No Dia das Mães, dados sobre trabalho doméstico e cuidado recolocam no centro do debate nacional a redução da jornada e o direito à convivência familiar
O avanço do debate sobre o fim da escala 6×1 no Brasil ocorre em meio a um conjunto de dados que expõe uma realidade persistente: mulheres brasileiras seguem submetidas a jornadas de trabalho significativamente maiores quando se soma o emprego formal às tarefas domésticas e de cuidado realizadas sem remuneração.
Levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que milhões de mulheres acumulam horas extras invisíveis dentro de casa, sustentando uma estrutura social baseada no trabalho de cuidado não reconhecido economicamente. O cenário ajuda a explicar por que a discussão sobre redução da jornada semanal deixou de ser apenas uma pauta sindical e passou a ocupar espaços acadêmicos, movimentos sociais, parlamentos e setores do debate público.
Atualmente, cerca de 32% dos trabalhadores brasileiros atuam em jornadas superiores às 44 horas semanais formais. Em muitos casos, especialmente nas atividades organizadas pela escala 6×1, o tempo de descanso se reduz drasticamente. Para mulheres, entretanto, a carga real costuma ultrapassar muito esse limite, já que o expediente remunerado normalmente continua dentro de casa.
Especialistas classificam esse conjunto de tarefas como parte da chamada “economia do cuidado”, conceito utilizado para descrever atividades indispensáveis para o funcionamento da sociedade, como cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos, pessoas doentes e organizar a vida doméstica. Embora fundamentais para a reprodução da vida social e da própria economia, essas atividades continuam majoritariamente invisíveis nas estatísticas tradicionais de produtividade.
A desigualdade aparece também na ocupação do mercado de trabalho. Mulheres submetidas a jornadas mais rígidas e precarizadas tendem a ocupar funções com baixa remuneração e pouca possibilidade de ascensão profissional. A dificuldade de acesso à rede de apoio, creches públicas e serviços de cuidado aprofunda ainda mais o problema.
O tema ganhou novo impulso político após a apresentação da Proposta de Emenda à Constituição protocolada pela deputada federal Erika Hilton. A proposta prevê a redução da jornada semanal para 36 horas e atinge diretamente o modelo da escala 6×1, predominante em setores como comércio, serviços e atendimento.
Em abril de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade das PECs que tratam da redução da jornada de trabalho. Na sequência, foi instalada uma comissão especial para discutir o mérito das propostas, incluindo a PEC 8/2025, apresentada por Erika Hilton, e a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes. O colegiado iniciou audiências públicas e apresentou um cronograma que prevê votação do relatório ainda em maio no plenário da Câmara dos Deputados.
No pronunciamento em cadeia nacional realizado em 30 de abril, em virtude do Dia do Trabalhador, o Presidente Lula também associou diretamente a escala 6×1 à deterioração da convivência familiar e ao impacto sobre as mulheres trabalhadoras.
“No Brasil, muitas mães saem de casa para trabalhar cedo com os filhos ainda dormindo e voltam tarde com os filhos já na cama. Ela só tem um dia para descansar e cuidar da família. Isso não é justo. O trabalho dignifica, constrói o país, mas não pode separar mãe e filhos. Por isso, estamos propondo o fim da escala 6 por 1, sem corte de salário. Vamos juntos. O Brasil é mais forte com as famílias unidas.”
A fala do presidente ajudou a consolidar uma mudança importante na percepção pública sobre o tema. A escala 6×1 passou a ser discutida não apenas como questão trabalhista, mas como problema social, familiar e de saúde pública.
Nesse contexto, a Rádio e TV Atitude Popular vem propondo a movimentos sociais, sindicatos e entidades populares uma campanha nacional em defesa da soberania brasileira e pela construção de um “Congresso Amigo do Povo”. Um manifesto está sendo redigido por intelectuais e ativistas do Ceará que discutem formas de influenciar o processo eleitoral deste ano diante do avanço da precarização do trabalho e da deterioração das condições de vida da população trabalhadora.
Segundo os organizadores, a luta pelo fim da escala 6×1 dialoga diretamente com esse projeto porque envolve discutir que tipo de desenvolvimento econômico o país pretende construir. A avaliação do grupo é que não existe soberania nacional consistente sem valorização do trabalho, ampliação do tempo livre e garantia de condições dignas de vida para a população.
Os apoiadores interessados em conhecer a campanha e assinar o manifesto podem acessar o site da Campanha Brasil Soberano. https://campanhabrasilsoberano.com.br/
No Dia das Mães, os dados sobre trabalho doméstico e sobrecarga feminina recolocam uma questão estrutural no centro do debate público brasileiro: quem sustenta, diariamente, a vida social do país e quanto custa, física e emocionalmente, manter essa estrutura funcionando.












