluir conteúdos relacionados ao IBGE e à leitura de indicadores oficiais no ensino médio.
Segundo ela, compreender como os dados são produzidos fortalece a cidadania e dificulta a disseminação de desinformação.
Críticas à gestão atual
Ao comentar a atual administração do instituto, Gisela afirmou que parte significativa das decisões vem sendo tomada sem diálogo efetivo com os servidores responsáveis pela produção das pesquisas.
Ela relatou que muitos espaços de participação funcionam apenas formalmente e que as contribuições técnicas frequentemente não são incorporadas às decisões finais.
Na avaliação da pesquisadora, o conhecimento acumulado ao longo de décadas constitui um patrimônio institucional que precisa ser preservado.
Referências
- A Era do Capitalismo de Vigilância — The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, 2019
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