Sociólogo analisa o crescimento do eleitorado acima de 60 anos, os desafios do envelhecimento da população e o impacto desse segmento nas eleições de 2026
Da Redação
O crescimento acelerado da população idosa está transformando a política brasileira. Com cerca de um quarto do eleitorado formado por pessoas com mais de 60 anos, esse segmento passou a ocupar posição estratégica nas disputas eleitorais e pode ser decisivo para definir os rumos do país nos próximos anos. O tema foi debatido no programa Democracia no Ar, da Atitude Popular, que recebeu o sociólogo e cientista político Paulo Baía para uma análise sobre o papel dos idosos na sociedade e nas eleições brasileiras.
Professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador da área de opinião pública e analista de pesquisas eleitorais, Paulo Baía destacou que o envelhecimento da população brasileira está produzindo mudanças profundas na vida social, econômica e política do país. Segundo ele, compreender as demandas desse público será fundamental para qualquer candidatura competitiva em 2026.
Ao longo da entrevista, Baía chamou atenção para uma contradição que marca a realidade dos idosos brasileiros. Embora sejam frequentemente invisibilizados nas políticas públicas, eles ocupam papel central na sustentação financeira e afetiva de milhões de famílias.
“Você tem de um lado uma invisibilidade e de outro um protagonismo exploratório. O idoso conquista a aposentadoria e, ao mesmo tempo, precisa dar atenção aos filhos, aos netos e ajudar financeiramente a família”, afirmou.
O pesquisador observou que muitos idosos seguem sendo os principais provedores de seus lares, especialmente em um contexto de precarização do trabalho e dificuldades econômicas enfrentadas pelas gerações mais jovens. Ao mesmo tempo, enfrentam obstáculos relacionados ao acesso à saúde, mobilidade urbana, lazer, trabalho e participação social.
“Ele é invisível na infraestrutura das cidades, é invisível na questão do entretenimento, é invisível na questão do trabalho que necessita para complementar renda”, destacou.
Para Baía, o debate sobre envelhecimento não pode ser reduzido apenas às dificuldades enfrentadas por essa parcela da população. Ele lembra que os idosos de hoje mantêm uma vida social ativa, desejam participar de atividades culturais, viajar, namorar, frequentar festas e continuar exercendo protagonismo em suas comunidades.
A análise também abordou os impactos demográficos do envelhecimento da população brasileira. Segundo o sociólogo, a combinação entre queda da natalidade e aumento da expectativa de vida está alterando a composição do eleitorado em ritmo acelerado.
“Estamos com uma idade média de 80 anos para os homens e 84 anos para as mulheres. Essa conjugação de baixa natalidade e aumento da longevidade transforma essa população numa massa eleitoral cada vez mais importante”, explicou.
Baía citou pesquisas recentes que apontam uma diferença significativa entre o peso eleitoral dos idosos e dos jovens. Enquanto a faixa entre 16 e 24 anos representa cerca de 11% dos eleitores registrados, os brasileiros com mais de 60 anos já correspondem a aproximadamente 24% do eleitorado.
A entrevista também discutiu o desempenho dos principais candidatos junto ao eleitorado idoso. Embora pesquisas indiquem vantagem do Presidente Lula entre os brasileiros acima de 60 anos, Baía considera que essa vantagem poderia ser ainda maior diante da trajetória política do petista e de sua identificação histórica com esse segmento.
Segundo ele, porém, a relação entre os idosos e a política é mais complexa do que parece.
“O idoso não vota em idoso. O idoso vota em quem lhe dá proximidade, em quem transmite alguma forma de acolhimento”, afirmou.
Na avaliação do pesquisador, sentimentos como abandono, solidão e falta de reconhecimento têm influenciado parte do comportamento eleitoral dessa população. Ele observou que muitos idosos percebem a ausência de políticas públicas adequadas e acabam transformando esse sentimento em voto de protesto.
“O idoso sente essa ausência. E essa carência é preenchida com um certo cansaço e, às vezes, com uma certa dose de vingança”, afirmou.
Baía defendeu que governos e candidatos avancem em políticas voltadas à convivência social, ao combate à solidão e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. Como exemplo, citou experiências internacionais que remuneram jovens para acompanhar idosos em atividades cotidianas.
“Proximidade. Essa é a palavra-chave. O idoso sente falta de proximidade no posto de saúde, na UPA, nas relações de vizinhança e até dentro da própria família”, observou.
Outro tema abordado foi o impacto da digitalização dos serviços públicos sobre a população idosa. O sociólogo relatou as dificuldades enfrentadas por muitos brasileiros para acessar plataformas digitais, realizar cadastros e utilizar serviços governamentais que migraram para ambientes virtuais.
Segundo ele, a exclusão digital se tornou uma nova forma de desigualdade que afeta especialmente os mais velhos.
A entrevista também tratou da representação política dos idosos. Baía destacou exemplos de lideranças que seguem atuando na vida pública e chamou atenção para a necessidade de ampliar a participação direta dessa parcela da população nos espaços de decisão.
Para o pesquisador, o envelhecimento da sociedade brasileira exige uma revisão das prioridades do debate público. Questões como saúde, mobilidade, combate ao etarismo, inclusão digital, renda, cuidado e participação política tendem a ganhar cada vez mais relevância nas próximas disputas eleitorais.
Ao final da conversa, ele ressaltou que compreender o eleitorado idoso não significa apenas analisar números ou pesquisas, mas entender as transformações sociais que estão redesenhando o Brasil.
“O idoso passa a ser protagonista da própria vida. Ele não está apenas em casa. Está nas viagens, nos grupos, nos movimentos sociais, na política e participando ativamente da sociedade”, concluiu.
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